Série Tática – Rotas dos Recebedores

18 de fevereiro de 2016
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tree-routes

Depois de aprender como funcionam as formações ofensivas no futebol americano, é hora de você saber as rotas dos recebedores! Os atletas seguem uma lista de corridas pré-determinadas e treinadas praticamente a carreira inteira. Essas rotas são escolhidas na hora da jogada e algumas delas demandam um entrosamento perfeito entre WR e QB. Os recebedores seguem, basicamente, uma “árvore” de 9 movimentações diferentes (imagem acima). Vamos falar sobre cada uma:

Obs: A lateral do campo está do lado esquerdo nessa imagem. Então, por exemplo, a Flat (1) está indo em direção à lateral, enquanto que a Slant (2) segue para o meio do campo, parte interna. Obviamente que se o recebedor está posicionado ao lado direito da linha de scrimmage, as rotas dele são o contrário da imagem acima, ou seja, para correr uma Flat (1) que deve ir para a lateral, ele não vai para a esquerda (porque estaria indo para o meio do campo), mas sim para a direita.

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1) FLAT

Normalmente feita pelos recebedores em avanços curtos para sair do campo ou tentarem conquistar jardas pela lateral. O atleta deve se deslocar no máximo 5 jardas em direção ao canto do gramado, devendo tomar cuidado para não sair do campo em sua rota. Funciona muito bem contra cobertura em Zona ou no mano a mano quando o CB está recuado demais (soft coverage).

rota flat

Nos jogos, podemos observar que ela é frequentemente utilizada por Running Backs, como válvula de escape para o QB quando ele não acha ninguém livre e o pocket está entrando em colapso. Às vezes, o RB inicia a jogada ajudando a bloquear, abandona o bloqueio e sai para receber no Flat. Uma excelente combinação de rotas é a Flat com a Slant, duas rotas curtas que se cruzam e confundem a defesa adversária, jogada presente no playbook de todos os times da NFL.

Separamos uma jogada do New York Giants como exemplo para mostrar a rota Flat. Preste atenção em Odell Beckham Jr. na parte de cima do vídeo fazendo a movimentação e recebendo o passe. Note que ele vira a cabeça para Eli olhando por cima do ombro:

2) SLANT

Essa é uma rota que pode significar muito perigo ao adversário caso o atleta em questão tenha uma boa velocidade e entrosamento perfeito com o QB. O recebedor dá apenas três passos para frente e corre em 45º para explorar o espaço aberto no meio do campo. Mesmo se a bola não for lançada, ele deve continuar seu trajeto. Nessa movimentação, o QB precisa ser extremamente preciso, pois o WR deve receber o passe em movimento para ter um avanço após a recepção. Se a bola for alguns centímetros para trás ou para frente pode virar uma interceptação ou impedir que jardas sejam conquistadas após a conexão.

rota slant

É uma das rotas mais fatais existentes e é boa para ganhar jardas em descidas curtas, garantindo o first down, como também pode ser muito bem explorada em situações de Goal Line, com o time próximo à end zone, como vamos mostrar no vídeo. Outro ponto importante é que o recebedor consiga vantagem interna do campo sobre o defensor, pois caso o CB se posicione mais para dentro, impedindo a passagem e ganhando a frente, dificulta demais para que a rota seja bem executada. Não é qualquer um que tem a coragem necessária para correr uma Slant, pois se você parar para pensar vai perceber que leva o atleta ao encontro direto dos linebackers e, caso prossiga, safeties vindo em alta velocidade para o tackle.

Para atrapalhar essa rota, se faz necessária uma marcação em zona específica com um LB posicionado no meio do campo exatamente para onde o recebedor deve correr, ou até mesmo um Robber avançado pela região. De qualquer maneira, ela será fatal contra qualquer marcação se bem executada com timing perfeito entre WR e Quarterback. Os Slot Receivers baixinhos e rápidos usam muito.

