Série Tática – West Coast Offense

12 de maio de 2017
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Esse sistema revolucionou o futebol americano nos anos 80 através da dinastia construída pelo San Francisco 49ers, de Bill Walsh, inventor do esquema. “Somente” nomes como Joe Montana e Jerry Rice, alguns dos melhores de todos os tempos, fizeram história usando os conceitos criados pelo então treinador da equipe.

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A grande inovação da West Coast Offense (WCO) está em explorar o campo e as formações defensivas horizontalmente, sem perder a capacidade de esticar as defesas verticalmente também e ter um jogo corrido efetivo. Os running backs devem ser muito versáteis, com habilidade para bloquear, correr e também receber a bola. Apesar de ser considerado um esquema focado no passe, sempre foi muito criativo por terra também, especialmente através de “power sweeps” (jogadas em que o corredor vai pela lateral com ajuda de bloqueios) e as chamadas “counters”, quando o QB corre para um lado e o RB vai para o outro.

Tendo como sua formação base a presença de dois running backs, um tight end e dois wide receivers, depende fundamentalmente do timing entre QB e recebedor, da colocação da bola – para que o atleta encaixe a bola e siga correndo sem perder velocidade – e de usar bem o campo horizontalmente, através de rotas que cortam para o meio e abrem espaço, além de confundir a cobertura.

O timing corresponde à precisão, ou seja, o momento ideal para lançar o passe em sincronia com o recebedor. Tal como uma orquestra executando música clássica em uma grande ópera, a West Coast Offense funciona como um reloginho controlado não por um cronômetro, mas pelos step drops do quarterback. Três ou cinco step drops – quantidade de passos para trás dados pelo QB antes de lançar – representam a contagem do “maestro” da orquestra ofensiva. Com três step drops provavelmente será um passe rápido e curto, enquanto que com cinco pode ser um longo, pois dá mais tempo dos recebedores correrem rotas mais profundas.

É preferível (não que seja vital) que existam no elenco recebedores grandes, capazes de quebrar tackles e transformar os passes curtos em longos ganhos, especialmente quando estão abrindo o campo correndo na horizontal para, após a recepção, mudar de direção e seguir na vertical para ganhar jardas depois de receber a bola. Normalmente, os quarterbacks irão fazer uma leitura hi-lo, isto é, olhar primeiro para a rota mais “quente” em profundidade e depois para a segunda rota mais “quente” curta.

Isso se explica porque em diversas chamadas haverá uma rota que vai ser pedida a algum recebedor para que percorra de 2 a 5 jardas verticalmente e então siga para a lateral do campo – a chamada shallow cross. Como essa rota faz o atleta ir praticamente de um lado do campo a outro, explorando horizontalmente a defesa, dá tempo suficiente para que o quarterback observe a rota “quente” mais profunda primeiro. E essa característica de buscar sempre o passe longo deixa claro como a West Coast Offense não é só o passe curto e rápido em busca de jardas após a recepção, usando rotas horizontais e a velocidade dos recebedores. Seria muito pouco para explicar o tamanho desse sistema tão criativo e marcante.

A criatura de Bill Walsh influencia até hoje todos os times da NFL. Sim, seu time usa esse esquema com absoluta certeza a partir do momento que dê um passe na temporada. É impossível achar na liga uma equipe que não tenha nada importado da West Coast Offense, o que dá uma noção do tamanho do tema da série tática dessa semana.  No entanto, ninguém tem o referido sistema como base do ataque, até porque os playbooks dos times profissionais são uma mistura de vários conceitos para competir na NFL moderna. Diante de tantas mudanças, evoluções e até algumas novas criações, a WCO sobrevive e auxilia inúmeros treinadores a terem um ataque de qualidade em todos os níveis de futebol americano praticado nos EUA. Todos gratos ao fantástico Bill Walsh.

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A jogada mais famosa da West Coast Offense é a “Flanker Drive”, que tem um nome em cada playbook, mas no de Bill Walsh era assim chamada e você pode vê-la na imagem acima. O objetivo é explorar horizontalmente o campo e permitir que o recebedor prossiga em alta velocidade após a recepção para conquistar jardas além do ponto inicial onde segurou a bola. O WR da esquerda corre em profundidade retirando seu marcador da jogada, o slot receiver explora o fundo do campo também, o TE (ou outro WR) corre uma rota “In” de 10/12 jardas (dois desses três recebedores terão a atenção dos safeties ao fundo) e o recebedor da ponta direita segue em uma shallow cross de 4 a 6 jardas. Um passe curto, mas que dificulta a perseguição pelo defensor, seja um cornerback ou um linebacker. Isso porque ele abre o campo e permite que o WR segure a bola já em alta velocidade, pronto para começar a correr verticalmente.

