quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

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32 por 32 - L32

Quem acompanhou a coluna 32 por 32 ao longo da temporada regular percebeu que ela tinha um quadro tático com imagens, desenhos e explicações. Durante os playoffs, a coluna focou mais no texto sobre um assunto do momento e para o Super Bowl resolvi voltar o foco a essa parte do jogo que gosto muito, a tática. Vamos então analisar duas jogadas de cada finalista, uma de ataque e uma de defesa (e mais uma bônus).

olho tático

Começamos com o Denver Broncos. Primeiro com uma jogada de ataque e, em seguida, separamos duas jogadas defensivas justamente pelo fato de ter sido a defesa da equipe quem chamou a atenção. Uma análise envolvendo a secundária e outra o pass rush, dois fatores decisivos na final da AFC.

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A leitura pré-snap de Peyton Manning lhe mostra 6 homens no box (se tem dúvidas quanto a termos de futebol americano veja nosso dicionário aqui) e, ao observar seus Wide Receivers, ele certamente percebe de cara uma diferença óbvia: os dois do seu lado esquerdo estão sendo marcados de perto pelos corners do Patriots (press coverage), enquanto que à sua direita, Emmanuel Sanders tem o responsável por lhe cobrir há uma distância de 10 jardas, típica off coverage, respeitando a agilidade do recebedor.

A rota que ele percorre é perfeita contra esse tipo de marcação, pois ele avança 12 jardas e corta voltando em direção ao seu QB e para a lateral como pode ver a seta. Assim, quando ele começa a arrancar, o CB vai recuando também, daí o WR faz o corte, para e volta, momento em que a bola já saiu das mãos de Peyton para a recepção tranquila e sem riscos.

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Observe nessa imagem o momento do corte, em que ele para e volta para trás de forma que pudesse fazer a recepção. O detalhe é que no momento da pausa brusca, ele está há uma distância de 5 jardas de seu marcador, uma ótima e segura separação para o QB, reduzindo muito qualquer risco de interceptação. Essa rota se chama Comeback e o próprio nome já explica o motivo.

É esse tipo de jogada que Manning vai tentar explorar contra o Panthers, ou seja, duelos e rotas que deem a ele segurança e ganho efetivo. Esse passe para Sanders foi suficiente para conquistar o first down.

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Essa é a jogada defensiva do Broncos a ser analisada nessa coluna levando em conta a secundária. Denver conseguiu parar o New England Patriots de duas formas, sendo extremamente efetivo no Pass Rush – mesmo quando mandava apenas três homens – e povoando sua cobertura com 7 ou 8 atletas. Nesse caso, é possível notar que Von Miller recua da linha de scrimmage para ajudar na marcação (amarelo), o que deixa o time com apenas três defensores (setas vermelhas) para tentar derrubar ou atrapalhar Brady.

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Algumas coisas bem interessantes nessa imagem, inclusive abrindo espaço para que possamos comentar sobre o que deve mudar para o Super Bowl 50, quando o adversário tem outro estilo (corre com o bom RB e com seu QB, diferente do Patriots). Primeiro que são apenas três jogadores no pass rush e mesmo assim Ware consegue pressionar Brady e apressar o passe, isso é fundamental.

De nada adianta colocar oito defensores na cobertura, deixando oito marcadores contra cinco recebedores se o quarterback tiver 3 ou 4 segundos para lançar, pois com esse tempo não tem secundária que segure, ainda mais contra um Tom Brady ou Cam Newton. Uma defesa que manda oito para cobrir o passe e apenas três para pressionar o QB e ainda assim consegue essa pressão é muito acima da média. E isso aconteceu frequentemente na temporada do Broncos e não em uma vez ou outra.

No Super Bowl, os comandados de Gary Kubiak vão ter que povoar o box contra corridas de Stewart e Newton e não recuar tantos na cobertura, pois Carolina não é um time que segue o estilo de New England, que pouco corre e lança 50 bolas no jogo.

Pass Rush vai ser chave para o representante da AFC contra o Panthers e, por isso, separei essa última jogada da análise do Broncos focada justamente nesse elemento tão importante.

