Vamos falar de Draft? (Parte II)

25 de novembro de 2016
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Na semana passada, comecei a escrever sobre o Draft e dei meus pitacos no que acho sobre os jogadores ofensivos que possivelmente vão para a NFL em 2017 e o que eu olho quando estudo as posições. Hoje vou continuar essa análise, focando nos jogadores defensivos. Mas antes disso, algumas coisas que me perguntaram durante a semana e eu acho legal responder na coluna.

A pergunta mais recorrente foi: onde ver os vídeos dos jogadores que vão pro Draft? Existe um site muito bom chamado Draft Breakdown em que eles disponibilizam, de graça, vídeos desses jogadores separados por jogo e ano. É o site que eu mais uso pra estudar esses jogadores e recomendo a todos que o acessem para fazer o mesmo. Outra pergunta que me fizeram bastante é: como aprender esses macetes de scouting? Primeiramente você precisa de uma boa bagagem teórica sobre futebol americano (e o Liga dos 32 tem um bom arquivo pra você aprender sobre isso) porque o estudo de jogadores nada mais é do que uma análise se um jogador se encaixa na NFL pelos motivos X, Y e Z. Há alguns cursos (bem caros, diga-se de passagem) online que ensinam scouting mais a fundo, mas eu não recomendo. A melhor forma de pegar isso é aprender o máximo possível sobre o teórico do futebol americano e ir lendo a opinião de gente que analisa o Draft de forma profissional (recomendo bastante o Dane Brugler, Josh Norris e o Shane Alexander) porque eles vão dando esse insight do que procurar e ver no estudo de jogadores.

Bem, entrando no tema da coluna em si, essa semana vou analisar os jogadores de defesa. Logo de cara já digo que analisar jogadores de defesa que vão pro Draft sempre é uma tarefa bem mais complicada do que analisar os jogadores de ataque porque exige um conhecimento bem maior de esquemas defensivos e de um glossário do cada posição faz em um jogo por parte daquele que está estudando. Genericamente, pra todas as posições defensivas, você sempre procura estudar se os jogadores têm um tripé essencial pra jogar na NFL: aptidão física, apuração técnica e instintos.

A primeira é um tanto quanto óbvia, o jogador precisa ter uma velocidade e força considerável pra conseguir ficar de frente aos verdadeiros “freaks” que jogam no ataque, como wide receivers e jogadores de linha ofensiva. Para isso, os exercícios de campo do NFL Scouting Combine são essenciais porque avaliam, em um ambiente controlado, esse potencial físico dos jogadores. A apuração técnica também é essencial porque um jogador de defesa, independentemente da posição em que ele joga, precisa saber ler o que o ataque adversário tá fazendo pra tentar antecipar a jogada. É nesse ponto que muitos times pecam, escolhem jogadores de enorme potencial físico, mas que não conseguem diferenciar nada do que um ataque faz durante a partida e isso vira um “bottleneck” no seu desenvolvimento como jogador. O último ponto desse tripé tá intrinsicamente ligado à apuração técnica, o jogador precisa aliar esse seu conhecimento com instintos do que vai acontecer na jogada. Não adianta o cara saber o que tá acontecendo e não aplicar na prática, não conseguindo se posicionar em uma jogada porque pensou demais. Ou seja, aquela conversa que os linebackers são o quarterback da defesa é uma besteira enorme porque todos os jogadores defensivos, em maior ou menor grau, precisam ter conhecimento tático do que um ataque tá fazendo.

Claro, você pode argumentar que os jogadores do ataque também se utilizam desse tripé, mas eles têm uma vantagem enorme: sabem qual jogada será utilizada. Por isso que a adaptação de um jogador de skill position (como RB ou WR) que pula da NCAA pra NFL normalmente é muito menos turbulenta do que um jogador defensivo, o que é exigido deles em termos táticos é bem menor. Por isso também que quando um time consegue um novato na defesa que joga em alto nível desde o início ele vira um daqueles jogadores “cornerstone” da franquia que vão receber contratos absurdos após quatro anos na NFL.

Agora que eu expliquei o que eu vejo em termos gerais para todos os jogadores da defesa, vamos pra análise de cada posição específica!