Importante destacar também duas outras jogadas consagradas pela West Coast Offense: Pack de três jogadores com rotas que se cruzam e a shallow cross usada em conjunto com rotas em profundidade. Vejamos.

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O conceito é simples, usa-se três jogadores alinhados no mesmo lado de forma que suas rotas se cruzem e que a vida dos defensores fique um pouco mais complicada para se comunicar rapidamente e definir se há ou não troca de marcação. Pré-snap é possível perceber que existem 3 recebedores contra 2 defensores no lado direito do ataque e que o Chiefs conta com um jogador que vai cortar em diagonal (rota vermelha), outro que vai correr uma “curl” (rota amarela) e, por fim, o do meio percorrerá uma “in” (azul). Um linebacker do Packers recuará para ajudar na cobertura e tirar a vantagem numérica de Kansas City por ali, mas em um three-step drop de Alex Smith fica difícil ter tempo de chegar para ser efetivo na marcação.

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No desenvolvimento da jogada fica claro que Kelce (amarelo, rota curl) tinha separação suficiente para receber a bola. Na realidade, todos os três atletas do Chiefs na região tinham boas condições de ser o alvo do passe, o que deixa claro quão competente é essa chamada. Mais aberto ainda estava o recebedor que correu em diagonal (vermelho), já que os defensores se preocuparam mais com a área entre os números e as hash marks. Assistam o vídeo dessa jogada abaixo:

Agora uma jogada muito típica da West Coast Offense e bastante utilizada por praticamente todos os times da NFL. Caras como Andy Reid e Mike McCarthy sofrem bastante influência de Bill Walsh. Em mais uma jogada do playbook do Chiefs, vamos entender como tal esquema ofensivo tem seu valor na prática.

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Um olho treinado vê essa imagem e já mata de cara qual a intenção de Andy Reid e seus comandados com ela. Três rotas de 10 ou mais jardas explorando o campo em profundidade e uma “shallow cross” – que é a cara da West Coast Offense – curtinha saindo de um lado e seguindo em direção à lateral (rota amarela). Essa chamada funciona de uma maneira que a rota “curl” (preta) e a rota “post” (vermelha) nem sequer recebem a atenção do QB Alex Smith porque a razão da existência delas é atrair a atenção dos dois safeties – cada uma “puxa” um. Além de arrastar o cornerback responsável por cada um para o fundo do campo, abrindo espaços.

As únicas duas rotas que importam em termos de passe é a rota “seam” (azul) e a shallow cross (amarela). Nesse caso, a leitura será Hi-Lo, onde a primeira rota que Smith vai olhar é a mais longa verticalmente, ou seja, ele procura primeiro pelo seu tight end na rota “seam”. Como rapidamente percebe que a cobertura está boa nele, lança a bola na “shallow cross” que vai fazer o que de mais inteligente a West Coast Offense faz, usar e abusar do campo horizontalmente.

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Ambos os linebackers (mais o Safety) que estavam circulados em azul na imagem anterior, são atraídos para cobrir a rota “seam”. Veja os dois marcados na cor azul. Em vermelho podemos notar o cornerback sendo arrastado para o fundo do campo e abrindo um espaço grande para que o recebedor que vem em velocidade na “shallow cross” conquiste jardas após a recepção. Olha quanta liberdade ele tem para correr (amarelo).

Rotas mais verticais que puxam a marcação, rota curta que explora o campo na horizontal e conquista jardas depois de receber a bola. Isso sem falar que o QB buscou primeiro a rota em profundidade (mas o atleta estava bem marcado) para só depois usar aquela marcada em amarelo na primeira imagem dessa jogada. Todas essas são características que vêm do coração do esquema criado por Bill Walsh. Veja o vídeo da jogada:

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Tiago Araruna acompanha a NFL desde 2006 e é o idealizador do projeto Liga dos 32. Como Editor-Chefe do Portal, está à frente da coluna semanal 32 por 32, toda quinta no ar. Co-apresentador do Podcast Liga dos 32 que vai ao ar às quartas . No twitter: @tiagoararuna