sexta-feira, 19 de Janeiro de 2018

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Se há uma palavra para definir a temporada regular e os playoffs da NFL até agora, esta palavra é “surpreendente”. Uma série de fatos pouco vistos ou mesmo inéditos poderiam nos levar a crer que a liga viveria uma mudança de paradigma e que 2017 seria o ano em que algumas coisas que nos acostumamos a ver anualmente simplesmente deixariam de acontecer. Por exemplo: pela primeira vez desde o começo do século não havia um Quarterback de sobrenome Manning atuando nos playoffs, seja Peyton ou Eli e times antes motivo de chacota se tornaram verdadeiras potencias e venceram outras equipes tidas como favoritas, sendo o principal exemplo o Jacksonville Jaguars. Neste final de semana, os quatro melhores times da NFL (incluindo a franquia da Florida) lutarão pelo direito de representar sua respectiva conferência no Super Bowl 52 em Fevereiro e, se analisados apenas os lançadores titulares das mesmas, alguns podem dizer que este é o início de uma nova fase, em que os QBs não seriam peças tão necessárias para a montagem de um time, mas eu respeitosamente discordo.

Contudo, é fato afirmar que com exceção de um, os QBs são totalmente inóspitos ao ambiente hostil que a pós temporada representa. O ápice da participação na temporada regular representa um fardo muitas vezes impossível de carregar para certos atletas desta posição, que sucumbem frente às adversidades dos mais variados tipos: mentais, ambientais, físicas e etc. Claro que o “um” citado é o QB Tom Brady, que simplesmente participará pela sétima temporada consecutiva do principal jogo da conferência, e a 12ª vez na era Bill Belichick, o que também é um recorde na história da NFL. Por outro lado, Blake Bortles e o Jacksonville Jaguars são verdadeiros turistas nesta fase dos playoffs, a última temporada em que avançaram tão longe foi a de 1999, comandados pela dupla Mark Brunnell e Tom Coughlin, ironicamente. Já na NFC o prognóstico é ainda mais maluco, afinal, o Vikings da dupla Case Keenum e Mike Zimmer aguarda desde 2009 por um momento igual a esse, quando o veteraníssimo e igualmente lendário Brett Favre quase levou o time ao Super Bowl 44, mas uma interceptação lançada pelo veterano na prorrogação selou o futuro inglório da equipe naquele ano. Para o Eagles, a espera é ainda maior, pois só em 2008, liderados por Donovan McNabb e Andy Reid que a equipe chegou tão longe na temporada e agora tenta alcançar o Super Bowl pela segunda vez na história, com o reserva atuando na posição mais importante.

Então, três QBs que literalmente eram uma incógnita na semana inaugural desta temporada (sendo dois que sequer eram titulares) se enfrentarão com uma vaga no Super Bowl em jogo, então é seguro afirmar que ao menos um deles será o principal comandante de seu time no ápice da temporada da NFL. Este fato isolado poderia corroborar para que a figura do QB da franquia seja um pouco desvalorizada para os próximos anos, e para os mais críticos, que QBs da franquia não importariam mais, mas não é bem assim.

Um gerente geral declarou de forma anônima que seriam necessários três pilares para a montagem de um elenco de sucesso, ou seja, capaz de competir por voos maiores a cada ano. Na ordem, estes pilares seriam:

  1. Uma defesa de elite, com jogadores decisivos a três níveis;
  2. Jogo corrido dominante, capaz de manter a defesa adversária honesta;
  3. Um Quarterback ao menos decente, capaz de mover as correntes do ataque (ou que pelo menos não seja “um lixo”).

O Minnesota Vikings e o Jacksonville Jaguars podem se gabar de ter os dois principais itens desta lista é verdade, mas se apoiaram na figura de seus QBs que geravam muita desconfiança para fazer jogadas cruciais durante vitórias importantes, seja pelo ar ou pelo chão, e se não foram as peças-chave para o sucesso das equipes, representam uma boa parcela do mesmo e, ao contrário das expectativas, não foram responsáveis por afundar sua equipe durante a temporada. O Eagles por sua vez, se baseou num extraordinário Carson Wentz durante praticamente toda a campanha, apenas para se voltar a Nick Foles durante a parte crucial do ano e agora conta com o veterano, com passagens apagadas por Rams e Chiefs, para o levar até a terra prometida.