Defensive End

Myles Garrett

Para avaliar um defensive end, primeiramente você precisa saber qual é o esquema defensivo em que ele joga. E isso é muito importante porque um DE que joga em esquema 4-3 é bastante diferente de um que joga em 3-4. No primeiro se trata de um jogador mais leve, com boa explosão e que vai se alinhar principalmente como 7-tech (fora do alinhamento da linha ofensiva adversária) para ser utilizado como power end em situações de corrida ou pass rusher. Já na formação 3-4, o jogador tem que ser maior para conseguir se encaixar na 5-tech, ou seja, fechando os gaps no bloqueio de um ou dois jogadores da linha ofensiva adversária e também tendo força o suficiente para subir para o pass rush quando necessário.

São poucos os times na NCAA que utilizam um esquema defensivo 3-4 porque ele exige uma apuração técnica que a maioria dos jogadores universitários não tem, então os jogadores que vão pro Draft são pass rushers e em alguns deles eu vejo potencial pra jogar como 5-tech. Ainda preciso avaliar mais à fundo a posição, mas preliminarmente vejo um grupo de jogadores bem parecido com o Draft desse ano: fortes e com alta explosão na linha de scrimmage.

Principais jogadores: Jonathan Allen (Alabama), Myles Garrett (Texas A&M), Solomon Thomas (Stanford), Derek Barnett (Tennessee) e Taco Charlton (Michigan).

Defensive Tackle

Lowell Lotulelei

Assim como nos defensive ends, há diferenças entre os defensive tackles de esquemas defensivos 4-3 e 3-4. No primeiro, o jogador não precisa necessariamente ser grande porque precisa ser atlético o suficiente para se posicionar como 3-tech que consiga tanto ir bem contra o jogo corrido quanto subir para o pass rush quando necessário. No 3-4 é aquele nose tackle mais clássico (como o Vince Wilfork), uma montanha de ser humano que se posiciona diretamente na frente do center e tem como principais funções quebrar o pocket pelo meio e parar o jogo corrido nos A gaps.

Nesse Draft que passou tivemos uma classe sensacional de defensive tackles indo pra NFL, tanto que nove jogadores da posição foram escolhidos nos dois primeiros rounds. A do ano que vem é bem mais limitada e até agora nos meus estudos não vi alguém que realmente me chamasse a atenção. Há alguns jogadores com tamanho ideal para jogarem em um esquema 3-4, mas ainda preciso ver como será a atuação deles no Combine para saber como de fato é a sua força física.

Principais nomes: Lowell Lotulelei (Utah), Vita Vea (Washington), Malik McDowell (Michigan State), Chris Wormley (Michigan) e Elijah Qualis (Washington).

Outside Linebacker

Tim Williams

Em uma formação 3-4, o outside linebacker é, na enorme maioria das vezes, um defensive end de 4-3 que fez a transição porque tem tamanho, velocidade e explosão o suficiente para funcionar como pass rusher em pé (tanto que algumas pessoas já chamam esses jogadores só de Edges). Na formação 4-3 você procura um jogador tecnicamente mais completo, que já vem jogando na posição na NCAA e que vai descer bastante na cobertura intermediária. Alguns analistas ainda dão importância na diferenciação entre weakside e strongside quando falam de linebackers, mas hoje a maioria dos jogadores são híbridos e sabem se posicionar nos dois lados da linha.

Para quem procura um outside linebacker de origem nesse Draft pode ter alguns problemas porque, assim como nos defensive tackles, o Draft que passou foi bem melhor na posição do que no ano que vem. Dos jogadores que vi, dá pra contar nos dedos aqueles que eu percebi de cara que conseguem se manter na marcação em cobertura. Outro grande problema é uma onda em que os times da NCAA utilizam cornerbacks como outside linebackers, o que torna a avaliação bem mais complicada.

Principais jogadores: Tim Williams (Alabama), Jarrad Davis (Florida), Marquis Haynes (Ole Miss), Haason Reddick (Temple) e Vince Biegel (Wisconsin).

Inside Linebacker

Zach Cunningham

O chamado “quarterback da defesa”, não há muita diferença entre como um inside linebacker de esquema 4-3 ou 3-4 trabalham e um jogador consegue fazer a transição entre os esquemas sem maiores problemas. Como eles ficam praticamente de frente para um quarterback, são designados para fazer as leituras do ataque adversário e os ajustes necessários no esquema defensivo. A maior diferença entre os esquemas é que no 4-3 o ILB fica sozinho e precisa ter instintos muito apurados para jogar na cobertura e parar o jogo corrido enquanto que na 3-4 há uma maior flexibilidade de como eles podem ser utilizados em conjunto.