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technique

Veja a imagem da jogada momentos antes do snap e abaixo uma figura indicando as techniques. Se você tem dificuldades com Gaps e Techniques leia o olho tático da minha coluna da semana 15 aqui. Nota-se que o A Gap está sem nenhum defensor responsável (setas amarelas), isso porque não há ameaça de corrida e nenhum RB posicionado para tal, sendo assim, os jogadores do interior da linha defensiva adotam uma postura mais agressiva e alinham-se em 3-tech (veja na gravura acima que o número 3 fica no ombro externo do Left Guard ou do Right Guard, exatamente como os jogadores do Broncos estão).

Pelas pontas, Von Miller e DeMarcus Ware estão em 9-tech ou Wide Nine, pois se alinham no ombro externo do TE, caso houvesse algum ali. Imagine um na figura que você vai perceber como eles estão bem afastados e isso propicia um bom speed rush, uma das técnicas de pass rush que explico logo abaixo.

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A Speed Rush nada mais é que o uso da velocidade para ganhar dos Offensive Tackles, correndo por fora deles. É isso que Miller e Ware (setas vermelhas) fazem com o RT e o LT do Patriots, respectivamente. Não há uso da força nem qualquer embate físico, nessa espécie de pass rush é a velocidade e arranque que garantem a pressão no QB e o sack, eventualmente.

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E aí está o desenvolvimento da jogada. A Gap livre, jogadores de interior em 3-tech, OLBs em 9-tech e speed rush que resulta em sack duplo de Von Miller e DeMarcus Ware. Selvagem! Vamos analisar agora as duas jogadas escolhidas do Panthers, uma de defesa e outra de ataque.

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Estamos diante de uma das espécies de Zone Blitz nessa jogada. Desenvolvida por Dick LeBeau e Dom Capers, a Zone Blitz é uma blitz inteligente que visa causar confusão nos jogadores da linha ofensiva fazendo um dos defensores (ou mais) fingirem que vão para cima, mas recuando em seguida para que outros rushers venham com tudo de trás sem tempo para que a OL se ajuste. Na secundária, quem recua cobre em zona, daí o nome Zone Blitz. Estratégia inteligente e criativa de pressão, ao mesmo tempo que não deixa de se cuidar na secundária.

A Fire Zone Blitz, por exemplo, usa três defensores em zona cobrindo as primeiras 10 jardas (cada um cuidando de 33% do campo nessa faixa) e outros três também em zona recuados cobrindo 1/3 do fundo do campo cada. Há inúmeras variações desse estilo.

Nesse lance, Mario Addison (vermelho) está preparado para avançar, mas na verdade irá recuar, deixando o Right Guard (seta preta no capacete) sem saber quem bloquear. Ryan Delaire (seta azul) vai atacar o B Gap (entre o RG e o RT) para fazer com que ambos o bloqueie e liberar terreno para Thomas Davis (amarelo) ter apenas um Running Back (seta amarela) à sua frente e passar por cima.

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Nessa segunda imagem fica bem claro que Mario Addison (vermelho) e Luke Kuechly (verde) já estão recuando para cobrir em zona, enquanto Ryan Delaire (seta azul) ataca o B Gap e Thomas Davis (amarelo) segue para o um contra um versus um pobre Running Back que não tem qualquer chance de pará-lo. Na ponta direita tem um CB na Zone Blitz, mas vou abordar ele em outro ângulo mais abaixo.

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Para finalizar nesse ângulo da jogada, vale perceber que o Center bloqueia um jogador, mas nas pontas o Cardinals está todo atrapalhado e não conseguiu ajustar à Zone Blitz. Left Tackle e Left Guard bloqueando apenas um jogador (verde) e na outra ponta o mesmo (azul). Como consequência, Thomas Davis (amarelo) atropela o RB e o CB que vinha em cornerback blitz passa livre em direção a Carson Palmer (seta verde). Passe incompleto.

No canto inferior esquerdo, vemos Addison (vermelho) cobrindo a sua Zona. Na imagem abaixo analisaremos essa mesma jogada, mas por outro ângulo e com novas observações, especialmente no que diz respeito a Fitzgerald e a cornerback blitz.

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(Essa jogada é a mesma da anterior analisada acima sob novo ângulo e observações).

Um dos objetivos do Panthers nessa jogada, como já explicado anteriormente, é fazer com que Thomas Davis fique no um contra um diante de um RB e, na ponta direita, que o CB (amarelo) passe desbloqueado na Blitz (Zone Blitz).