Para demonstrar essa rota, separamos uma movimentação do Arizona Cardinals com Larry Fitzgerald no canto inferior do vídeo abaixo:

3) COMEBACK

O atleta segue por 7 a 15 jardas em uma linha reta e quebra em 45º para trás, em direção a linha lateral, para se livrar da marcação. Geralmente essa jogada é usada quando o Cornerback está muito recuado se preocupando com o passe em profundidade e também precisa de um entrosamento perfeito entre QB e WR, pois o recebedor não pode ficar muito tempo parado simplesmente esperando o passe chegar, mas sim correr em direção a bola quando ela está no ar. O atleta em questão deve ficar atento, pois geralmente o QB lança o mais na lateral possível para evitar qualquer surpresa do marcador de forma que ou completa o passe ou será incompleto para fora do campo, sem qualquer possibilidade de interceptação. A bola precisa ser lançada no momento do corte do recebedor ao se virar para trás.

É eficiente contra a Cover 1 e Cover 3 por explorar a lateral e evitar a interferência do Free Safety ou de qualquer LB como ajuda extra, deixando o recebedor no mano a mano contra um defensor. Contra a Cover 2 Zone, todavia, pode ser um problema porque o Safey daquele lado vai cobrir o fundo do campo e o CB tem mais liberdade para antecipar e cortar a linha de passe.

rota comeback

Separamos uma das grandes jogadas de Antonio Brown na temporada passada com o Pittsburgh Steelers. Observe-o no parte superior do vídeo:

4) CURL

O recebedor faz a mesma movimentação do rota “Comeback” correndo de 7 a 15 jardas, mas ao invés de cortar para fora do campo ele vira para o meio com o objetivo de receber a bola e ganhar mais jardas. Assim como a rota acima, é importante que a bola seja lançada no momento do corte.

Tudo que falamos em relação a contra qual cobertura a “Comeback” deve ser usada e quando não deve se aplica aqui.

rota curl

Novamente pegamos Antonio Brown como exemplo. Fique de olho na parte inferior do vídeo e veja como a realização perfeita da rota somada ao entrosamento com o QB faz com que seja quase impossível impedir o passe:

5) OUT

Aqui o WR precisa correr em linha reta por volta de 10 a 15 jardas (dependendo do livro de jogadas da equipe) e fazer um corte brusco de 90º em direção a linha lateral do campo. Se feita com perfeição, essa movimentação significa um bom ganho de jardas. Ela também pode ser usada em campanhas sem conferência – quando o QB reúne o ataque para decidir a jogada -, pois é uma ótima forma do WR conseguir o avanço, sair de campo e parar o relógio.

Essa rota é extremamente perigosa para o Quarterback e o corte do recebedor precisa ser excelente porque qualquer erro mínimo de direção do passe ou se faltar um pouco de força, é imensa a chance de interceptação e boa possibilidade de ser retornada para a end zone, resultando na famosa Pick Six. Inclusive, se você gosta de assistir College Football e avaliar os talentos de lá prestes a ir para a NFL, preste muita atenção nos passes dos QBs em rotas Out, pois isso somado à boa presença no pocket são um ótimo indicativo de que deverá ir bem ou não na liga profissional – repito, é um passe que exige demais do jogador. Muitos ataques preferem usar a Comeback por ser mais segura, tendo em vista que o recebedor volta em direção à bola e toma a frente na jogada.

rota out

Dessa vez o exemplo da rota é com o Denver Broncos e Demaryius Thomas. Fique atento na parte de cima do vídeo e veja que ele tem total noção da parte do campo em que está e o passe chega na hora e altura certa para não dar chance a marcação:

6) DIG ou IN

Tem as mesmas características da rota “Out”, só que nesse caso o recebedor faz um corte brusco de 90º para dentro do campo com o objetivo de aproveitar os espaços no meio do gramado e continuar avançando com a bola. O risco dessa jogada fica por conta do lançamento do QB: por se tratar de um passe de aproximadamente 15 jardas para o meio do campo, que costuma ser congestionado, essa bola precisa ser lançada com força e precisão para não dar chance ao azar.