Possivelmente um dos melhores jogadores defensivos desse Draft é um inside linebacker: Zach Cunningham, de Vanderbilt. É um jogador que aparece em toda jogada do Commodores e tem uma produção impressionante para um cara que joga como ILB no esquema 3-4. Depois dele ainda há alguns jogadores interessantes na posição, mas a qualidade cai drasticamente. Se seu time precisa de um ILB com urgência, talvez o mercado de free agentes seja uma opção melhor em 2017.

Principais nomes: Zach Cunningham (Vanderbilt), Reuben Foster (Alabama), Anthony Walker Jr. (Northwestern), Keith Kelsey (Louisville) e Kendell Beckwith (LSU).

Cornerback

Jabrill Peppers

Para estudar um cornerback pro Draft você precisa saber diferenciar os diversos tipos de cobertura: marcação mano-a-mano, cobertura em zona e afins porque apesar de um jogador da posição ser avaliado principalmente pela sua velocidade e range de movimentos, o caboclo precisa saber onde se posicionar em campo para não desmontar um esquema defensivo no meio da jogada. E esse é o tendão de Aquiles da maioria dos jogadores que estão entrando na NFL, têm uma proza atlética enorme e não fazem ideia de como se posicionar então na hora de estudar os jogadores dessa posição é importantíssimo ver se o cara sabe o que está fazendo.

Dá pra falar tranquilamente que esse será um dos melhores Draft dos últimos anos em se tratando de CBs. Se no ataque vai sobrar RBs de qualidade pra todo mundo, na defesa os CBs vão fazer a festa dos times. Esse é um grupo de jogadores extremamente inteligente e que sabe usar seu tamanho para se posicionar bem em campo. Os times da NCAA adoram utilizar ex-WRs como CBs e isso ajuda bastante seu desenvolvimento quando sobem pra NFL porque eles já vêm com uma bagagem técnica surpreendente.

Principais jogadores: Jabrill Peppers (Michigan), Jalen Tabor (Florida), Marlon Humphrey (Alabama), Jourdan Lewis (Michigan) e Sidney Jones (Washington).

Safety

Malik Hooker

Até o início dessa década ainda havia uma diferença bem grande entre o free safety e o strong safety, cada um com suas características próprias e tipos específicos de jogadores. Atualmente, com os ataques dinâmicos como estão, essas diferenças diminuíram drasticamente e todos os safeties precisam entrar na NFL sabendo ler corretamente as jogadas e tendo como trabalhar minimamente na cobertura. Instintos apurados são essenciais porque se o cara não sabe fazer essa leitura imediatamente, ele vai errar a jogada e custar seu time uma grande jogada.

Tá engraçado ver o que falam sobre os safeties desse próximo Draft, há opiniões muito diferentes uma da outra. Como eu valorizo bem mais um jogador defensivo que sabe o que está fazendo em campo, eu acho que essa é uma classe mais interessante do que tivemos no Draft desse ano, com jogadores de apuração técnica melhor apesar de não tão preparados atleticamente. Se seu time está precisando de um safety que sabe marcação, esse próximo Draft tá cheio desse tipo de jogadores.

Principais jogadores: Malik Hooker (Ohio State), Eddie Jackson (Alabama), Jamal Adams (LSU), Josh Harvey-Clemons (Louisville) e Marcus Williams (Utah).

O que você achou da coluna dessa semana? Eu sei que tá bem densa em termos de conteúdo, então não fiquem com vergonha de perguntar qualquer coisa se tiverem alguma dúvida! Deixe um comentário aqui ou venha falar comigo no Twitter lá no @oQuarterback! Também fique por dentro por tudo o que rola na NFL e na NCAA lendo aqui o Liga dos 32 e acompanhando o site no Twitter e no Facebook!

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Felipe Laurence é administrador do oQuarterback desde 2011 e colunista da Liga dos 32. Advogado de profissão, assiste NFL desde 2000 e tem como maior hobby a difusão do futebol americano pelo Brasil. No Twitter: @oQuarterback.