Parte desta afirmação pode se basear no desempenho da dupla contra QBs mais talentosos. Ambos Keenum e Foles foram responsáveis pelas vitórias até certo ponto improváveis contra Saints e Falcons, respectivamente, obtendo um nível de atuação dentro da partida muito similar aos dois adversários de posição, muito mais calejados e acostumados com este tipo de situação (Drew Brees e Matt Ryan). Claro que Blake Bortles não chegou perto das 500 jardas de Roethlisberger na partida entre Steelers e Jaguars, mas sua atuação segura durante praticamente os 60 minutos indica que o Steelers nunca esteve perto de vencer, mesmo o placar de 45 x 42 indicando o contrário, pois a equipe da Florida rapidamente abriu 14 x 00 e só foi ameaça nos instantes finais do embate.

Fatos isolados e anomalias acontecem em todos os cantos da vida, mesmo no futebol americano. Seja qual o fim deste imbróglio que tomará forma no próximo domingo, a figura de um QB da franquia é a parte mais essencial de qualquer time que se preze, e o ponto de partida para qualquer planejamento que envolva o sonho de trazer o troféu de campeão para seu estádio.

Se analisarmos somente o Super Bowl das últimas vinte temporadas da NFL, a lista de atletas que não são considerados deste nível é realmente muito pequena, quiçá a de vencedores do principal jogo da temporada e quando isso aconteceu, pode-se criar o embate que o vencedor enfrentou outro QB de seu nível, ou seja, que não estava à altura de ser a principal peça de uma equipe.

Obs: para todos os efeitos, um “QB da franquia” é definido como o atleta que, quando saudável, é o titular óbvio da posição em seu time e que atuou por pelo menos seis temporadas. Um caso à parte obviamente são os atletas no Hall da Fama do esporte, listados como as principais peças da equipe não importando o tempo que aturam lá.

Confira a lista (compilada pelo USA Today) sendo que o nome da esquerda foi o vencedor do Super Bowl em questão:

XXXII: John Elway x Brett Favre
XXXIII: John Elway x Chris Chandler
XXXIV: Kurt Warner x Steve McNair
XXXV: Trent DilferKerry Collins
XXXVI: Tom Brady x Kurt Warner
XXXVII: Brad Johnson x Rich Gannon
XXXVIII: Tom Brady x Donovan McNabb
XXXIX: Tom Brady x Jake Delhomme
XL: Ben Roethlisberger x Kurt Warner
XLI: Peyton Manning x Rex Grossman
XLII: Eli Manning x Tom Brady
XLIII: Ben Roethlisberger x Matt Hasselbeck
XLIV: Drew Brees x Peyton Manning
XLV: Aaron Rodgers x Ben Roethlisberger
XLVI: Eli Manning x Tom Brady
XLVII: Joe Flacco x Colin Kaepernick
XLVIII: Russell Wilson x Peyton Manning
XLIX: Tom Brady x Russell Wilson
50: Peyton Manning x Cam Newton
LI: Tom Brady x Matt Ryan

Os atletas cujos nomes estão em negrito não atendem os requisitos mínimos, ou seja, de 40 QBs aplicáveis a este parâmetro, apenas sete (17,5%) não eram o principal atleta de sua equipe no ano em questão.  Não que Case Keenum, Nick Foles ou Blake Bortles não possam continuar a nítida evolução e passarem a integrar esta lista, mas neste momento, nesta temporada e nesta rodada, eles não pertencem à ela, e é isso que importa.

O paradoxo aqui é conciliar ao mesmo tempo a figura do seu Quarterback com um bom elenco de apoio a seu redor, do contrário, são poucos os que conseguem levar o time ao título e, nestes casos, é necessário um desempenho ao menos decente do restante de seus companheiros. Claro que é um trabalho inglório, pois esta posição é a mais bem paga de toda a NFL e a montagem de um elenco vencedor envolve o dispêndio de grandes quantias de dinheiro garantido em contrato para todas as outras posições, tudo isso gerindo o teto salarial muitas vezes combalido mas ei, este é o trabalho do gerente geral, não?

Afinal, nos últimos anos nos acostumamos a ver QBs como Drew Brees e Peyton Manning com números estrondosos, compilando jardas e TDs apenas para chegar aos playoffs e falharem algumas vezes consecutivas, tudo em parte fruto da falta de um elenco de apoio no geral.


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