quinta-feira, 27 de julho de 2017

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A primeira pergunta que precisa ser feita é: Qual o posicionamento de J.J. Watt? Muitos diriam sem pensar duas vezes que ele é um Defensive End 3-4, ou seja, um DE que atua em uma defesa que se alinha como uma verdadeira 3-4, com três Defensive Ends e quatro linebackers mais atrás em sua formação base. Em tese, em uma defesa 3-4 quem deve acumular mais sacks e serem as estrelas do pass rush são os Outside Linebackers que se posicionam em pé na parte mais externa em relação aos demais jogadores de linha defensiva. Os outros dois linebackers (Inside Linebackers) ficam mais pelo meio defendendo contra o passe ou corrida.

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É fato notório que J.J. Watt começou sua carreira profissional na NFL como um Defensive End de defesa 3-4 fixo (a imagem abaixo mostra a posição “natural” dele como DE). Conforme ele foi se mostrando um monstro muito acima da média, o Texans resolveu, a partir do seu segundo ano, deixá-lo mais à vontade para modificar seu posicionamento. Um Edge Rusher com mais de 130kg como é o caso de J.J. Watt é muito incomum. Um DE em defesa 4-3 e um OLB em defesa 3-4 – que são os Edge Rushers puros no futebol americano – pesam por volta de 120kg e 110kg, respectivamente.

Aberto na ponta em um posicionamento nada natural para um cara que era considerado um Defensive End 3-4, Watt é um pass rusher muito ágil e com uma velocidade de reação fora do normal, isso sem mencionar a quantidade imensa de técnicas que ele domina e varia para surpreender e chegar ao backfield para fazer o que faz de melhor: derrubar QBs. Os melhores Offensive Tackles da NFL lidam com defensores rápidos e técnicos o tempo todo, mas o diferencial é que J.J. Watt costuma ser bem mais forte e impactante que o pass rusher padrão. Fora a sua sede para finalizar a jogada e nunca desistir do lance. Uma mistura do que um Defensive Tackle tem em força com o que um Edge Rusher tem em agilidade e técnica.

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Certa vez o técnico do Texans Bill O’Brien declarou que “é muito difícil determinar onde ele vai se alinhar. Ele é um ‘end’ que alinha em 3-technique, mas às vezes está em frente ao Center e outras vezes está flutuando pelo campo, caminhando de um lado para outro (…). Isso é chave.” Como foi dito, o líder do time do Texans ganhou mais liberdade a partir do seu segundo ano no que diz respeito ao seu alinhamento. Wade Phillips e Romeo Crennel, coordenadores defensivos que trabalharam com ele, preferiram fazer dessa forma com ele.

Para entender o posicionamento dele que já é um dos maiores defensores da história, é preciso ter uma boa noção dos Gaps e Techniques. Como a imagem acima deixa bem claro, os Gaps são os corredores entre os jogadores da linha ofensiva, ou seja, o espaço entre eles que será alvo de ataque das defesas chamadas 1-Gap, em que os atletas da linha defensiva são responsáveis por um Gap cada. Na 2-Gap, eles atacariam o jogador à sua frente, tendo como obrigação defender 2 Gaps, um do lado esquerdo e outro do lado direito do atleta de linha ofensiva que o defensor busca neutralizar. Normalmente, uma defesa 3-4 que tem uma linha defensiva mais pesada para atacar a linha ofensiva é 2-Gap, enquanto a 4-3 é 1-Gap. Porém, isso não é uma regra.

Os Gaps vão de “A” em diante pela ordem do alfabeto, dependendo do alinhamento da linha ofensiva. Entre o Center e os Guards temos o Gap A, entre os Guards e os Tackles fica o Gap B, entre os Tackles e o Tight End vem o Gap C e assim por diante. Já as Techniques são números imaginários que vão de 0 a 9 e servem para classificar onde o defensor está se posicionando perante a linha ofensiva. Um Nose Tackle irá jogar normalmente em 0-Tech, ou seja, em frente ao Center. Já um pass rusher nato estará em 5-tech ou mais aberto. As techniques nos ajudam a entender o que um técnico espera de seu jogador, pois um atleta em 3-Tech deve produzir mais pass rush que um em 1-Tech, por exemplo. Para efeitos de identificação, devemos observar o ombro do defensor – se o ombro direito dele está em frente ao ombro direito do Left Guard (LG), então estamos diante de um alinhamento em 2i-Tech.

