quinta-feira, 20 de julho de 2017

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Chip Kelly é uma das grandes mentes ofensivas desta década, reconhecido por dois dos maiores técnicos de futebol americano dos últimos tempos, Bill Belichick e Nick Saban. A revolução ofensiva que ele levou a Oregon, focando em velocidade e marcando muitos pontos por jogo não será esquecida tão cedo. Esqueça o suposto fracasso dele na NFL, pois estamos falando de um dos grandes nomes quando se trata de ataques nesse esporte. O sucesso do treinador em Oregon foi tão grande que ele não só vencia, mas humilhava até mesmo nomes consagrados como Pete Carroll, que levou 47 pontos e 613 jardas para casa.

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O ex-treinador de Eagles e 49ers fez um trabalho interessante na Philadelphia mesmo tendo nas mãos quarterbacks do nível de Nick Foles e Sam Bradford. O Eagles de 2013 terminou a temporada em primeiro em jardas terrestres, jardas terrestres por tentativa e jardas por jogada. De acordo com o respeitado “Football Outsiders”, foram o terceiro melhor time em eficiência ofensiva. Conseguir isso com um “signal caller” como Nick Foles passa bem longe de transformar Chip Kelly em um total fracasso na NFL como alguns querem fazer você acreditar.

Porém, não se pode negar que seu sistema ofensivo foi ficando menos criativo com o passar dos anos e isso não só engessou os ataques comandados por ele como os tornaram previsíveis. E não foi só isso, ao se aventurar como General Manager ele comprometeu o seu trabalho como treinador ainda mais. Também não ajudou o fato de sair do Eagles direto para o San Francisco 49ers, onde teve o “glorioso” Blaine Gabbert como seu quarterback.

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Mas onde começou a dar tudo errado no Eagles após um início promissor? Quando se fala em Chip Kelly, a primeira coisa que vem a mente é justamente o estilo “up tempo” de seu ataque, ou seja, bem acelerado entre uma jogada e outra para dificultar o alinhamento defensivo, a comunicação desse alinhamento entre os adversários e, claro, impedir substituições para ajustes. O problema é que a NFL não permite que um time jogue tão “rápido” quanto o então treinador do Philadelphia Eagles queria, simplesmente porque um árbitro impede o snap até que todos eles estejam posicionados. No College Football, isso não acontece dessa maneira. Isso sem falar que muitos times passaram a usar cada vez mais o “no huddle” e não se reuniam antes de chamar as jogadas, mas já as chamavam na linha de scrimmage, algo que fez com que as defesas treinassem mais a comunicação e conseguissem se acertar com um ou dois sinais do seu líder.

O segundo obstáculo foram seus quarterbacks, não apenas pela falta de qualidade como jogador passando a bola, mas principalmente por total inaptidão para sequer ser uma ameaça no jogo corrido. E digo ameaça porque mesmo no College, Chip Kelly usou o QB Darron Thomas bem menos do que consta no imaginário das pessoas como uma arma terrestre. O importante para o esquema era que ele era respeitado como uma ameaça e isso ajudava na parte matemática do jogo corrido. No esquema de Kelly, o QB não precisa correr. Basta ser uma ameaça real. Se a defesa tem 6 jogadores no box (onde fica o front seven) e o ataque tem 5 caras na linha ofensiva, é matemática simples notar que um sobrou. Esse defensor a mais que está livre, será “bloqueado” pela read option, pois se ele vai no QB, o RB corre com a bola. Se ele vai no RB, o QB corre. A grande questão é que os times passaram a ir sempre no RB porque o quarterback não era nem uma ameaça mais.

Esse vídeo acima mostra uma exceção que foi quando o veterano QB Michael Vick jogou mesmo bem longe do seu auge. Essa Read Option funciona bem melhor quando o quarterback tem essa capacidade do Vick por terra, mas bastaria para qualquer outro QB ser uma ameaça que fizesse a defesa pelo menos considerar que vez ou outra ele ficaria com a bola. Ainda sobre o vídeo, são sete da defesa contra seis para bloquear (5 jogadores de linha e um TE), então o jogador no interior da linha defensiva – destacado em azul – é bloqueado pela dúvida sobre quem pega a bola, o famoso Read Option. Como a cada ano que passava, menos seus QBs serviam como ameaça por terra, Chip Kelly passou a usar jogadas desenhadas para funcionarem como Read Option, mas sem ser realmente uma Read Option. A execução era parecida, mas o QB nunca ficava com a bola e não fazia nenhuma leitura do defensor desbloqueado para bloqueá-lo pela dúvida. Todo o estádio sabia que era o RB que ficaria com a bola. Sempre. Isso significa previsibilidade.

Os ataques de Chip Kelly costumavam ser criativos, sempre disfarçando qual jogada viria através do uso de diferentes formações, motions, audibles etc. No seu último ano no Eagles (2015) e em sua temporada com o 49ers (2016), no entanto, os adversários sabiam exatamente qual era a jogada antes de ela acontecer. O que, por melhor que o desenho da chamada seja, obviamente é um atestado de óbito na NFL.

