Série Tática – Coberturas

1 de março de 2016
Tags: Caio Miari, cobertura, matérias, tática, tiago araruna,

Antes de entrar na parte mais específica, é importante explicar a diferença entre cobertura em zona e cobertura homem a homem para os que não tem essa noção básica. Na man to man o Cornerback não se preocupa em ler os olhos do Quarterback e muito menos com o jogo corrido, pois seu objetivo é colar em um recebedor específico até o fim da jogada onde quer que ele vá. Para isso, o marcador muitas vezes corre de costas para a bola e usa seu posicionamento para tentar fazer com que o adversário corra próximo a lateral, se utilizando dela para espremê-lo e dificultar qualquer conexão via passe. O lado negativo é que há menos ajuda na marcação que na cobertura em zona, além de tirar os Cornerbacks e Safety (em alguns casos) do combate ao jogo corrido, tendo em vista que estarão de costas pro lance.

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Já o Cornerback que marca em zona procura sempre ficar lendo os olhos do QB, sem dar as costas a ele para acompanhar o recebedor, normalmente recuando sempre de frente para a bola, o que aumenta as chances de interceptação. Está responsável por cobrir apenas uma área delimitada do campo caso algum WR, TE ou RB passe por lá e pode ajudar contra o jogo corrido, pois como está sempre olhando para a bola, ao ver que será uma jogada terrestre poderá intervir. Ao contrário da marcação homem a homem, quem está em zona procura se alinhar na parte externa, mais próximo da sideline (fica meio que de lado) para forçar o recebedor a correr para o meio, onde LBs e Safeties estarão também em zona e poderão auxiliar na cobertura. As falhas nesse tipo de marcação são as áreas do campo vazias nas quais não tem ninguém próximo e que podem ser exploradas, além de ceder mais jardas após a recepção, em tese.

Como faço para saber pela TV quando meu time está fazendo uma marcação por zona ou homem a homem? Observe dois pontos: O CB está alinhado mais para a lateral do que quem ele está marcando tentando forçar o recebedor para correr mais para dentro do campo? Se sim, boas chances de ser por zona. Caso contrário, man to man.

Durante a jogada, o CB correu de costas para o Quarterback ou ficou o tempo todo de frente e preocupado apenas com aquela região do campo? A primeira opção caracteriza homem a homem e a segunda cobertura em zona.

Agora que você já sabe identificar os tipos de cobertura, vamos aos esquemas mais utilizados.

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*Esse texto serve como introdução aos mais diversos e amplos aspectos dos esquemas de coberturas. 

COVER 0 (Zero)

cover 0

A Cover 0 foi uma das primeiras coberturas a surgir no futebol americano profissional. Apesar de ser simples na organização, sua execução é uma das mais complexas do esporte.

Esta estratégia é usada em situações de blitz e muitas vezes na red zone (últimas 20 jardas do campo). Nela, nem os Safeties nem os Conerbacks ficam recuados ao fundo na cobertura da jogada, deixando a defesa sem ninguém para cobrir a secundária (daí o zero no nome). Em outras palavras, quatro ou cinco defensores ficam responsáveis por marcar (sempre homem-a-homem na cover 0) os recebedores adversários – a marcação deve ser bem intensa nas primeiras jardas para evitar rotas em direção ao meio do campo. Os outros sete jogadores (em alguns casos seis) do setor defensivo têm o objetivo de ir atrás do Quarterback adversário e pressioná-lo, forçando esse a tomar decisões precipitadas ou aceitar um sack.

Ao mesmo tempo em que a Cover 0 pode ser muito eficiente em situações de terceiras e quartas descidas longas (pois o QB precisa de tempo para executar o passe), ela é considerada muito arriscada por deixar o fundo do campo totalmente exposto. Em outras palavras, se algum jogador falhar em sua marcação individual, as chances de um Touchdown adversário acontecer são enormes. Se a linha ofensiva consegue dar um segundo a mais ao seu Quarterback, ele perceberá seu Wide Receiver desmarcado e fará o passe. Depois disso, o recebedor precisa quebrar apenas um tackle e anotar o TD. Um dos lances mais comuns para exemplificar essa cobertura é o Touchdown de 80 jardas de Tim Tebow para Demaryius Thomas contra o Pittsburgh Steelers nos playoffs de 2011.

