The Greatest Show on Turf – Uma das melhores equipes da história da NFL

16 de setembro de 2016
Tags: a liga e a historia, fernando mossmann, rams,

Atualmente quando se fala no Rams, a maioria das pessoas pensam: “Ah, o saco de pancadas da NFC West”, e realmente, o agora Los Angeles Rams não é, nos dias de hoje, um grande time, longe disso. Com a sua última aparição em playoffs tendo acontecido no longínquo ano de 2004, a franquia possui um dos, senão o pior retrospecto da NFL nas últimas 10 temporadas. Nesta década, a equipe ainda não alcançou uma temporada com campanha positiva, tendo o seu melhor ano em 2006, quando terminou a temporada com 8 vitórias e 8 derrotas. Apesar disso, não faz muito tempo o Rams era uma máquina, e seu ataque comandado por Marshall Faulk e Kurt Warner foi um dos melhores da história da National Football League. E é isto que iremos contar hoje, a história do “The Greatest Show on Turf”.

Por quase toda a década de 90, o Rams foi um dos piores times da NFL. De 1990 a 1994, o Los Angeles Rams não conseguiu alcançar nenhuma temporada vitoriosa, e sua melhor campanha foi 6-10 (6 vitórias e 10 derrotas) em 1992. Apesar de ter ido aos playoffs em 1988 e 1989, quase indo ao Super Bowl neste último ano, a equipe não apresentava sinais de reação e os problemas entre a torcida e a gerência da equipe, incluindo a então dona da franquia, Georgia Frontiere, acabaram levando a uma realocação do Rams, saindo de Los Angeles com destino à St. Louis. Mesmo com a mudança de cidade, a situação do time não mudou e por mais quatro anos a equipe não terminou a temporada com uma campanha positiva.

Em 1998, o Rams possuía um dos piores ataques da liga. O time não tinha um QB em que pudesse confiar, situação bem parecida com as últimas temporadas e, apesar de três nomes diferentes terem jogado na posição naquele ano, nenhum foi bem. Tony Banks, que havia sido selecionado na segunda rodada do Draft de 1996, começou a temporada de 1998 como titular da equipe, porém foi muito mal, lançando apenas 7 TDs e 14 interceptações. A segunda opção era o veterano Steve Bono que, após dois jogos tão ruins quanto os de Tony Banks, foi substituído. O terceiro QB que o Rams utilizou aquele ano jogou por poucos snaps e completou apenas 4 passes de 11 tentativas, totalizando apenas 39 jardas.

Tão ruim quanto a situação dos quarterbacks era o problema do jogo terrestre. O novato RB Robert Holcombe correu para 230 jardas e 2 TDs em 98 tentativas de corrida, o que resultou em uma média de 2.3 jardas por tentativa, uma das piores da história da National Football League. Além de Holcombe, outros quatro atletas jogaram na posição no ano e nenhum conseguiu resolver a grave situação. Com tudo isso acontecendo, e até então nenhuma solução sendo apresentada, as perspectivas dos torcedores do Rams para a temporada de 1999 eram desastrosas.

Após o Super Bowl XXfaulkXIII, conquistado pelo Denver Broncos, iniciou-se o período de offseason e ao mesmo tempo iniciou-se também a movimentação nos escritórios de St. Louis. A primeira contratação anunciada pela equipe se deu no dia 15 de fevereiro de 1999, quando o QB Trent Green assinou um contrato de quatro anos e foi imediatamente declarado o titular da posição. Green havia jogado a temporada anterior pelo Redskins e lançado 23 TDs contra 11 interceptações, muito melhor que qualquer um dos três jogadores utilizados na posição pelo Rams em 1998. Também durante a offseason, o Head Coach do time, Dick Vermeil, fez uma troca com o Indianapolis Colts para obter o camisa #28 Marshall Faulk, RB que havia sido um dos principais jogadores da liga no ano anterior, acumulando um total de 2227 jardas e 10 TDs, entre corridas e recepções.

