Série Tática – Formações Ofensivas

15 de fevereiro de 2016
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tatica

*Lembrando que esse post é básico e serve de introdução às formações ofensivas. Ao longo da offseason teremos vários desses detalhes sendo aprofundados.

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– Formação T

A formação em T é uma das mais antigas do futebol americano, sendo utilizada desde a época onde o passe para frente, instituido em 1906, era proibido. Ela é a base de quase todas as formações modernas, e revolucionou a forma como o futebol americano era jogado, adicionando imprevisibilidade aos ataques.

A forma mais comum da formação T, chamada de Power T, consiste no QB localizado atrás do center e por volta de cinco jardas atrás da linha três corredores são posicionados, sendo dois fullbacks e um halfback (uma versão levemente diferente da que vemos na imagem). Os fullbacks avançam na frente do halfback para abrir espaço para a corrida na defesa adversária.

formacao T

A Power T inclui dois TEs na linha ofensiva, com a função de bloqueadores, sendo direcionada primariamente a corridas. Entretanto eles podem ser substituídos por recebedores, ou os próprios RBs podem se posicionar para receber um passe. Dessa forma o QB pode decidir se entrega a bola para seus corredores ou se irá para o passe.

Essa formação revolucionou o jogo porque foi a primeira onde o snap vinha para o QB. Antes disso a função primária do QB era de bloquear e abrir espaços para corrida e o snap era direcionado para o RB. Outra inovação foi o fato de permitir que o RB atingisse a linha já com velocidade, tornando mais difícil para a defesa parar o corredor.

Com o passar do tempo e a orientação do jogo mais para passes do que para corridas, a formação em T ganhou espaço. Ela rivalizava em sua época com a Single Wing. Na final da NFL de 1940, o Chicago Bears, treinado pelo lendário George Halas, usou a formação em T para massacrar o Washington Redskins (que usava a single wing) por 73-0. O jogo marcou o fim do amplo uso do single wing e o início do domínio da formação T.

Hoje em dia ela é raramente utilizada, mas ainda aparece em situações de linha de gol sendo usualmente chamada de full house formation. Outra formação moderna que é modificação direta da T é a em I.

– Single Wing

A single wing foi a formação ofensiva que dominou o futebol Americano no primeiro meio século de existência do esporte como o conhecemos. Ela ganhou popularidade com a introdução do passe para frente e foi a primeira estratégia a tentar enganar a defesa ao invés de usar força bruta para avançar a bola.

Ela funcionava com uma linha ofensiva desbalanceada, onde apenas dois jogadores estavam a esquerda do center (que fazia o snap da bola) e quatro estavam a direita. Além de guards e tackles, dois ends (precursores dos Tight Ends atuais) compunham a linha. O backfield era composto pelos “backs”: tailback, fullback, quarterback e wingback.

single wing

O tailback tinha primariamente a função dos RBs atuais, recebendo o snap diretamente do center e correndo com a bola. O fullback era um jogador mais forte, com função de bloqueio, mas que carregava a bola eventualmente. Os quarterback e wingback tinham a função de bloqueio também, mas lidavam com passes, em sua maioria curtos, com o wingback tendo também a responsabilidade de receber passes (a posição deu origem ao moderno WR). O center tinha que ter uma boa precisão no snap, pois frequentemente ele era realizado com o jogador alvo em movimento. A possibilidade de quatro jogadores diferentes receberem a bola adicionava o fator imprevisibilidade que transformou a formação single wing na mais bem sucedida da primeira metade do século XX.

Apesar de não ser mais utilizada atualmente diversos conceitos da single wing permanecem no futebol americano moderno, como a ideia do play action. A popular formação shotgun e a infame Wild Cat têm origem na histórica single wing.