Agora foco no Larry Fitzgerald (azul). Percebe como ele está aparentemente livre? O que se passa na cabeça de Carson Palmer ao ver isso pré-snap? Digamos que ele provavelmente acreditou que o CB voltaria para a marcação logo após o snap ou, vindo em blitz, o Safety (vermelho, a quase 15 jardas de distância) seria o responsável por impedir o passe para o veterano wide receiver, o que faria e fez dele a primeira leitura de passe para o QB. Ledo engano. O Panthers de Ron Rivera veio com uma terceira opção bem criativa que foi recuar Luke Kuehcly (seta verde) da linha de scrimmage para a região que Fitz correria sua rota. No fim, Kuechly ficou praticamente em cobertura dupla com o Safety, impedindo o passe para o recebedor e fazendo com que Palmer segurasse um pouco mais a bola, a pressão da Zone Blitz fizesse efeito e ele não conseguisse completar o lançamento.

Abaixo, ainda nesse lance, vou falar de como o Broncos pode usar seus recebedores e escapar desse tipo de armadilha do Panthers.

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Desenho aéreo da Zone Blitz do Carolina Panthers com Addison (vinho) e Kuechly (verde) tomando conta de suas Zonas do campo.

Você certamente deve ter prestado atenção que Fitzgerald está com um seta preta na imagem anterior e nessa, mas não foi a rota que ele fez na jogada. Na realidade, ele seguiu em profundidade e marcado por dois. A seta preta (melhor ver na imagem anterior a essa de cima) representa a rota Out, onde o recebedor corre de 5 a 15 jardas e corta para a lateral do campo. O motivo de colocar ela na figura é bem simples, o Broncos pode usar com seus wide receivers uma coisa bem útil e que o Cardinals não fez uso: a Option Route. E como funciona isso? O nome diz tudo, mais uma vez. É uma rota em que não existe rota única pré-definida, já que o atleta tem duas ou três opções de rotas para usar qual achar mais eficiente dependendo de como estiver a cobertura sobre ele.

No exemplo do Fitzgerald, se fosse o Safety (vermelho) marcando ele, poderia correr uma rota comeback (já vimos essa rota lá acima com o Sanders pelo Broncos. Sobe lá) devido a grande separação prévia entre eles. Como foi Kuechly quem veio na marcação e vindo da direita do recebedor, ele poderia fazer uma rota out (a seta preta mostra como ela é) para fora do campo se distanciando do linebacker, o que daria bom ganho de jardas, talvez até um fisrt down. O Broncos poderia usar o conceito de Option Route em algumas ocasiões como essa, pois a Zone Blitz do Panthers é devastadora e muito bem executada. Manning que se cuide.

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Analisando agora uma jogada de ataque do Panthers para finalizar. É bem simples e a maioria já deve conhecer, porém não podia ficar de fora porque ela pode ser o diferencial no duelo. É a Read Option/Zone Read.

Carolina usou ela da seguinte forma nesse lance: Colocou Greg Olsen (vermelho) para bloquear Rashad Johnson (#26, Safety), saindo da esquerda para a direita da defesa e usou Cam Newton e Jonathan Stewart na Read Option em si, onde Cam deveria ler o OLB Markus Golden (amarelo). Se ele fosse por dentro em direção ao Running Back, o QB pegaria a bola e correria por fora, caso o defensor fechasse a passagem de Newton ao correr mais aberto, ele entregaria a bola ao RB. Toda a jogada dependia de qual direção Golden seguiria.

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Read Option nada mais é do que uma jogada em que o QB tem a opção de entregar a bola para o RB ou correr ele mesmo com ela. Na imagem, notamos que Golden (amarelo) foi por dentro perseguindo o Running Back, então, ao ver isso, Cam Newton não fez o handoff e permaneceu com a bola para correr por fora e contando com o bloqueio do seu Tight End Greg Olsen.

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E assim a jogada se desenvolveu. Olsen efetuando seu bloqueio para anular Johnson (vermelho) e Golden (amarelo) completamente perdido sem saber onde a bola estava. Cam Newton (azul) correu para conquistar 7 jardas e a primeira descida no lance.

Para o Super Bowl, essa é uma jogada que o Denver Broncos precisará estar preparado porque contra esse ataque não basta bom pass rush e secundária, é preciso também limitar Cam Newton por terra, o que é uma tarefa bem inglória.

Qualquer dúvida sobre algum dos conceitos táticos apresentados só comentar aqui no site ou no meu Twitter que respondo com prazer. Bom Super Bowl 50 à todos.

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