[Série Tática] Os sub-pacotes defensivos

3 de agosto de 2017
Tags: 32 por 32, tiago araruna,

Muito se fala a respeito da evolução dos sistemas ofensivos e de seus conceitos mais utilizados no College e NFL. Não seria possível ter uma boa defesa diante dessas modificações sem que os sistemas defensivos também se adaptassem ao futebol americano moderno e em constante busca por melhores alternativas. Uma das mudanças mais óbvias nos últimos 10 anos tem sido a “Spread Offense” e sua influência no futebol americano universitário e profissional, o que, por fim, ajudou a gerar um jogo com uma presença maior de formações com 3 ou 4 WRs e, consequentemente, muito mais voltado ao passe que em tempos atrás.

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As defesas se ajustaram a isso através de um uso mais frequente e aperfeiçoado de seus sub-pacotes. Antes, é fundamental deixar claro que tais sub-pacotes existem há muito tempo e surgiram como uma forma dos times se defenderem contra nomes como Mike Ditka e Kellen Winslow que eram tight ends muito atléticos, dificilmente marcados por linebackers. Havia a necessidade de mais um Defensive Back (safety ou CB) para auxiliar na cobertura de caras desse porte e com uma velocidade acima do comum para a posição. Fica claro que os sub-pacotes apareceram com mais força quando ainda nem se utilizava 3 WRs com a frequência atual, mas era uma necessidade diante de grandes TEs contra os quais a formação base da defesa a deixava exposta.

Para explicar os sub-pacotes, primeiro é preciso entender o pacote básico ou defesa-base. A formação base da defesa normalmente será 4-3 ou 3-4, sendo o primeiro número referente à quantidade de jogadores de linha defensiva e o segundo aos linebackers. Se usarmos um terceiro número representando os defensive backs, teríamos a 3-4-4 e 4-3-4, ou seja, ambos os pacotes básicos utilizados pelos times contam com o mesmo número de CBs e Safeties (4).

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Em uma formação 3-4-4 ou 4-3-4, caso o ataque esteja com 3 Wide Receivers ou até mesmo 4, muitas vezes a defesa irá depender de um linebacker para cobrir o WR extra e isso, obviamente, é um duelo desfavorável à defesa. Não é ideal ter um LB correndo atrás de um WR no mano a mano ou até mesmo em Zona, salvo raríssimas exceções. Para evitar esse tipo de duelo claramente favorável ao ataque é que as defesas desenvolveram cada vez mais os seus sub-pacotes que existem para dar àquele sistema defensivo a formação ideal contra determinada formação ofensiva. Até porque, como sabemos, é da criação de duelos favoráveis facilmente manipulados que os grandes ataques do futebol americano fizeram seu nome.

Sub-pacotes, portanto, nada mais são que a variação do pacote básico da defesa (3-4-4 ou 4-3-4) para evitar duelos favoráveis ao ataque. Sendo assim, por exemplo, é comum que um linebacker dê lugar a outro cornerback quando diante de 3 WRs, transformando uma 4-3-4 em uma 4-2-5, mais eficiente contra esse número de recebedores. Após essa introdução, vamos analisar alguns dos sub-pacotes mais utilizados na NFL e College Football, quais sejam Nickel, Dime e Quarters.

Temporada após a temporada, está cada vez mais consolidada a formação ofensiva em conjunto 11 (um RB, um TE e 3 WRs) como a mais utilizada pelos ataques da NFL. Como uma resposta a isso, o sub-pacote defensivo conhecido como “Nickel Formation” também teve um aumento exponencial em seu uso. Nele, costuma-se substituir um linebacker por um terceiro cornerback, apelidado de nickelback (NCB).

Antigamente, a formação “Nickel” era mais utilizada em terceiras descidas óbvias de passe pois as defesas costumavam jogar uma % muito maior de snaps em seu pacote básico. A ideia é bem simples, com o maior uso de um WR no slot, mais vezes o nickelback está em campo e esse sub-pacote é testado. É comum que o LB substituído seja o WILL linebacker da formação básica de uma defesa 4-3-4.

O sub-pacote defensivo nomeado “Dime” segue a mesma linha do “Nickel”, mas em vez de trocar um LB por um CB, saem dois linebackers e entram dois defensive backs, seja CB ou Safety, apelidado de “dimeback”. A “Dime” é bem menos frequente na NFL que a “Nickel”, sendo mais vista no College Football que tem ataques com “Spread Offenses” mais agressivos e com um uso frequente de 4 WRs. E é para isso que esse sub-pacote serve: combater formações com 4 Wide Receivers, especialmente.