Ela é uma das responsáveis pelo surgimento da Tampa 2, pois explora uma área do campo deficiente na cobertura Cover 2, especialmente a que a utiliza em Zona, fazendo com que o recebedor corra para uma região por trás dos LBs e à frente dos Safeties. Não indicada contra coberturas em que o Free Safety está ali no meio como na Cover 1 ou 3. No livro de jogadas dos times, essa rota pode muito bem ser usada para queimar as coberturas fazendo uso de uma combinação de rotas longas como a Go, Corner e/ou Post para jogar o(s) safety(ies) para trás e abrir espaço pelo meio do campo.

rota in

Fique atento em Michael Floyd, do Arizona Cardinals, na parte superior do vídeo e veja a realização perfeita da rota. Veja que um defensor sobrou no meio do campo e atrapalhou a jogada:

7) CORNER

As três rotas restantes são usadas para avanços longos. Na “Corner”, o recebedor avança em linha reta por cerca de 15 a 25 jardas e corta 45º para fora em direção a linha lateral. Assim como em todas as rotas que o WR corta para fora do campo, o QB precisa tomar cuidado e ter uma grade precisão. Combinada com a Post que veremos a seguir, ela forma uma das Scissors Routes mais utilizadas e fatais em um jogo de futebol americano (falaremos da Scissors como bônus).

Nesse tipo de rota, antes do corte para fora do campo, o recebedor pode usar seu gingado e fingir que vai cortar para dentro antes de seguir para o outro lado. Chama-se isso de “Stem Move”. Um outro detalhe é que o WR deve receber o passe no peito virado para a lateral do campo de jogo, ficando com seu corpo entre o marcador e a bola.

rota corner

Mais uma vez usamos o ótimo Antonio Brown como exemplo aqui nesta rota. Observe o canto inferior do vídeo:

8) POST

A mesma movimentação da rota “Corner”, só que aqui o WR precisa cortar em 45º para dentro do campo. Usada normalmente pelos recebedores mais rápidos e explosivos. O atleta deve correr em direção ao poste, até por isso o nome da rota é “Post”. Bastante usada em jogadas perto da end zone para aproveitar o espaço aberto pelos outros recebedores no meio do campo. Funciona bem combinada com qualquer outra rota longa (Corner , Go, In ou Out) e especialmente contra Cover 2 como é o caso do lance que separamos para ilustrar. Muitas vezes o passe do QB terá que ter mais precisão e bom toque na bola que força, pois se o recebedor ultrapassar a marcação, o lançamento deve encobrir o adversário e cair leve nas mãos do WR.

Em caso de marcação homem a homem, é imperativo que o recebedor consiga ganhar a batalha pela vantagem de correr mais próximo da parte interna do campo – para onde ele irá cortar – que o seu marcador.

rota post

Separamos uma jogada do Arizona Cardinals com John Brown recebendo um passe e entrando na end zone para anotar o TD. Brown não ganha a parte interna, mas ultrapassa o CB na velocidade para conseguir o corte para dentro. Fique de olho na parte de cima do vídeo:

9) GO ou FLY

Essa rota talvez seja a mais simples de executar, mas a mais complicada para o atleta se desmarcar. Usada pelos WRs mais rápidos e explosivos, se o passe é completo representa um avanço enorme para a equipe, com boas chances de resultar em TD. Por ser uma rota longa, algumas vezes o marcador acaba fazendo uma falta de interferência por evitar de alguma forma a corrida do recebedor, o que também rende um bom ganho de jardas.

Também é bastante usada na redzone quando o ataque chama uma famosa jogada conhecida por “Four Verticals”, onde alinha-se quatro recebedores e todos correm a rota “Go” colocando pressão nos Safeties que precisam optar por quem marcar. Quando o Slot Receiver (que fica alinhado próximo à linha ofensiva e não na parte externa) corre a rota “Go” ou “Fly”, ela adquire outro nome mais específico para tal: Seam Route. É extamente essa rota que consagrou Rob Gronkowski, que costuma correr a Seam várias vezes por partida.

rota go

Novamente com John Brown arrastando a marcação. Aqui o WR precisa colocar toda a sua velocidade para vencer o defensor e ter um espaço para receber o passe:

==ROTAS BÔNUS==

Além das movimentações apresentadas acima, ainda existem variações que juntam duas rotas em uma só, outras que dependem de bloqueios e rotas combinadas entre dois WRs diferentes que podem facilmente enganar as defesas. Separamos quatro exemplos para mostrar que a parte tática vence o jogo físico na maioria das vezes:

1) STOP N’ GO

stop and go

O jogador finge uma rota “Comeback”, onde avança por 5 ou 10 jardas e vira para o QB para receber o passe. Após a primeira movimentação, o recebedor continua em uma rota “Go”. Com isso, o marcador é enganado por não esperar essa segunda ação.

