Série Tática – Erhardt-Perkins Offense

27 de junho de 2016
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tatica

Esse texto faz referência a alguns aspectos que são esclarecidos nos seguintes posts:

Formações Ofensivas

Rotas dos Recebedores

Air Coryell

West Coast Offense

Spread Offense

Criado na década de 1970, o sistema ofensivo Erhardt-Perkins saiu das mentes de Ron Erhardt e Ray Perkins, de forma que fica claro o motivo de ter esse nome. Ron e Ray trabalhavam sob o comando de Chuck Fairbanks, treinador do New England Patriots na época, e o objetivo dessa nova filosofia era ter um ataque efetivo no clima frio, focando no jogo corrido e em passes curtos através de várias formações e alinhamentos que pudessem confundir a defesa, porém composto de poucas jogadas diferentes, o que faz do seu playbook fácil de aprender para os jogadores. Foi assim que esse esquema surgiu e deu os primeiros passos, mas ainda evoluiria a ponto de ser o mais adequado a uma NFL moderna, em que jogadores trocam de times com mais frequência e nem sempre pode-se depender de um ou dois nomes para montar toda uma filosofia de jogo. O Patriots marca a criação da Erhardt-Perkins e também sua evolução, já que a dinastia atual da equipe é toda baseada nele, ofensivamente falando. Veremos mais à frente.

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Existem três sistemas de ataque na NFL que são a base de tudo e, a partir deles, várias derivações acabam aparecendo. São eles Air Coryell, West Coast Offense e Erhardt-Perkins. É preciso compreender que o grande diferencial da Erhardt-Perkins para as outras duas não se encontra em um desenho de uma grande chamada, mas sim na forma de comunicação das jogadas entre os atletas no campo, ou seja, na facilidade que ela proporciona ao quarterback e seus companheiros para que se entendam de maneira simples e eficaz. Na West Coast Offense, os nomes de cada jogada são bem longos e dificultam demais em situações de no-huddle, enquanto que na Air Coryell eles baseiam exclusivamente na rota das árvores, dando um número de rota para cada recebedor. O problema é que isso engessa demais a chamada, especialmente por existirem rotas que não estão na árvore e, por isso, passa a existir a necessidade de usar nomes também, além de números, o que resulta no mesmo empecilho da West Coast.

É justamente aí que aparece a diferença mais importante entre as três. Na filosofia Erhardt-Perkins, os nomes das jogadas se baseiam em conceitos que não estão organizados de forma que engessem o ataque, com posicionamento de jogadores e, consequentemente, a formação utilizada pré-definidos. Aqui o time pode atacar com a mesma chamada e jogadores em três lances seguidos, mas com formações bem diferentes. A mesma jogada de novo e de novo, apenas modificando quem faz o que em cada uma. Por exemplo, o TE que estava no slot agora está aberto na ponta direita e o RB foi para o slot daquele lado, então ele fará – em caso de mesma chamada – a rota que o TE havia feito, e o tight end correrá a que o WR aberto seguiu no lance anterior. Exatamente a mesma jogada, apenas usando diferentes peças e mexendo elas no tabuleiro. Isso vai ficar claro com a imagem que explicaremos mais abaixo.

É algo que facilita demais a vida do quarterback na hora de comunicar o que ele quer e fazer com que seus companheiros estejam posicionados rapidamente, cada um no seu devido lugar e prontos para o snap. Ele só precisa entender os conceitos e observar o alinhamento dos seus recebedores para saber o que cada um irá fazer e conseguir manter uma boa química com todos. O esquema Erhardt-Perkins também ajuda muito no aprendizado dos wide receivers, tight ends e running backs, pois não terão que decorar a sua função em cada uma das centenas de jogadas que um playbook possui, mas tão somente aprender alguns poucos conceitos e dominá-los para se sair bem. Basta o QB gritar uma palavra – Green, por exemplo – e todo mundo sabe o que deve fazer e como tudo vai se desenrolar. Sem nomes confusos ou tão longos que mais parecem redações do ENEM.