Nos vídeos acima, temos a prova da previsibilidade. Através do posicionamento do TE e do RB, é possível saber para onde a corrida vai antes mesmo do snap. Se o TE está alinhado do lado oposto ao RB, a chamada é uma corrida em direção ao Tight End. Se eles estão no mesmo lado, vai acontecer uma corrida na direção oposta aonde o TE estava alinhado. É bom deixar claro que são boas jogadas, mas não importa quão boa seja se todo o time adversário sabe o que vai acontecer só pelo posicionamento ofensivo. A Read Option, o uso de dois TEs, a linha desbalanceada, dentre outros, eram ingredientes que confundiam a defesa e deixava muito mais difícil a tarefa de prever qualquer coisa. Com a eliminação da Read Option causada pela falta de material humano na posição de QB, o sistema de Kelly foi sendo simplificado até demais. Abaixo, o desenho do “Sweep” do treinador. Com TE e RB alinhados em lados opostos, fica fácil antecipar que a corrida vai na direção do TE.

Jogadores da NFL davam entrevista após jogar com o Eagles falando que as jogadas terrestres, principalmente, estavam previsíveis. Sem elas e sem pelo menos uma ameaça real de Read Option, o ataque de Chip Kelly não existe. Não adianta jogar rápido e mal. Essa previsibilidade nunca foi a marca dele. Sempre costumou renovar o playbook em Oregon com novidades e várias adaptações – até mesmo no Eagles chegou a alterar boa parte do playbook em 2013, uma semana antes do jogo dos 7 touchdowns de Nick Foles. Por algum motivo, em seu último ano à frente do Eagles e em 2016 com o 49ers, ele foi um treinador apático. Muito aquém da sua capacidade.

Em 2015 e 2016, seus ataques que deveriam trazer novidades e ajustes para uma NFL em que usar o mesmo sistema de 2013 dois anos depois já é algo arriscado devido ao trabalho das defesas que terminam se adaptando àquilo, acabaram sendo sistemas ofensivos inferiores ao do seu primeiro ano na liga, sem qualquer inovação e, pior, perdendo alguns aspectos positivos que haviam em 2013.

Pelo ar, Chip Kelly também se tornou previsível. Essa jogada que adota o conceito “Mesh”, onde dois recebedores se cruzam para criar tráfego na defesa e permitir a separação é muito efetiva. Mas o problema é que as defesas conseguiam perceber que ela era a chamada naquele snap só pelo posicionamento do ataque. É possível observar no vídeo que quando o time alinhava com dois recebedores no slot mais próximos da linha ofensiva (não tão abertos), a defesa já ajustava para se defender contra o “Mesh” de Chip Kelly que inclui uma rota “Wheel” do RB. O time adversário passava a marcar em Zona ou dobrava a cobertura pelo meio.

No lance acima, o Cowboys faz os dois. Marca em Zona e dobra a cobertura pelo meio, anulando completamente a possibilidade do passe para qualquer um dos WRs que se cruzaram na jogada. Isso leva Sam Bradford a forçar o passe e sofrer uma interceptação crucial dentro da end zone. Abaixo, temos uma imagem de uma das chamadas “Mesh” que Chip Kelly gostava de usar na NFL.

Se o ataque de Chip Kelly é previsível pelo ar e por terra, com seu “up tempo” e velocidade entre uma jogada e outra, o resultado não poderia ser outro senão vários “three and out” e a defesa ficando muito tempo em campo. A previsibilidade pelo ar e por terra, impossibilidade de usar a Read Option e o “up tempo” como gostaria, além de sua péssima atuação como GM foram fatores que contribuíram para a decadência do treinador na NFL.

Kelly teve sua parcela de culpa quando pareceu entregar os pontos, mas também sofreu com os quarterbacks que teve em mãos. Se ele tivesse ido para o Titans treinar o seu pupilo Mariota ao invés de Gabbert no 49ers, a história poderia ter sido bem diferente. É uma pena para quem gosta de tática e gostaria de ver coisas diferentes na NFL que a passagem do ex-Oregon tenha sido tão rápida e, em seus dois últimos anos, tão ruim pela liga profissional. É sempre curioso ver alguma lenda do College Football chegando para treinar na NFL.

Nomes como Bill Belichick, Adam Gase, Pete Carroll e Hue Jackson assumidamente incorporaram ideias do Eagles de 2013 e 2014 aos seus playbooks. Essa, talvez, seja a parte mais dura do esporte: ver outros treinadores vencendo com suas ideias. Mas é exatamente isso que bons técnicos fazem, pegam as ideias boas, descartam as ruins e colocam a sua marca nelas. Justamente o que faltou a Chip Kelly na NFL.


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