COVER 1

cover1

A Cover 1 não é muito diferente da Cover 0. Enquanto quatro defensores ficam na marcação individual (homem a homem) e os outros vão atrás do QB na Cover 0, a Cover 1 conta com a cobertura do Free Safety ao fundo. Em outras palavras, a blitz e as marcações homem a homem nos recebedores continuam, porém, desta vez, um defensor (o Safety) está responsável por cobrir o passe também. Esse FS não possui ação previamente definida, devendo ficar em sua posição habitual, mas no momento do passe tenta ler os olhos do Quarterback adversário e ir em direção ao jogador que irá receber o lançamento (é o último homem na imagem, mais ao fundo).

Em situações de corrida, a Cover 1 também pode ser muito bem aproveitada, já que o Safety fica “livre” para perceber onde o Running Back do outro time está indo e ir até ele fazer o tackle. Além disso, como o outro Safety (Strong Safety) fica lá na frente – diferentemente da Cover 2 -, é possível ter 6 homens no box mesmo quando o adversário alinha 4 recebedores. Na citada Cover 2, seriam apenas 5, o que desprotegeria um pouco a equipe contra a corrida.

Como a cobertura na secundária, nesse caso, é única, existem vários caminhos para levar vantagem sobre ela. Além de Screen Passes, rotas curtas de 5 a 10 jardas que se direcionam para as laterais do campo podem ser bem aproveitadas, já que o Safety estaria muito distante da jogada. Para entender melhor, se você coloca dois WRs (um em cada lado do campo) cortando para as laterais, o FS, que está no centro do campo esperando a decisão do passe ser feita, pode ficar confuso e, mesmo sabendo para onde o lançamento será feito, provavelmente chegará atrasado à cobertura da jogada. Passes mais longos pelo meio não são nada aconselháveis em Cover 1 por ser justamente a área em que o último homem estará.

É válido lembrar que o sucesso desta jogada também depende muito da pressão que os Defensive Backs fazem nos jogadores de ataque logo nas primeiras cinco jardas das rotas. Isso porque, deste modo, os recebedores ficam desconfortáveis ao começarem suas corridas, sendo forçados a mudarem sua trajetória, retardando-as. Assim, a decisão do alvo correto para o passe do Quarterback acaba demorando mais e a blitz pode fazer seu trabalho.

COVER 2 MAN

cover 2 man real

A Cover 2 Man consiste em uma combinação entre defesas zona/individual, com os dois Safeties na cobertura em zona, cada um responsável por uma metade do campo.

Este tipo de cobertura permite que os Cornerbacks sejam bastante agressivos em suas marcações individuais (veja nos traços vermelhos da imagem como eles ficam próximos do recebedor homem a homem e em press coverage), já que, se falharem, os Safeties estão protegendo o fundo, enquanto os Linebackers podem atuar tanto em zona como no mano a mano.

Nessa espécie de Cover 2, os CBs não devem permitir que os Wide Receivers cortem para parte central do campo imediatamente. Para executar o esquema com sucesso, muitas vezes os Cornerbacks – por se preocuparem em atrapalhar as rotas adversárias e não em acompanhá-las – acabam cedendo espaço vertical aos recebedores próximos às laterais do gramado. Com os WRs mais soltos, o Quarterback, em um primeiro instante, tentará lançar a bola em profundidade ao seu alvo mais livre; e aí aparece o “charme” da cobertura dupla. O Safety já sabe que os recebedores devem ganhar um pouco mais de espaço, por isso, ficam atentos aos passes profundos e laterais. No momento em que o QB lança a bola, o FS ou o SS (depende do lado do campo) chega rapidamente no alvo para interceptar ou defender o passe.

Entretanto, esta Cover 2 possui duas franquezas principais. Primeira: o melhor Defensive Back da sua defesa contra a corrida (o Strong Safety) está focado em cobrir os passes em profundidade, ou seja, está longe da linha de scrimmage. Isso dará mais espaço aos Running Backs adversários logo que passarem das trincheiras.

A segunda fraqueza, como foi dito anteriormente, está ligada aos dois Safeties que ficam na cobertura estão “moldados” para cobrirem os Wide Receivers nos passes longos. Com dois WRs abertos, puxando o FS e SS para os lados, o meio do campo fica exposto, principalmente em profundidade. Deste modo, se a equipe adversária contar com um Tight End atlético, forte e ágil, os matchups podem ser injustos. Por exemplo, em uma formação ofensiva de 3 WRs e 1 TE (que é muito comum), a defesa pode se organizar de duas maneiras: primeiramente, colocando três Cornerbacks, um para cada Wide Receiver, e um Linebacker, ficando responsável pelo Tight End e por corridas. Nessa opção, o LB poderia ter problemas em acompanhar o TE devido à velocidade do jogador de ataque principalmente se tiver que ir com ele em profundidade, já que os Safeties se preocupam com os WRs que também correriam pro fundo do campo (na imagem acima vemos o LB do lado direito responsável pelo TE do lado esquerdo da linha ofensiva, ambos marcados em azul). A segunda alternativa substitui o Linebacker por outro Cornerback, o que dá mais velocidade à defesa. Todavia, o sistema defensivo ficaria muito exposto ao jogo corrido, pois contaria com seis Defensive Backs em campo, sendo quatro CBs.