Por se basear em conceitos e não nas jogadas, individualmente falando, o quarterback terá a mesma leitura de um conceito independentemente de quais jogadores estejam em campo e do alinhamento de cada um deles pré-snap. O número de jogadas em um playbook baseado na Erhardt-Perkins é reduzido justamente porque com um conceito é possível gerar inúmeras possibilidades, algo que traz muitos problemas para a defesa.

Com os conceitos treinados e na cabeça dos atletas, é possível transformar o ataque em um monstro de muitas cabeças a depender do adversário e de como a defesa se comporte. É um sistema extremamente flexível e passível de ajustes através da mudança de posicionamento dos jogadores, bem como das formações mais usadas em cada partida. Em uma semana o time pode focar no jogo corrido, em outra jogar como uma West Coast Offense e, na seguinte, misturar diversos esquemas para, em um jogo de playoffs, se aproximar de uma Spread Offense e assim por diante. Erhardt-Perkins permite que o sistema ofensivo tenha o estilo que deseje e quando deseje.

Uma outra vantagem que impressiona é não depender de nenhum jogador especificamente para funcionar (exceto um QB minimamente decente), muito menos demandar características específicas para seu grupo de recebedores, TE, RBs ou linha ofensiva, de maneira que a equipe que utiliza esse esquema pode escolher o tipo de jogador que gostar no Draft ou na Free Agency livremente. Se um recebedor rápido que é o nome de determinado time nos passes em profundidade se machuca, muito provavelmente o ataque vai afundar se tal franquia tem como base de seu sistema ofensivo a filosofia Air Coryell, onde suas principais jogadas são as verticais. Todavia, se isso acontece com um time que usa a Erhardt-Perkins, há grandes chances de ele ser bem substituído por algum reserva. Quantas vezes você já viu o New England Patriots perder jogadores na Free Agency ou para lesão e o time continuar bem? Os conceitos da Erhardt-Perkins são a chave.

Em caso de uma equipe querer um ataque up-tempo, acelerando o ritmo entre um snap e outro, não há esquema melhor em termos de velocidade na comunicação, através da simplicidade para chamar um conceito (basta gritar uma palavra). Além disso, é possível que os mesmos 11 jogadores fiquem no campo durante toda uma campanha, usando um ou dois conceitos com diversas formações diferentes, gerando jogadas diferentes e fazendo isso rápido, sem tempo para a defesa reagir. Como dissemos, com um conceito dá para criar inúmera chamadas distintas.

playbook patriots

Essa imagem foi retirada do Playbook do New England Patriots e deve deixar tudo mais claro. Temos o conceito “Ghost/Tosser” aplicado em quatro formações diferentes acima. Note que nos desenhos do lado esquerdo da imagem (acima e abaixo) a formação muda e até mesmo os jogadores que estão em campo podem ser alterados, mas a jogada é exatamente a mesma. Do lado direito da figura (acima e abaixo) da mesma forma, apenas invertendo o alinhamento dos recebedores de um lado para o outro e usando as duas rotas slants com os recebedores à esquerda do QB.

“Ghost” indica que o recebedor mais aberto correrá uma rota “go” (vertical), o slot uma “out” e o mais interno – que na figura você vê que pode ser o RB – vai no “flat”. “Tosser” significa que os recebedores do outro lado correm uma “slant”, uma mais longa que a outra. Um único conceito que resulta em quatro jogadas diferentes, com posicionamentos diferentes, mais que suficiente para dificultar e confundir a defesa, ao mesmo tempo que facilita para os recebedores em termos de aprendizado do ataque e para o quarterback nas suas leituras durante o jogo.

Não importa a formação, o recebedor que estiver mais aberto fará a rota designada, o que se encontra no slot da mesma forma e assim funciona a engrenagem. Atenção no jogador representado pela letra “H” (halfback) na figura acima. Em uma formação ele vai no “flat” pela esquerda, em outra corre uma slant mais longa, na terceira segue para o “flat” do lado direito e na quarta uma rora vertical ou simplesmente “go”. Isso cria incertezas na defesa a partir de um único e singelo conceito.

