Série Tática – As jogadas preferidas de Peyton Manning

17 de agosto de 2017
Tags: 32 por 32, tiago araruna,

Que Peyton Manning é um dos maiores quarterbacks de todos os tempos todo mundo sabe. O que bem menos gente sabe é como funcionou o seu crescimento como jogador na NFL – e ele aconteceu muito graças a Tom Moore. Mas quem diabos é Tom Moore? Simplesmente uma lenda entre os técnicos de futebol americano, na época coordenador ofensivo do Indianapolis Colts e responsável por dar a Peyton Manning seu primeiro playbook ofensivo no profissional, em 1998.

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Diferente do que muitos acham, o playbook de Manning no Colts era um livro não tão gordo como se poderia imaginar. Moore priorizou menos a quantidade de jogadas e mais a qualidade e capacidade de todos os jogadores de ataque dominarem a execução de cada uma delas. Existiam jogadas o suficiente para servirem de opções para qualquer situação de jogo, mas menos que o padrão dos playbooks de equipes da NFL.  A partir disso, Peyton tinha suas jogadas favoritas e as levou com ele para o Denver Broncos em 2012, onde boa parte do playbook de 1998 – desenhado em sua maioria por Tom Moore – foi utilizado até a sua aposentadoria.

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O sentimento na época entre os técnicos do Colts e até entre os jogadores era de que os adversários poderiam receber o playbook ofensivo do time e não iria fazer muita diferença. Isso porque, como foi dito, era um playbook conciso e bastava assistir aos jogos do time tomando nota de cada jogada ofensiva que as equipes iriam perceber isso. Não era difícil saber o que Peyton Manning e cia fariam em campo, mas sim como defender cada jogada atuando em melhor nível que caras como o próprio Manning, Marvin Harrison e Reggie Wayne. Jogadores que, além de serem muito acima da média, dominavam essas chamadas e treinavam elas à exaustão.

Tudo isso facilitou a transição de Manning para o profissional, modificando o patamar do time definitivamente e praticamente sem regressos já no seu segundo ano. E o número de formações utilizados em 90% dos snaps por Tom Moore foi um fator importante no desenvolvimento de Peyton, principalmente no quesito de leitura de defesas, onde ele foi um verdadeiro mestre em toda a carreira. As formações que iam a campo em quase todos os snaps ofensivos eram a 11 (1 RB, 1 TE, 3WRs) e a 12 (1 RB, 2TEs, 2WRs), o que limitava as reações da defesa às mudanças de formações ofensivas e confiava demais na capacidade do então QB titular do Colts para mudar jogadas na linha de scrimmage e ser muito acima da média pré e pós snap.

Ter um playbook conciso pode parecer um facilitador para o quarterback, mas em uma NFL tão competitiva em que se estuda tanto o adversário, isso poderia ter sido um grande problema. Nada é pior para um ataque do que se tornar previsível e limitado naquilo que ele pode fazer diante de uma boa defesa. Sendo assim, ter sido capaz de usar uma quantidade menor de jogadas por anos e anos, confiando na habilidade de escolhê-las até mesmo segundos antes do snap e na sua execução mostram o quão grandioso Peyton Manning foi como jogador.

Essa é a jogada preferida de Peyton Manning desde quando entrou na NFL em 1998 e foi extraída diretamente do playbook do Colts daquele ano. Existem algumas variações desse mesmo desenho – uma delas mostrarei aqui – mas, no geral, a intenção e a forma de atacar a defesa é a mesma. No playbook de Tom Moore, ela era conhecida como “Dig” e, como foi mencionado, várias outras jogadas derivam dela, umas com mais e outras com menos modificações.

O conceito empregado no desenho da jogada é o famoso “levels”, onde dois jogadores saem do mesmo lado com rotas que cortam para a mesma direção, sendo uma mais vertical que a outra. Observamos isso com os recebedores “X” e “H” pelo lado esquerdo, já que “H” percorre uma rota “In” de 16 jardas e o “X” uma “quick In” de 5 jardas. Do outro lado, o “Y”, normalmente um Tight End, tem uma “option route”, ou seja, pode executar tanto uma rota “seam”, reta, em direção a end zone, ou uma rota “post” a depender de como a defesa se posicione contra ele. Caso seja uma Cover 2, com dois safeties em profundidade, ele iria de “post”, mas em se tratando de uma Cover 1, a escolhida seria a rota “seam”. Para finalizar, o “Z” fica encarregado de correr verticalmente, mais como um enfeite no lance que como uma opção, pelo menos na maioria das chamadas.

A leitura de Peyton Manning nessa jogada é “Hi-Lo”, o que significa que ele vai ler as rotas longas primeiro. Logo após o snap, o QB focará no “Y” em sua “option route”, depois volta sua atenção ao “H” e a rota “In”, e por último procura pelo “X” na “quick in”. Se ninguém estiver desmarcado o suficiente para o passe, o RB ainda é uma opção. Raramente o “Z” será uma alternativa nesse tipo de jogada.

Essa é uma das versões possíveis a partir da primeira imagem da jogada “Dig”. Na imagem acima, temos a “Dag” que troca o conceito “levels” pelo conceito “smash”, sendo utilizado no lado direito. No conceito “smash”, veríamos normalmente o recebedor externo em uma rota “hitch” e o slot em uma rota “corner”, mas aqui o padrão é o mesmo: rota curta para dentro do recebedor externo e rota mais longa para fora do recebedor no slot. E aí está, “Z” corta para dentro e “Y” para fora em uma formação 2×2 com 2 recebedores de cada lado, exatamente como a imagem anterior. E se a defesa achar que eles apenas trocaram de lado, com a execução do conceito “levels” dessa vez no lado direito, vão se surpreender quando “Y” cortar para fora e não estiver correndo uma “In”. A leitura para o QB é a mesma nas duas jogadas.

A melhor arma do mundo nem sempre vai ser aquela que tem o maior poder de destruição. Da mesma forma que a melhor mágica não é aquela que tem mil e um efeitos especiais, mas sim a que é melhor executada. Peyton Manning e seus recebedores dominaram a “Dig” de Tom Moore e suas inúmeras variações. Precisa desesperadamente de um first down? Essa era a jogada escolhida pelo jogador cinco vezes MVP da NFL e que o ajudou a brilhar em campo por toda a sua carreira.

 


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Tiago Araruna acompanha a NFL desde 2006 e é o idealizador do projeto Liga dos 32. Como Editor-Chefe do Portal, está à frente da coluna semanal 32 por 32, toda quinta no ar. Co-apresentador do Podcast Liga dos 32 que vai ao ar às quartas . No twitter: @tiagoararuna