[Série Tática] O ataque recordista do Broncos em 2013

14 de setembro de 2017
Tags: 32 por 32, tiago araruna,

Em 2007, Tom Brady lançou para 50 touchdowns na temporada regular à frente de um outro ataque que marcou a história. Quando muitos pensavam que esse recorde não seria quebrado nem tão cedo, Peyton Manning – grande rival de Brady – o fez seis anos depois. Ao lado de nomes como Demaryius Thomas, Eric Decker, Julius Thomas, Wes Welker e Knowshon Moreno, Manning conduziu um dos mais poderosos ataques de todos os tempos. O detalhe é que Welker participou desses dois ataques inesquecíveis: Patriots-2007 e Broncos-2013.

Quer ter acesso a longas análises táticas em vídeos exclusivos e dezenas de outros benefícios? Se torne um assinante Liga dos 32.

Ao final da temporada, o time tinha batido vários recordes: Pontos marcados (606), touchdowns (76), touchdowns aéreos (55), jardas aéreas em uma temporada (5.477), jogos com 4 ou mais TDs aéreos (9), dentre outros. Cinco jogadores daquela equipe tiveram pelo menos 10 TDs na temporada, recebendo passe ou correndo com a bola. Não havia esquema defensivo capaz de pará-los, pelo menos não até o Super Bowl.

Leia Mais: Índice completo com todos os posts da Série Tática

Já falei sobre a jogada preferida de Peyton Manning nessa série tática e mencionei isso por lá: O playbook de 2013 do Denver Broncos tem muito do que é chamado de “ataque de Peyton Manning e Tom Moore”. Moore foi seu coordenador ofensivo desde seu primeiro ano no Colts e montou o livro de jogadas ofensivas que Peyton passou a usar como base por toda sua carreira. O foco era reduzir o número de jogadas e apostar em execução e capacidade de leitura do quarterback que tinha o dom de fazer a defesa errar mesmo quando acertava a cobertura para uma determinada chamada. Esse talento raro de Manning era o que permitia que tal playbook fosse eficiente, pois a imensa maioria dos QBs se tornaria previsível e afundaria ao tentar colocar as ideias de Moore em campo.

Vamos então avaliar alguns dos conceitos aéreos mais utilizados pelo Denver Broncos de 2013. Acima temos o conceito “Flood”, clássico da dupla Manning/Moore nos tempos de Colts e que foi muito bem incorporado em Denver. A ideia do “Flood” é jogar normalmente três recebedores para o mesmo lado do campo, executando rotas que vão na mesma direção. Isso pode ser feito em um 2×1 (dois recebedores de um lado e um do outro), 3×1, 2×2 etc. Inclusive variando a abertura do WR mais externo e a distância do slot para a linha ofensiva.

Nessa jogada especificamente, o Broncos está distribuído em 2×2, com dois recebedores de cada lado. Wes Welker recebe o passe em uma “shallow cross” saindo da esquerda para a direita. Note que ambos os recebedores pelo lado direito cortam para fora, colocando em prática o conceito “Flood”. Três recebedores indo para o lado direito nesse exemplo, trazendo problemas para a cobertura naquela região do campo ao povoá-la com vários alvos.

Essa jogada acima é bastante criativa e perspicaz, mas só vai funcionar se o fake for muito bem feito e, além disso, bem “vendido” ao longo da campanha ou mesmo do jogo. Explico. Para que a defesa acredite no “Screen Pass” a ponto de um CB, por exemplo, abandonar seu recebedor para ir ajudar o companheiro no tackle, a jogada real de “Screen Pass” – sem o fake – precisa ter sido utilizada naquela campanha ou pelo menos com alguma frequência no jogo. Caso contrário, fica mais difícil esperar que o “Fake Screen” funcione como deveria.

Dito isso, no vídeo fica claro como é uma chamada inteligente. O Broncos está em uma formação “trips” com 3 recebedores de um lado e um do outro. Um recebedor abre atrás da linha de scrimmage como se fosse receber o passe ali e os demais que estão pelo lado direito saem como se fossem bloquear os CBs. No momento em que esses CBs tentam se desvencilhar dos “bloqueios” para derrubar o jogador que supostamente receberia o “Screen Pass”, os dois recebedores que iriam bloquear executam o “fake” e em vez de ficar no bloqueio correm na vertical livres de marcação e dificultando a vida do safety naquele lado.

De novo uma formação “Trips”, onde os dois recebedores mais externos pelo lado direito cortam para o meio, buscando fazer o safety (verde) hesitar nem que seja por meio segundo. Julius Thomas segue na rota “seam” reto em direção à end zone e recebe um ótimo passe de Manning que se aproveita da marcação inicial de um linebacker em zona (vermelho) e da leve hesitação do safety que é mais que suficiente para abrir uma janela para o seu passe.

Novamente vemos uma ideia desenvolvida por Tom Moore e Peyton Manning no Colts sendo aplicada com algumas variações apenas. O Denver Broncos usava a mesma chamada quatro ou cinco vezes na mesma partida, fazendo modificações de formação ou de ordem de leitura do lance. Qual defensor será a base da jogada? Dependendo do que ele faça, a bola vai aqui ou ali? Ninguém dominou isso na NFL como Peyton que, na maioria das vezes, sabia mesmo antes do snap como cada jogador de defesa iria agir.

Essa é uma variação da jogada preferida de Peyton Manning, texto que já foi feito nessa série tática e está linkado no início do post. Ela envolve o conceito “Levels”, no qual o recebedor externo corre um “quick in” de cerca de 5 jardas de profundidade e o slot vai em uma In de 10 a 15 jardas, sendo, portanto, a opção mais vertical do conceito. A leitura de Manning é Hi-Lo, procurando primeiro a rota “In” do seu recebedor no slot e depois, sendo necessário, o recebedor exeterno que executou uma “quick in” de 5 jardas.

A “Levels” permite a leitura Hi-Lo porque o atleta que deve seguir na rota mais curta está mais na ponta do campo, de forma que ele vai correr bastante horizontalmente. Tempo suficiente para que o QB olhe pra o recebedor na “In” cortando para dentro após 15 jardas e depois volte os olhos para ele sem maiores problemas. É um conceito que tem variações no playbook do Broncos com a opção da rota mais longa cortar para fora e não para dentro com o objetivo de confundir a marcação. Pode ser colocado em prática tanto em uma formação trips quanto em 2×2.

Trouxemos jogadas essencialmente aéreas porque foi o grande destaque do ataque do Denver Broncos, mas é válido mencionar que uma das bases do jogo terrestre era a corrida por meio de “Inside Zone” blocking. Um bom grupo de recebedores, um Tight End em um grande momento e um dos maiores quarterbacks de todos os tempos sendo o maestro de um ataque com um playbook simplificado, mas com domínio por parte dos jogadores em sua execução e de Peyton na leitura pré-snap e em ajustes fundamentais. Foi histórico e até hoje é extremamente divertido assistir esse time jogar em reprises.


Acompanhe nosso conteúdo mais de perto e fique por dentro de tudo o que rola na NFL e NCAA: Siga nosso Twitter e curta nossa página no Facebook. Para ganhar DEZENAS de benefícios e se tornar um apoiador do site e do nosso trabalho, clique aqui

Postagens Relacionadas









Tiago Araruna acompanha a NFL desde 2006 e é o idealizador do projeto Liga dos 32. Como Editor-Chefe do Portal, está à frente da coluna semanal 32 por 32, toda quinta no ar. Co-apresentador do Podcast Liga dos 32 que vai ao ar às quartas . No twitter: @tiagoararuna