O Tight End Will Tye executa essa rota, espécie de “Double Move”, no vídeo a seguir:

Não é algo que deve funcionar bem contra uma marcação em Zona, já que estará preparada para isso e provavelmente terá alguém mais atrás após o corte para a rota “Go”. Também não é indicada contra Soft Coverage, quando o marcador está bem recuado já na linha de scrimmage, pois é fundamental que a cobertura esteja bem próxima no momento em que o recebedor para e volta a correr de novo. Sendo assim, ela é adequada para WRs baixos e rápidos que estão sofrendo com uma marcação muito física e até mesmo para TEs contra linebackers que tentam antecipar o passe.

2) SCISSORS ROUTE

bonus scissors

A jogada combina rotas de uma maneira muito inteligente, utilizando aquelas que se cruzam como a corner (amarela) e a post (vermelha) para explorar o campo em profundidade quando em dado momento vão se cortar, caracterizando uma Scissors Route, ou seja, uma rota tesoura por se cruzar justamente nesse formato. Normalmente irá colocar pressão no safety que terá que decidir qual dos dois recebedores vai acompanhar para ajudar os cornerbacks.

Dê o play para ver o exemplo em ação:

No vídeo que separamos, a Scissors Route vai explorar justamente o Strong Safety que precisará escolher quem vai marcar. Assim que ele escolhe, Bradford lança no alvo livre. Esse tipo de conceito de rotas pode ser usado com combinações de rotas curtas (slant e flat, por exemplo) ou longas como foi o caso. Vale perceber que se não houvesse a rota curta flat do RB no lance, o CB iria acompanhar mais de perto um dos recebedores e o Safety escolheria o outro, dificultando demais o resultado positivo. Foi essencial a combinação Flat+Post+Corner explorando a cobertura por zona e criando o dois contra um.

3) RUB ROUTE

bonus rub route

Basicamente são rotas que se cruzam já na saída de forma a fazer com que um defensor atrapalhe o outro, criando tráfego e garantindo uma separação entre recebedor e marcador que não havia na linha de scrimmage. O WR dá um passo à frente para que o CB recue um pouco e, em seguida, segue para a lateral passando quase colado ao seu companheiro de time para que o defensor não passe pelo mesmo local e tenha que dar a volta por fora. O outro recebedor funciona como uma espécie de parede para garantir que aquele que deve receber a bola consiga ter espaço suficiente para tal conexão com o quarterback. Esse é o conceito chave da Rub Route.

A jogada é legal desde que o recebedor (preto) não se choque propositadamente com o outro cornerback (vermelho). Forma perfeita de combater a marcação homem a homem em press coverage (quando o defensor fica colado no recebedor já na linha de scrimmage).

Visualize a jogada através do vídeo:

A diferença para a Scissors – que também cruza rotas – é que a Rub combate a marcação mano a mano em press coverage já na linha de scrimmage, enquanto a Scissors se cruza mais para frente.

4) SCREEN PASS

screen pass

É um passe para um jogador que esteja da linha de scrimmage para trás. Tem como objetivo surpreender a defesa e fazer com que os bloqueios dos demais recebedores abram um espaço na defesa e permitam um bom avanço. É um tipo de Constraint Play, ou seja, ela serve para fazer com que a defesa jogue em sua formação base caso estejam mandando muita blitz, por exemplo. Obriga a serem mais conservadores na próxima jogada, o que nos faz perceber que é mais quem uma simples jogada, pois o Screen Pass integra todo um jogo de xadrez comandado pelo coordenador ofensivo.

Assista no vídeo abaixo um Screen Pass para Odell Beckham Jr.:

Há algumas variáveis do Screen Pass, como o Bubble Screen, onde ao invés de contar apenas com bloqueios dos outros recebedores, ele designa normalmente dois jogadores de linha ofensiva que avançam e abrem espaços para o atleta que recebeu o passe.

*Por Rodrigo Perrotta e Tiago Araruna

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Redação Liga dos 32 Este texto foi produzido em conjunto por dois ou mais membros da equipe Liga dos 32. Twitter: @LigaDos32 // Facebook: fb.com/ligados32 // Instagram.com/ligados32