COVER 2 ZONE

cover 2 zone

A Cover 2 Zone é uma das táticas mais clássicas do futebol americano; assim como na Cover 2 Man, ela mantém os Safeties no fundo do campo, cada um cobrindo um lado. No entanto, diferentemente da outra, a Zone coloca Linebackers e Cornerbacks também em cobertura de zona, cercando a área central do campo e passes curtos pelas laterais, respectivamente.

De maneira geral, o principal objetivo da Cover 2 Zone é evitar passes longos aos adversários. Assim, os sete defensores que estarão posicionados em zona (dois Safeties, dois Cornerbacks e três Linebackers) normalmente optam por se posicionarem logo atrás de seus adversários, garantindo que esses, mesmo que consigam a recepção, sejam imediatamente derrubados, resultando em um avanço de jardas pequeno. Normalmente apenas 4 jogadores vão atrás do QB, então precisam de Defensive Ends muito bons como os que Tony Dungy teve no Colts, Dwight Freeney e Robert Mathis – essa defesa era Tampa 2 como veremos adiante, mas sobre a DL o mesmo se aplica.

Os CBs, em Zona, vão marcar as primeiras 15-20 jardas do campo, como pode ver as áreas circuladas nas laterais da imagem acima, de forma que estarão cobrindo rotas como a Curl, Comeback e Flat (Leia o post sobre rotas aqui). Linebackers Sam e Will – entenda quem são no post de formações defensivas aqui – irão cobrir a hash, área entre os números e as hash marks, e o Mike, Middle Linebacker, será responsável pela região central. A defesa ainda terá dois Safeties ao fundo, o que caracteriza a Cover 2.

É importante levantarmos algumas observações sobre este tipo de cobertura. Primeiramente, assim como em outras marcações por zona, com os Safeties atentos nos Wide Reivers abertos, existirá um espaço no meio do campo, entre os dois últimos Defensive Backs. Desta maneira, se o time adversário colocar outro jogador centralizado em profundidade – na maioria dos casos é um Tight End -, o time ofensivo leva certa vantagem. Nesse tipo de chamada, o Safety deverá “escolher” entre acompanhar o WR do seu lado ou o TE aberto no meio; após a decisão, um dos dois deverá ficar mais livre, podendo receber o passe.

Ela é efetiva contra passes curtos pelo meio por ter LBs cobrindo por zona aquela região do campo e também é forte contra o jogo terrestre, pois todos os LBs, Safeties e CBs não tiram o olho da bola, sendo pelo mesmo motivo propícia às interceptações já que normalmente sete jogadores estão em Zona sempre de olho no QB e na bola. Porém, passes pelo meio em profundidade seguem complicando quando o FS e o SS estiverem preocupados com as laterais. Um Nickel CB tendo que percorrer 20 jardas ao fundo do campo ou um LB contra um Tight End rápido é algo que sempre foi um calcanhar de aquiles na Cover 2 Zone ou Homem a Homem.

Contra bons ataques aéreos, especialmente aqueles de ótimos QBs, a Cover Two Zone deve ser realizada com perfeição já que, como os CBs fazem a cobertura em passes de curta e média distância e os Ss estão focados em jogadas longas, haverá um espaço entre esses atletas. Para determinados Quarterbacks, tal vazio entre Cornerbacks e Safeties pode ser o suficiente para completar um bom lançamento.

Times mais voltados para a defesa Cover 2, devido às suas dificuldades, passaram a buscar uma nova solução. Daí, surgiu a chama “Tampa 2 Defense”, criada por Tony Dungy. Nela, um Linebacker ideal seria utilizado na marcação em zona no espaço aberto entre os Safeties pelo meio ao fundo (citado anteriormente), recuando quase que como um terceiro Safety. Entretanto, o LB para ser propício para esse tipo de função precisa ser suficientemente forte para deter jogadas corridas e também rápido o bastante para cobrir efetivamente os passes em profundidade pelo meio do campo. Na maioria dos casos, esse tipo “específico” de LB já atuou como Safety em outras épocas, como é o caso de Brian Urlacher, ex-Bears. Um LB atual que cairia muito bem em defesas Tampa 2 seria Luke Kuechly, ou seja, exige-se um tipo de jogador que não é fácil de ser encontrado.

