Série Tática – Os triângulos no jogo aéreo

10 de agosto de 2017
Tags: 32 por 32, tiago araruna,

Existem duas formas de atacar uma defesa com o jogo aéreo: esticando-a horizontalmente ou verticalmente. Bill Walsh, lendário técnico do San Francisco 49ers, tornou famoso um novo formato, conhecido como “triângulos”. Essa espécie de jogada tem dois efeitos em uma só, pois ela vai explorar a defesa tanto na vertical quanto na horizontal.

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De acordo com o tipo de cobertura, é mais favorável escolher uma certa chamada que seja mais efetiva contra aquilo que a defesa apresenta. Por exemplo, o “Flood”, onde três jogadores fazem rotas para o mesmo lado com cada um correndo em uma profundidade diferente (explorando a defesa na vertical), é mais adequado contra uma Cover 2 Man. O grande problema é que é muito difícil determinar qual a cobertura adotada pelo adversário a cada snap, sendo que os times passaram a disfarçar muito bem isso, tornando difícil até ter certeza sobre qual era a cobertura mesmo após a jogada acontecer tamanha as possibilidades e sub-divisões nas responsabilidades acerca do jogo aéreo.

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Dessa maneira, nada mais natural que buscar um conceito que funcionasse bem contra qualquer tipo de cobertura. Um antídoto natural que vai ser efetivo não importa o que encontre pela frente.

Na imagem acima, podemos verificar uma das mais famosas chamadas aéreas atuais. Está presente em quase todo playbook de qualquer time que tenha um jogo aéreo minimamente evoluído. Agrupamento de três jogadores em um lado, com aquele centralizado correndo uma rota “corner”, o mais aberto na ponta em uma rota “snag” e o slot mais interno vai de rota “flat”. Perceba como dois deles se cruzam indo para lados opostos ao mesmo tempo combatendo a possível marcação homem a homem – faria os defesnores se chocarem ou perderem tempo na perseguição – como também abrindo o campo lateralmente, dificultando a marcação em zona. A rota mais longa, nesse caso a “corner” vem para explorar a defesa na vertical, assim completando a filosofia por trás desse conceito de jogada que pretende ser uma ameaça em profundidade e na horizontal contra todo tipo de cobertura.

Um detalhe importante é que a “Snag” quando bem feita vai ser uma verdadeira assassina de cobertura em zona a depender da capacidade do recebedor executando-a. Porque o ponto onde ele vai parar vai depender muito mais de sua percepção do que de um lugar pré-determinado. Nesse desenho, ele sai da direita para a esquerda e para virado para o QB. Mas onde ele para pode ser um pouco mais para lá ou para cá e a rota pode ser um pouco mais ou menos vertical. Ele precisa explorar o espaço vazio.

Essa mesma jogada é usada por quase todo time da NFL e querida por seus principais quarterbacks. Estava no playbook de ataques mortais da história recente da NFL como o Patriots de 2007 (permanece no playbook até hoje como veremos no vídeo) e o Broncos de 2013.

Algumas das mais clássicas jogadas do conceito de triângulos são perfeitas tanto para destruir coberturas em zona como para atacarem cobertura homem a homem em jogadas envolvendo – ou não – blitz. Zona? Homem a homem? Cover 2 Man? Cover 2 Zone? Cover 3? Cover 4? Cover 1? Os triângulos podem ser efetivos contra qualquer uma e o limite é a capacidade do coordenador ofensivo de saber como usar suas armas, como definir as formações e o desenho de cada jogada que tenha o conceito explicado nela.

O grande problema com o conceito aéreo dos “triângulos” recai sobre a limitação de pessoal, realmente. Na maioria das vezes, os times vão usar 3 ou 4 recebedores, sendo dois em um puro conceito vertical ou horizontal, por exemplo. Fica difícil usar 3 recebedores em um “Flood” tradicional porque o desenho da chamada perderia o fator híbrido que a faz funcionar tanto ao esticar a defesa lateralmente quanto em profundidade.  Dá para ver isso na imagem, onde apenas dois recebedores estiveram no “Flood” para o mesmo lado e não 3. Faltou uma rota intermediária para a direita. Fora que as defesas mais modernas tem conseguido rotacionar seu alinhamento para povoar a região que percebem que deve ser explorada em um eventual triângulo.

Para isso, claro, há uma resposta do ataque. O futebol americano é um jogo de gato e rato, então aquilo que um faz, o outro busca uma resposta através de uma espécie de contra-ataque. Se a defesa rotaciona para combater o triângulo, o ataque pode trabalhar jogadas no lado oposto para fazer principalmente os safeties respeitarem ambos os lados e jogarem em um alinhamento “honesto”, sem tentar prever e antecipar a jogada.

As coberturas mais utilizadas são a Cover 2 e 3. Por isso, vamos analisar quais seriam as leituras do QB em uma jogada com o conceito de triângulos contra cada uma. Contra a Cover 2 a leitura é Hi-Lo, primeira opção é a mais vertical. O QB precisa ler o CB que está mais próximo do recebedor que vai correr a “corner”. Se ele recua, deve procurar o recebedor no “flat”. Se ele fica, vai na “corner”. Contra Cover 3 o CB deve recuar na sua zona e cobrir a rota “corner”, de forma que o defensor responsável pelo “flat” vai ficar dividido entre o recebedor na rota “flat” e aquele com a rota “snag”. Um deles deve estar aberto.

Um dos conceitos mais utilizados pelos times da NFL e NCAA é esse dos triângulos. Justamente por seu aspecto híbrido, fácil de atacar praticamente qualquer defesa de contra-atacar pelo outro lado caso o adversário tente antecipar às suas ações. Toda a ideia gira em torno de explorar o espaço e antecipar ao defensor, inclusive nas rotas longas o quarterback deve lançar no espaço vazio e o WR se esforçar para estar lá. Quem consegue parar o conceito dos triângulos?


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Tiago Araruna acompanha a NFL desde 2006 e é o idealizador do projeto Liga dos 32. Como Editor-Chefe do Portal, está à frente da coluna semanal 32 por 32, toda quinta no ar. Co-apresentador do Podcast Liga dos 32 que vai ao ar às quartas . No twitter: @tiagoararuna