Tanto na “Nickel” quanto na “Dime”, os defensive backs adicionados vão permitir uma cobertura em zona mais eficiente e, melhor ainda, uma cobertura homem a homem, se for o caso, sem um claro duelo favorável para o ataque. O ponto fraco da “Dime” é bastante lógico, pois sem dois linebackers fortes e capazes de parar a corrida, o jogo terrestre adversário se torna uma arma muito interessante já que bloquear CBs “leves” é bem mais simples.

Estamos lidando com um sub-pacote bem raro quando tratamos da “Quarter”. Consiste na substituição de 2 linebackers e um atleta da linha defensiva por 3 defensive backs. Se pegarmos como exemplo a formação básica 4-3-4, ela se transformaria em um 3-1-7, ou seja, na “Quarter” temos sete defensive backs em campo. O Seattle Seahawks usou mais que qualquer time da NFL esse sub-pacote no início da passagem de Pete Carroll por lá, sendo a formação escolhida em diversas terceiras descidas.

É bom deixar claro que esse sub-pacote é conhecido como “defesa de prevenção”, normalmente utilizado em situações de desespero como contra uma possível “Hail Mary” ou em quarta descida longa na reta final de um jogo mesmo com o ataque ainda no campo defensivo. Em momentos muito específicos e incomuns durante uma partida é que a “Quarter” entra em ação, exceto alguns casos raros como o citado Seahawks.

Na área de passe curto e intermediário é basicamente a mesma disposição de jogadores que a “Dime”, com cinco homens responsáveis por essa zona de cobertura. A diferença é que na “Quarter” ficam três jogadores responsáveis por cobrir o fundo do campo e não dois como acontece muitas vezes. Oito no total auxiliando contra o jogo aéreo e apenas três jogadores no pass rush tentando atingir ou apressar o quarterback. Obviamente que o pass rush vai deixar a desejar, mas o objetivo é impedir um passe muito longo, então não é algo que vá inviabilizar a cobertura defensiva via de regra.

Além dessas várias possibilidades de sub-pacotes defensivos, as defesas ainda têm buscado por jogadores híbridos que podem fazer muito bem uma dupla função. Como, por exemplo, jogar como safety ou nickelback. Linebacker ou Strong Safety e assim por diante. Diferente do ataque que pode criar possibilidades híbridas através de sistemas ofensivos, uma defesa é tão híbrida quanto os seus jogadores a permitem ser. Sendo bem direto, para ser híbrida uma defesa precisa de pelo menos um jogador híbrido. Vince Wilfork foi chave para que o Patriots jogasse algumas vezes como uma defesa 1-Gap, outras como 2-Gap e ainda parte 1-Gap e parte 2-Gap na mesma jogada. Sem um jogador com certas características isso é inviável. Atletas efetivos tanto contra a corrida quanto contra o passe e que podem disfarçar a posição que estão jogando quando for preciso são os chamados híbridos. Kam Chancellor e Tyrann Mathieu são ótimos exemplos.

Um outro ponto importante é que nos sub-pacotes não altera-se apenas posições (sai um LB e entra um CB, por exemplo). Muitas vezes sai um Defensive Tackle bom contra corrida e entra um que tem melhor desempenho como pass rusher em situação de passe, sai um LB mais forte e ótimo fechando “Gaps” contra o jogo terrestre e entra um LB mais ágil e eficaz contra o passe. Enfim, os sub-pacotes se referem a mudança na formação, trocando um jogador de uma posição por outra. Mas que fique claro que existem outros minuciosos detalhes nas trocas entre atletas da mesma posição sem interferir por si só em uma mudança de pacote. Já ouviu a frase que o futebol americano é como um jogo de xadrez?

Em tempos de constantes mudanças, ajustes e reinvenções ofensivas, as defesas precisam se adequar a elas e o mínimo que podem fazer para ter uma resposta é colocar as formações mais adequadas em campo a cada lance. Para enfrentar WRs no slot – às vezes dois deles – e RBs especializados em receber passe em terceira descida, parar Tight Ends cada vez mais parecidos com WRs e estar preparada para os desafios que se apresentem, os sub-pacotes defensivos precisam ser estudados e, mais importante, colocados em prática na hora e momento certos durante um jogo.


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Tiago Araruna acompanha a NFL desde 2006 e é o idealizador do projeto Liga dos 32. Como Editor-Chefe do Portal, está à frente da coluna semanal 32 por 32, toda quinta no ar. Co-apresentador do Podcast Liga dos 32 que vai ao ar às quartas . No twitter: @tiagoararuna