No Draft de 1999, Vermeil utilizou a sua primeira escolha em Torry Holt, um dos melhores WRs disponíveis na ocasião e que havia sido indicado ao prêmio Biletnikoff, dado ao melhor recebedor do College Football, na sua última temporada na North Carolina State University. Por último, mas não menos importante, Vermeil trouxe, do Washington Redskins também, Mike Martz, que acabaria sendo o coordenador ofensivo da equipe naquela temporada.

Tudo ia muito bem no Rams, e a torcida – pela primeira vez após muito tempo – estava acreditando no time e sonhando com uma possível chegada ao playoffs após uma década. Tudo parecia estar se encaixando no quebra-cabeça que estava sendo montado por Vermeil até que, em um belo dia da temida pré-temporada, Trent Green sofreu uma grave lesão no joelho após um hit do S Rodney Harrison, do San Diego Chargers. Contrariando todas as expectativas, Dick Vermeil não foi atrás de um QB experiente. Ao invés disso, ele escolheu o terceiro QB do seu time no ano anterior, aquele citado ali em cima, com 4 passes completos de 11 tentativas, um tal de Kurt Warner.

O desconhecido quarterback não foi selecionado no Draft de 1994 e acabou sendo contratado como undrafted free agent pelo Green Bay Packers. Porém, Warner nunca chegou a compor o elenco principal do time, sendo utilizado apenas no practice squad. Sem chances na liga profissional, o jovem atleta se aventurou, por três anos, na Arena Football League, que, basicamente, é uma liga de futebol americano que tem suas partidas realizadas em um campo com dimensões menores, dentro de uma arena coberta. A decisão de Vermeil repercutiu muito por toda a liga, até o início da competição.whos

A temporada de 1999 começou e junto com ela uma das maiores surpresas da história do esporte. O desconfiado QB provou em campo o seu valor, tendo um dos melhores desempenhos da história da NFL na sua posição. Warner lançou 41 TDs, se juntando a Dan Marino que até o momento era o único a lançar mais de 40 TDs em uma única temporada da NFL. Além do incrível número de touchdowns, o jogador também foi responsável por 4353 jardas aéreas e um rating de 109.2 pontos, o terceiro maior da história até então. Também liderou a liga em jardas conquistadas por passe e percentual de passes completos. Tudo isso rendeu a Warner o grande prêmio de MVP daquele ano e uma pergunta: Quem é esse cara?

Todos se perguntavam de onde um QB de tanta qualidade havia saído e como ninguém sabia do potencial dele. E Warner, a cada semana que passava, respondia em campo à todos, marcando seu nome na história da liga, para que nunca fosse esquecido quem ele era. Mas o sucesso não era somente de Kurt Warner. O running back Marshall Faulk correu 253 vezes para 1381 jardas, resultando em uma excelente média de 5.4 jardas por carregadas, e anotou 7 TDs correndo com a bola oval. Faulk também foi uma grande ameaça para a defesa adversária recebendo passes. Como recebedor, anotou 87 recepções para 1048 jardas e 5 TDs, o que fez do atleta apenas o segundo jogador na história a terminar a temporada regular com pelo menos 1000 jardas terrestres e recebidas. Tais números lhe renderam o prêmio de melhor jogador ofensivo da temporada. O corpo de WRs também foi um verdadeiro pesadelo para os rivais. Isaac Bruce realizou 77 recepções para 1165 jardas e 12 TDs. O novato Torry Holt marcou 6 TDs em 52 recepções para 788 jardas. E o segundo anista Az Zahir Hakim, que também era o retornador da equipe, fez 36 recepções para 677 jardas e 8 TDs.