– Formação I

A formação I é uma das mais populares no futebol Americano, sendo usada desde o colegial até a NFL. Ela consiste em dois RBs posicionados em linha atrás do QB, em um formato de I (daí o nome da formação). Um dos RBs é o half-back (HB) que carrega a bola e um fullback (FB), posicionado na frente do HB para abrir espaços para a corrida. O HB fica posicionado entre 6 e 8 jardas atrás da linha de scrimmage, possibilitando que ele atinja o primeiro nível da defesa com velocidade e tenha tempo para encontrar os buracos na linha adversária. Eventualmente, em jogadas que necessitam o ganho de poucas jardas, o FB pode carregar a bola. O QB é posicionado “under center”, ou seja, colado ao jogador que faz o snap.

formacao I1

A formação I pode ser tão efetiva que nesse vídeo podemos ver um jogo onde a universidade de Nebraska aplicou a mesma jogada com sucesso em 22 oportunidades.

A formação I ainda acrescenta imprevisibilidade pela presença dos WRs. O QB pode decidir não entregar a bola para o RB e lançar para um dos recebedores abertos. Caso contrário a principal função dos WRs é bloquear. Por conta dessa alternativa, a I pode ser utilizada em jogadas de play action.

Essa formação pode apresentar numerosas pequenas variações, como o deslocamento do FB para o lado da linha onde o TE se encontra (strong side) ou para o lado contrário (weak side). Uma das variações mais utilizadas, principalmente em situações de linha de gol ou de poucas jardas, é a Power I, onde um WR é substituído por um TE, aumentando o poder de bloqueio, e o outro é trocado por um FB, incrementando as chances de um buraco ser aberto na linha defensiva adversária.

A formação em I atualmente é utilizada muito mais no college football do que na NFL, onde a presença de mais WRs ou TEs com capacidade de bloqueio está aos poucos substituindo o uso do FB.

– Split Backs ou Pro Set

Uma variação bastante utilizada da formação I é a Pro Set, também conhecida como Split Backs. Nela ao invés de termos um HB e um FB posicionados em linha, eles ficam um ao lado do outro logo atrás do QB.

pro-set

A bola pode ser entregue para um dos RBs ou passada pelo QB com a mesma efetividade, sendo que seu principal trunfo é o fator surpresa. Além de não se saber qual dos RBs correrá com a bola e por qual direção, o passe sempre é uma ameaça real, e após o jogo terrestre ser estabelecido o play action pode ser muito efetivo. Além disso, os dois RBs proveem proteção adicional ao QB em casos de blitzes defensivas.

Apesar da Pro Set ter caído em popularidade na NFL com o aumento progressivo da importância do jogo aéreo em relação ao terrestre, ela é aplicada ainda em ataques com foco em corridas.

– Wildcat

A formação Wildcat é o que existe de mais próximo ao uso da arcaica Single Wing no futebol americano moderno. Ela começou a ter popularidade no futebol universitário nos anos 80 e 90, com as primeiras aparições na NFL na virada do século XXI. Porém, passou a ser notada e bastante utilizada na NFL a partir de 2008, principalmente após o Miami Dolphins do QB Chad Henning vencer o Patriots em Foxborough com cinco TDs originados em jogadas de Wildcat. A partir daquele ano quase todas as equipes da liga adicionaram a formação aos seus playbooks.

A Wildcat é caracterizada principalmente pelo fato do snap não ser direcionado para o QB, mas diretamente para (geralmente) um RB, que pode entregar a bola, correr com ela ou até mesmo ir para o passe. A jogada não é a base de nenhum ataque, sendo que pode facilmente ser contida uma vez que seja identificada pela defesa adversária. O sucesso da wildcat se deve ao fator surpresa. O RB que recebe o snap é posicionado como o QB na formação shotgun, ou seja, de 5 a 8 jardas atrás da posição da bola. Enquanto isso, um outro jogador (geralmente WR ou RB) se desloca por trás da linha antes do snap para simular um sweep, quando a bola é entregada a ele para correr. No wildcat a bola não é entregue para esse jogador, mas sim fica com o RB posicionado como QB. Entretanto a jogada pode mudar a qualquer momento.

wildcat

Como a Wildcat depende do fator surpresa para funcionar, a partir da sua popularização na NFL sua efetividade diminuiu de forma considerável, já que atualmente todas as defesas da liga estão preparadas para conter essa formação. Entretanto, principalmente ao aplicar um QB móvel com habilidade para correr ou lançar, ela ainda pode encontrar sucesso e é eventualmente usada a nível profissional.