Lá na década de 1970 quando surgiu, a filosofia ofensiva Erhardt-Perkins era tida como conservadora, focada primariamente no jogo corrido e físico pelas trincheiras. O que muitos não percebiam é que era um esquema muito flexível e que permitia ao ataque ser praticamente o que quisesse a cada semana, como um camaleão que se camufla diante de adversários que jogam de maneira bem diferente uns dos outros. O referido sistema evoluiu com a NFL moderna justamente por ser tão aberto a ajustes, e o grande responsável por sua consagração neste século foi Bill Belichick e o Patriots, através de sua comissão técnica. A maior contribuição de Belichick foi fazer da Erhardt-Perkins neutra no que se refere a uma filosofia ofensiva, transformando um ataque em um verdadeiro sistema de jogo e organizando as chamadas de maneira única.

Foi assim que uma filosofia ofensiva que certa vez já fora chamada de conservadora se transformou em uma das responsáveis por ajudar a construir a dinastia do Patriots, bem como contribuir para que um dos maiores quarterbacks de todos os tempos dominasse a NFL. Por ser um sistema que não se compromete com formações-base ou coisas do tipo, um time que usa a Erhardt-Perkins pode ser bem diferente de outro que também a segue.

Você deve lembrar que nem o próprio Patriots de um determinado ano é igual a ele mesmo no ano seguinte. Quando contava com nomes como Wes Welker e Randy Moss, New England era focado no passe e se assemelhava a uma spread offense com grande porcentagem de suas formações sendo a shotgun. Quando jogaram a dupla de tight ends Rob Gronkowski e Aaron Hernandez, a base passou a ser formações utilizando ambos e claro que a filosoficamente neutra Erhardt-Perkins deu toda abertura para isso.

Já mencionamos a facilidade que esse sistema fornece quando se deseja usar um ataque no-huddle por alguns snaps ou até o jogo inteiro. A comunicação é muito fácil, já que é preciso muitas vezes apenas uma palavra para chamar a jogada. As equipes que tem como base a West Coast Offense ou Air Coryell sofrem quando tentam jogar sem fazer o huddle porque é muito mais difícil comunicar as longas chamadas. Fica claro que a forma com que o ataque do Patriots é montado depende muito pouco ou quase nada dos jogadores que estão no time, esquemas ou formações para ser refém. Ele se adapta ao que tem e o faz de maneira exemplar. É uma das razões para o sucesso.

Tudo o que os ataques da NFL fazem com sucesso gera consequências, assim como toda ação provoca uma reação. As defesas tentam a todo custo minimizar a força do Patriots mas, para isso, estão tendo que melhorar sua comunicação. Não são só os jogadores ofensivos que chamam uma jogada, na defesa isso também acontece. Com o agravante de que os ajustes defensivos estavam semelhantes ao playbook da West Coast Offense com nomes demasiadamente longos. Como New England consegue chamar uma jogada inteira com uma simples palavra, as defesas estão tendo que se reinventar no aspecto das terminologias de seus ajustes, simplificando-os.

Podemos citar três treinadores como os grandes responsáveis pelo que se tornou a Erhardt-Perkins: Bill Parcells, Bill Cowher e Bill Belichick. Sim, três Bills. E o que se tornou, afinal? Bem, na atual e moderna NFL, os jogadores trocam de time devido ao salary cap, lesões acontecem como sempre aconteceram e nenhum sistema ofensivo se adapta melhor a isso do que o tratado neste post devido à sua flexibilidade para mudanças de elenco e de características a cada semana se for o caso. É uma revolução não através de jogadas, mas de ótimos conceitos, simplicidade e facilidade na comunicação de tudo o que um ataque precisa saber e fazer a cada snap.

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Tiago Araruna acompanha a NFL desde 2006 e é o idealizador do projeto Liga dos 32. Como Editor-Chefe do Portal, está à frente da coluna semanal 32 por 32, toda quinta no ar. Co-apresentador do Podcast Liga dos 32 que vai ao ar às quartas . No twitter: @tiagoararuna