Não somente o ataque era uma máquina como também a defesa era muito forte. Liderados pelo DE Kevin Carter, que terminou aquela temporada com 17 sacks dos 57 totais realizados pelo time, o sistema defensivo montado por Peter Giunta foi dominante também na cobertura dos passes adversários, realizando 29 interceptações. Esta grande defesa somada ao incrível ataque levou o Rams a um recorde de 13 vitórias e 3 derrotas, acabando com a seca de playoffs da equipe e vencendo o primeiro título da divisão Oeste da NFC desde 1985. Restavam apenas 3 jogos para a glória, e o primeiro deles era contra o Minnesota Vikings.

Sem tomar conhecimento da defesa adversária, o Rams atropelou o Vikings e se classificou à final da NFC após a vitória por 49-37. Já a partida decisiva da conferência nacional não foi como a anterior. A equipe de St. Louis teve muito trabalho contra o Tampa Bay Buccaneers e só alcançou a liderança no placar, e consequentemente o título, após um passe do QB Kurt Warner para o WR Ricky Proehl, que não havia anotado nenhum TD durante a temporada regular.

No Super Bowl, o adversário era o Tennessee Titans, uma das únicas três equipes que venceram o Rams na temporada regular. O jogo começou até que fácil para St. Louis, abrindo uma vantagem de 16 pontos para o adversário. Apesar disso, o placar 16-0 virou 16-16 com 2:12 restando para o fim do jogo. E o que já estava emocionante ficou ainda mais intenso nesses últimos minutos. Kurt Warner voltou a campo após o chute de devolução e logo aprontou mais uma de suas “mágicas”. Conectando um passe para o WR Isaac Bruce, o Rams anotou um TD de 73 jardas com 1:54 restando para o fim da partida. Apesar de passar a frente no placar, o tempo restante era mais do que suficiente para desenvolver uma boa campanha ofensiva, e Steve McNair, QB do Titans, liderou seu ataque em uma incrível sequência de jogadas até um dos maiores momentos da história do Super Bowl e da NFL.

Com 6 segundos no relógio, o Titans possuia apenas mais uma chance para empatar a partida e levar a decisão para a prorrogação. Após passe de McNair para Kevin Dyson, um tackle providencial do LB Mike Jones parou a ação ofensiva adversária a apenas uma jarda da endzone. Não me estenderei aqui, apenas lhes deixo com esse grande lance e essa grande narração de um daqueles momentos que fazem qualquer pessoa se apaixonar pelo esporte.

O primeiro, e até agora único Super Bowl da franquia, foi um dos mais disputados, emociantes e surpreendentes de todos os tempos, visto que ninguém esperava tal desempenho do Rams no início da temporada e o Titans também não havia participado dos playoffs nas cinco temporadas anteriores. Além disso, imortalizou o seu vencedor como uma das maiores equipes que já foram formadas na liga.

Em 2000, o HC Dick Vermeil abdicou de seu cargo, anunciando sua aposentadoria. Mike Martz foi promovido de coordenador ofensivo para Head Coach e o time continuou com um ataque muito poderoso naquele ano. Kurt Warner também se manteve em uma forma excpecional, mostrando a todos que sua temporada de 1999 não tinha sido um acaso. Tudo se encaminhava para mais uma temporada praticamente perfeita do Rams até que Warner quebrou sua mão e perdeu cinco partidas, nas quais Trent Green, recuperado da lesão que lhe tirou da temporada anterior, substituiu o QB titular. Green foi bem, lançando 16 TDs e 5 interceptações, e a combinação entre ele e Warner garantiu ao Rams o recorde de maior número de jardas conquistadas em uma temporada, 7335, sendo 5492 através das mãos dos dois jogadores.