COVER 3

cover 3

A Cover 3, como o próprio nome já induz, coloca três Defensive Backs em profundidade, cada um responsável por 1/3 do campo. Esta cobertura busca ter ainda mais segurança defensiva contra jogadas em profundidade, já que distribui três homens em longa distância, e quatro no centro da defesa.

Uma das principais vantagens desse esquema é a força que ele tem contra os passes longos e o bom posicionamento que dá a quem o utiliza para combater o jogo terrestre, pois perceba que o Strong Safety estará sempre próximo à linha de scrimmage reforçando o box. Os LBs e o SS ficam responsáveis pelas rotas curtas como a “Slant”, a “Curl” ou mesmo uma “Crossing Route”, enquanto os CBs e o FS cuidam cada um dos seus 33% do fundo do campo. No caso dos corners, o flat também é de responsabilidade deles quando estão em marcação press, ou seja, mais próximos da linha de scrimmage.

O lado negativo desse tipo de posicionamento é que a defesa Cover 3 pode ter problemas com passes entre 15/25 jardas nas laterais, pois quando enfrentam WRs muito rápidos, os CBs podem recuar demais e uma rota “Comeback” de 15 jardas, por exemplo, pode trazer ganhos consistentes. A defesa do Seahawks joga assim, mas ela é um sucesso não por esse ser necessariamente o melhor esquema, mas por ter vários jogadores acima da média na linha defensiva, corpo de LBs e secundária, de forma que adotar a Cover 3, ideal para o tipo de jogador que eles têm, apenas facilita o caminho para se tornar uma unidade dominante.

COVER 4

cover 4 real

A defesa Cover 4, também chamada de Quarters, é usada para jogadas claras de passe longo, na maioria das vezes, e pode ser considerado o mais importante esquema defensivo da última década. Como o nome já indica, nesta estratégia, quatro defensores se posicionam em profundidade – cada um cobrindo ¼ do campo – com o objetivo de evitar avanços aéreos de 20/+ jardas. Observe os quatro últimos homens da defesa na imagem acima.

Apesar de algumas variações, o esquema básico da Cover 4 é colocar dois Safeties e dois Cornerbacks no fundo do campo. Acontece que quando caras como Reed ou Polamalu jogam no seu time, esse esquema pode ir bem além como Ravens, Steelers e alguns times da NFL já mostraram.  Apesar de parecer um alinhamento voltado totalmente contra o passe, ele poderia enganar e disfarçar muito bem aquilo que a defesa pretendia fazer, assim os 4 jogadores mais recuados (cada um com 25% do campo em profundidade) estão em Zona, o que lhes dá algum tipo de liberdade. Se o recebedor no slot vai em rota curta – onde o LB cuidará dele – ou simplesmente fica na proteção do passe (um TE, por exemplo), o Safety que iria marcá-lo lá atrás caso fosse em profundidade pode dobrar na cobertura do recebedor mais próximo. Caso o recebedor interno (slot) siga em uma rota longa, vira marcação homem a homem. A grande chave dessa variação da Cover 4 é que quando a jogada é por terra, os CBs – que recuam para prevenir qualquer trick play de passe longo – e os Safeties correm em direção à linha de scrimmage buscando parar o RB no que seriam 9 homens no box e muita força contra o jogo corrido, algo que remete à histórica e brilhante 46 Defense do Bears de 1985 (falamos dela aqui).

Porém, quando não há Safeties do tipo de Reed ou Polamalu, a Cover 4 mais básica acaba consistindo em quatro Defensive Linemen responsáveis por pressionar o Quarterback adversário e quatro Defensive Backs na cobertura, restando apenas três jogadores na parte central do setor defensivo. Na maior parte dos casos, esta parcela é composta por Linebackers; no entanto, alguns coordenadores optam por escalar dois LBs e um  Nickelback – CB que atua em marcações de recebedores mais centralizados (slot). Como se pode ver, a principal parcela responsável por interromper o jogo terrestre dos rivais fica desfalcada e ainda estabelecida mais ao fundo. Desse modo, defesas Cover 4 (formação básica) não são indicadas contra jogadas corridas ou em rotas mais curtas que certamente renderão mais jardas após a recepção.

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Redação Liga dos 32 Este texto foi produzido em conjunto por dois ou mais membros da equipe Liga dos 32. Twitter: @LigaDos32 // Facebook: fb.com/ligados32 // Instagram.com/ligados32