Nesse gráfico acima do Pro Football Focus, podemos ver com que frequência J.J. Watt se alinhou em cada technique na temporada 2015. Em um número considerável de snaps ele está em 3-Tech como um verdadeiro Defensive End em 3-4, todavia aparece bem também como um 4i-Tech, 4-Tech, 5-Tech e, na maior parte das vezes, alinha em 6 e 7-Tech. Vale ressaltar também que ele joga uma quantidade assustadora de snaps – mais que qualquer pass rusher – em 9-Tech, ou Wide Nine, bem aberto. Resumindo, J.J. Watt joga em diversas posições, inclusive em 0-Tech em frente ao Center e até mesmo em pé como um Outside Linebacker. Pode jogar também sem posição previamente definida, rondando a linha ofensiva, também em pé.

Ainda sobre o gráfico, Michael Bennett (Seahawks) é quem mais se aproxima do tipo de posicionamento de Watt, com mais snaps por dentro que o pass rusher do Texans e bem menos em Wide Nine. Uma produção abaixo que o número 99 também, claro. J.J. Watt é algo como um defensor de interior de linha e Edge Rusher ao mesmo tempo – um híbrido. Sendo prioritariamente um Edge Rusher mais que um jogador de interior. Michael Bennett é algo semelhante em termos de posicionamento, guardadas as devidas proporções.

Essa é uma defesa 3-4 na jogada acima, porém conta com a presença de dois linebackers já na linha de scrimmage. Um como um Outside Linebacker alinhado aberto pela direita e em pé – até aqui nada anormal – e outro em pé pelo meio também na linha de scrimmage. O que mostra o quanto denominações como 3-4 e 4-3 são muito básicas para classificar uma defesa. J.J. Watt está longe de se posicionar como um Defensive End 3-4 nesse lance. Veja como ele fica bem aberto em Wide Nine (9-Tech) para chegar ao encontro do Right Tackle já em velocidade.

O trabalho do Right Tackle é até honesto. Ele consegue angular bem o seu bloqueio para bater de frente com o pass rusher, tem um bom primeiro contato que seria suficiente para dar tempo para Alex Smith se livrar da bola contra praticamente qualquer jogador. Mas J.J. Watt é um monstro e, pior, um monstro imprevisível que se alinha nas mais diversas posições da linha defensiva.

Aqui podemos conferir ele alinhado por dentro como um 2-Tech, pronto para usar sua habilidade de romper e destruir o pocket na parte interna da linha defensiva. Nesse lance, ele derruba não o quarterback, mas sim o running back, mostrando capacidade de parar o jogo corrido também. A versatilidade de J.J. Watt não se “limita” aos seus alinhamentos e variações de estilos de técnicas. Ele é muito rápido para boa parte dos Centers ou Guards conseguirem acompanhar e tentar bloquear.

No vídeo acima, o Giants é inteligente na chamada. O coordenador ofensivo da equipe usa o Right Guard que estava em frente a Watt para fazer um “pull” para o RB e tenta surpreender o pass rusher com um bloqueio inesperado e lateral do Center – jogador que possui uma vantagem de posicionamento clara já que a corrida passa pelas costas dele. Isso lhe dá todas as condições de ser uma barreira para J.J. Watt. Pena para o Giants que o ídolo do Texans não só passa por cima do bloqueio, mas também supera a “segurada” (holding) que sofreu e finaliza o lance.

Essa habilidade de jogar em diversas techniques e, mais importante, conseguir resultados em todas elas através de sacks, pancadas no jogador que tem a bola, hurries (apressar o passe) e tackles atrás da linha de scrimmage é um diferencial gigantesco entre ele e os demais pass rushers. Mais que isso, é algo que os futuros grandes nomes da posição precisarão dominar se quiserem atingir um nível próximo do que o que J.J. Watt chegou em poucos anos. Não vai ser fácil, pois é preciso tamanho, força, talento e inteligência acima da média para surpreender e trazer novas possibilidades para um função que existe há tanto tempo no mapa do futebol americano.

 


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