Marshall Faulk foi ainda mais dominante nesta temporada. Com um total de 26 TDs e 2189 jardas, o atleta foi eleito, pelo segundo ano consecutivo, o melhor jogador ofensivo da temporada, e ainda mais, acabou sendo votado como o MVP daquele ano. O grupo de WRs, liderados por Torry Holt, também se manteve como uma das principais armas da equipe, marcando 19 TDs com seus três principais jogadores: Holt, Isaac Bruce e Az-Zahir Hakim. Até mesmo o K Jeff Wilkins teve sua melhor temporada da carreira, convertendo todos os 17 FGs tentados. Foi neste ano que o ataque do St. Louis Rams recebeu o apelido citado no título desta matéria, “The Greatest Show on Turf”, algo como “O maior show em campo”, após uma vitória por 57-31 sobre o San Diego Chargers.

Porém, por outro lado, a defesa foi muito mal, sendo o calcanhar de Aquiles da equipe. Mesmo com alguns destaques como os DEs Kevin Carter e Grant Wistrom, e o CB Dexter McCleon, que realizou 8 interceptações naquela temporada, em geral foi um ano para se esquecer no sistema defensivo do Rams, que figurou em último no quesito de número de pontos cedidos aos adversários, com 471. Das 16 partidas, em 7 a defesa de St. Louis cedeu pelo menos 30 pontos ao outro time. Em quase todos os quesitos defensivos a equipe ficou próxima a última posição.

Isso resultou em uma campanha de 10-6 e vaga nos playoffs. Porém, já na partida de Wild Card o Rams foi eliminado pelo New Orleans Saints. Na offseason, 9 jogadores daquele sistema defensivo pífio de 2000 foram cortados da equipe, e no Draft praticamente todas as escolhas foram voltadas para arrumar este setor problemático. Além disso, Lovie Smith foi contratado como o novo coordenador defensivo. As mudanças tiveram efeito.

vinatNa temporada 2001 da NFL, a equipe foi muito mais consistente em sua defesa e manteve o incrível nível no ataque. Com 14 vitórias e 2 derrotas, o Rams voltou a ser campeão da divisão e novamente ganhou a vantagem de disputar as partidas dos playoffs no Edward Jones Dome. A primeira partida da pós-temporada foi um atropelo sobre o Green Bay Packers, em uma partida em que o grande QB Brett Favre foi interceptado seis vezes, terminando 45-17 para o Rams. Já na final da conferência, uma vitória apertada por 29-24 sobre o Eagles garantiu a segunda aparição da franquia em um Super Bowl após três anos. Entrando como favoritos absolutos naquela partida contra o New England Patriots, a equipe de St. Louis protagonizou uma das maiores decepções ao perder o jogo em um FG convertido por Adam Vinatieri no último lance.

A partir dali o Rams não foi mais o mesmo. Em 2002, o inimaginável aconteceu e o time não se classificou aos playoffs após uma campanha com somente 7 vitórias e 9 derrotas, mesmo mantendo a base daquele incrível grupo de 2001. Em 2003 e 2004, foram eliminados nos playoffs pelo Panthers e o Falcons, respectivamente, e desde 2005 a franquia nunca mais figurou na pós-temporada. “Do dia para a noite” foi formada uma das maiores equipes de todos os tempos e, também “do dia para a noite”, aquela equipe voltou a ser um simples figurante na conferência nacional.

A criação do “The Greatest Show on Turf” foi algo que, talvez, nunca mais aconteça na National Football League, mas que, ao mesmo tempo, dá esperança aos torcedores de franquias desacreditadas atualmente a sonharem com uma possível surpresa, com um novo Kurt Warner, com um Marshall Faulk desconhecido e com um Torry Holt não badalado. Dá esperanças para sonhar com um futuro melhor para sua franquia, inspirado em uma das maiores equipes da história da liga.

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Fernando Mossmann teve seu primeiro contato com o futebol americano em 2010, e a partir de 2013 passou a acompanhar a NFL mais de perto. É apaixonado pelo esporte e a cada dia procura aprender mais sobre o jogo. Aqui, será responsável por escrever notícias, resumo dos jogos e o Rastreando Draftados. No Twitter: @f_mossmann