– Single set back

A single set back é a base para centenas de outras formações ofensivas. É uma das mais utilizadas a nível profissional, e permite que a partir da mesma formação diversas opções sejam exploradas na mesma jogada. Com uma boa leitura da defesa adversária, um QB pode utilizar a single set back para fazer muito estrago.

A forma básica da single set back inclui um HB alinhado cerca de 5 a 7 jardas atrás da linha de scrimmage e o QB under center. Dois recebedores são posicionados nas laterais e um WR é colocado mais próximo a linha ofensiva, na chamada posição de slot. Um TE, geralmente para bloqueio, é posicionado no lado do braço de lançamento do QB.

single back

Essa formação foi implementada pela primeira vez na NFL como base de um ataque pelo ex-treinador Joe Gibbs, do Washington Redskins. Ele foi tricampeão do Super Bowl pela equipe, onde foi head coach entre 1981 e 1992. A ideia de Gibbs era deslocar os marcadores adversários, onde pelo menos três jogadores de defesa tem que ser colocados na linha para marcar os recebedores. Isso desvia a atenção da defesa, que por conta do espalhamento de seus jogadores tem que escolher entre marcar o passe ou a corrida.

Ela também pode ser utilizada para o play action, como nessa jogada de Russell Wilson:

Dezenas de variações podem ser exploradas, com as mais comuns incluindo o uso de dois TEs e dois WRs (bastante explorada pelo Patriots, por exemplo).

– Shotgun

A shotgun é a descendente direta da Single Wing mais utilizada atualmente. Popularizada pela West Coast Offense, essa formação é a preferida de times com QBs que se garantem em passes longos, sendo utilizada como base para o ataque em equipes como o New England Patriots e o Indianapolis Colts. Nela o quarterback fica posicionado cerca de 5 jardas atrás da linha de scrimmage para receber o snap, possibilitando uma melhor visão da defesa adversária e garantindo maior tempo para a realização do passe. Um RB é posicionado ao lado do QB, sendo que em situações de passe sua função é de bloquear. Geralmente três WRs são alinhados no lance, sendo dois bem abertos e um mais próximo a linha ofensiva, sendo ele o chamado Slot Receiver. Os recebedores mais abertos possuem geralmente estatura maior e maior velocidade, enquanto o slot receiver é um jogador mais ágil e menor. A estrutura básica da shotgun é a seguinte:

shotgun

Diversas variações podem ocorrer, como a presença de um FB para maior proteção do QB ou o deslocamento de todos os recebedores para um único lado do campo.

A shotgun é utilizada principalmente em situações de passe, já que ela dá tempo aos recebedores para conseguirem separação ou se desmarcarem, além de possibilitar ao quarterback uma análise completa do backfield antes de lançar a bola. Um exemplo de aplicação dela no passe é esse TD de Tom Brady, onde os três recebedores estão deslocados para o lado esquerdo do campo:

Nessa formação a bola ainda pode ser entregue ao RB para uma corrida, ou o próprio QB pode carregar ela, desde que encontre um espaço para isso. Entretanto, a shotgun não favorece o jogo corrido, por contar com pouca proteção ao RB. Por isso, boa parte das equipes da NFL costuma usar a shotgun apenas em situações óbvias de passe. Outra possibilidade é um passe curto para o RB (o screen pass), que então tentará ganhar as jardas com a perna:

– Pistol

A Pistol é uma variação da shotgun onde o HB fica posicionado atrás do QB (geralmente entre 3 e 4 jardas) enquanto o QB fica mais próximo ao center (também entre 3 e 4 jardas).

pistol

A pistol possibilita um maior sucesso do jogo corrido em relação à shotgun, já que o RB tem mais tempo para encontrar espaço para correr e chega com maior velocidade à linha ofensiva. Além disso, ela atrapalha o timing de defesas já acostumadas a se defender contra o shotgun. A pistol pode ser particularmente efetiva quando aplicada com um QB móvel em um esquema de read option.

Essa formação ganhou popularidade na NCAA após LSU e Alabama serem campeãs nacionais em 2007 e 2009 utilizando-a como base no ataque. Na NFL ela foi bastante aplicada quando Colin Kaepernick assumiu a titularidade do 49ers, já que o ex-QB estava bastante acostumado a utilizar a pistol quando defendia Nevada no universitário. Exemplo de aplicação da pistol (pela universidade de Nevada):

– Empty Backfield

A empty backfield é uma formação óbvia de passe onde não há nenhum RB posicionado atrás do QB. Qualquer RB em campo se colocará próximo a linha de scrimmage. Ela também é conhecida como “five-wide” por ter geralmente cinco recebedores abertos em campo.

empty backfield

Exemplo de aplicação do empty backield:

Esse tipo de formação tenta dar o máximo de opções para o QB, além de espalhar a secundária adversária que tentará cobrir vários jogadores simultaneamente. É bastante utilizada na NFL em situações onde muitas jardas são necessárias em apenas uma jogada.

– Goal line formation

Esse tipo de formação é utilizado em situações de poucas jardas, especialmente próximo a linha de gol. Nela não são posicionados WRs, e geralmente são empregados 3 TEs e um FB para ajudar nos bloqueios. Com alguma frequência jogadores de linha ofensiva ou defensiva são posicionados como FBs ou TEs para bloquear de forma mais eficaz. Um exemplo de formação na linha de gol é esse TD de 1 jarda de Cam Newton:

– Kneel

Também conhecida como formação da vitória, é uma formação especial utilizada quando uma equipe pretende apenas gastar o relógio e vencer o jogo. Nela o QB apenas recebe o snap, ajoelha na bola e deixa o cronômetro correr até a próxima jogada ou o fim do jogo. Eventualmente ela pode dar errado:

E foi para justamente evitar esse tipo de coisa que a kneel surgiu. Antigamente os times costumavam apenas correr com a bola para passar o tempo quando o jogo estava praticamente ganho. Isso mudou com o famoso “Miracle at the Meadowlands”, quando em 19/11/1978 o New York Giants tinha a posse de bola e vencia o Philadelphia Eagles por 17-12 a poucos segundos do fim do jogo. Foi então que o QB Joe Pisarcik sofreu um fumble, recuperado pelo CB Herm Edwards que levou a bola para a end zone e garantiu a improvável vitória do Eagles por 19-17. Confira a histórica jogada:

A partir de então foi desenvolvida a formação kneel, desenhada para evitar de qualquer forma que a equipe adversária consiga recuperar a bola:

goalline

Nela temos uma linha ofensiva de 7 jogadores que evitam que a defesa chegue ao QB. Posicionados logo atrás do QB estão dois jogadores, geralmente RBs, que tem a função de tentar recuperar a bola em caso de fumble. Posicionado mais atrás fica um jogador rápido (RB ou WR) que, em último caso, deve ser capaz de parar um retorno de fumble recuperado pela equipe adversária.









Rafael Dunaiski é apaixonado por NFL e brinca de jornalista nas horas vagas. Responsável pela edição e revisão de textos, além de escrever a coluna “Guia da rodada”, às sextas, com os destaques da próxima semana da NFL. Na offseason, a coluna aborda temas gerais.