Série Tática – Air Raid Offense

16 de maio de 2016
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Qualquer pessoa que procure compreender o futebol americano além do óbvio precisa estudar a Air Raid Offense em algum momento. Criada por Hal Mumme e Mike Leach, com contribuição considerável de Norm Chow e LaVell Edwards em suas passagens por BYU, podemos considerá-la como um esquema ofensivo que foca no shotgun, em passes curtos, esticando a defesa horizontalmente (mesmo quando a jogada é vertical e explico mais à frente) e usando a formação spread (leia sobre a Spread Offense aqui) – com quatro recebedores alinhados – em sua versão mais recente, já adaptada aos tempos modernos.

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Na Air Raid, o passe é muito utilizado e serve de base para o ataque, inclusive faz-se uso dos passes curtos como verdadeira substituição de algumas chamadas que poderiam ter sido uma corrida do running back. Esse fator, claro, faz com que os quarterbacks – isso aconteceu muito no College – tenham um excelente número de jardas aéreas justamente pela quantidade consideravelmente mais alta de tentativas. Quem leu sobre a West Coast Offense (veja aquideve estar percebendo algumas semelhanças e elas realmente existem, todavia enquanto na Air Raid busca-se criar tráfego de defensores no campo para se beneficiar disso, fazendo com que os recebedores consigam separação, na West Coast Offense a intenção é abrir espaços e não ter muitos defensores próximos do passe, ou seja, não buscam tráfego, mas sim o evitam.

Uma das jogadas mais famosas do livro de jogadas de um ataque baseado no tema desta série tática é a “Mesh”, que iremos analisar aqui e vai ser visível a busca por contato entre defensores para garantir o sucesso de algumas de suas jogadas importantes. A West Coast Offense privilegia o timing entre QB e recebedor, a busca pelo espaço livre no campo e depois a capacidade do atleta de conquistar jardas após a recepção, enquanto a Air Raid explora rotas que impeçam uma boa cobertura homem a homem muito através de cruzamentos entre as mesmas e dá múltiplas opções de rotas aos recebedores no caso de enfrentarem uma marcação em zona.

Boa parte dos times tem uma certa jogada no playbook que pode render diferentes variações, gerando uma possível chamada distinta nas partidas. Por exemplo, se em uma delas o tight end está alinhado à direita da linha ofensiva, é possível usar a mesma jogada variando e colocando o tight end à esquerda da OL, mantendo as mesmas rotas dos recebedores, bloqueios e tudo mais. Acontece que na Air Raid Offense, Hal Mumme e Mike Leach preferiram facilitar a vida do quarterback, priorizando a repetição e treinamento para aumentar a porcentagem dos passes completos. Assim, o ataque era sempre destro nos primeiros anos do esquema, ou seja, o tight end sempre se posicionaria no lado direito da linha ofensiva por acreditarem que isso facilitava – e os números provaram que sim – o passe do quarterback e o deixava mais preciso pelo fato de a jogada não ter variação: se na chamada “x” a rota curl era do tight end no lado direito, jamais ela seria variada para que fosse realizada por esse jogador algum tempo depois, mas pelo lado esquerdo.

Pode parecer um detalhe, mas é um facilitador que foi inspirado no Colts de Johnny Unitas. Quando os técnicos invertem a formação de lado para criar uma variação, é algo que dificulta também para os recebedores que têm que aprender e dominar duas rotas, ainda que seja a mesma sendo feita de lados opostos, pois existem pequenos detalhes para adaptar. O quarterback também teria que treinar o lançamento em determinada jogada dos dois lados. Após a evolução do jogo e o uso de formações spread na Air Raid Offense, boa parte das formações passaram a ser 2×2 (dois recebedores de um lado da OL e dois do outro) e o esquema deixou de ser exclusivamente destro nesse sentido.

meshroute

Partindo para a análise de jogadas de uma forma mais objetiva, começamos com uma das principais da Air Raid, a Mesh Route. Retirada diretamente do playbook de Mike Leach em Texas Tech (figura acima). Resumidamente, são duas rotas “shallow cross” que se cruzam, uma vindo da esquerda e outra da direita (espécie de rub route). Isso faz com que os dois defensores que estão na marcação de cada recebedor se choquem ou tenham que dar a volta um no outro, garantindo a separação de um dos atletas de ataque. É fundamental que os envolvidos nas rotas garantam que não há espaço entre eles quando se cruzam para que nenhum defensor consiga cortar caminho. Por isso, é perfeita contra a marcação homem a homem.

Podemos ver os dois RBs indo para o flat como duas opções em caso de blitz que penetre a linha rapidamente, funcionando como válvulas de escape. Formação com dois backs é cada vez mais raro na NFL com o passar dos anos, então hoje os treinadores costumam retirar um deles e colocar mais um recebedor do lado esquerdo, criando uma 2×2 e fazendo com que esse novo fator corra uma rota longa vertical. É necessário trazer um pouco de contexto histórico nesse momento, tendo em vista que essa chamada foi retirada do livro de jogadas de BYU – citada na introdução como uma das grandes referências – com pequenas mudanças.

A rota do Z era uma “post” e virou uma “corner”, detalhe essencial em termos de leitura porque cria um triângulo de opções para o quarterback com X, F e Z indo para o mesmo ponto do campo e formando a tal figura geométrica. Isso explora a defesa em três níveis: curto, intermediário e em profundidade. No caso, a leitura será da mais próxima para a mais distante pelo fato de a rota curta (shallow cross) ser a mais quente do lance, então, a partir dela o QB procurará a intermediária e, por último, a mais longa.

Veja o vídeo abaixo com a Mesh Route saída diretamente da Air Raid Offense para a NFL. Observe como as “shallow cross” se cruzam pelo meio e dificultam demais para a marcação acompanhar ambos:

y cross2

Outra jogada base da Air Raid Offense é a Y-Cross (figura acima). Notem que essa também é uma formação com dois RBs e é perfeitamente possível usar mais um recebedor e retirar um dos backs. Lá atrás, quando a criação de Mumme e Leach ainda estava ganhando forma, não era tão comum passes muito longos que gerassem muitas jardas nesse sistema e a Y-Cross era uma das poucas que fazia isso.

O recebedor “X” vai em uma rota option, onde ele pode optar por uma “go” ou “post” a depender da forma com que o safety reage à sua movimentação. “Z” corre uma mistura de “post” com “in” e tem duas opções de parar antes caso se depare com uma região livre de cobertura em zona. Já o “H” também serve para combater a cobertura em zona, podendo cortar para a esquerda ou direita e até parar antes do fim da rota caso ache uma área de campo livre. Na longa rota cross o “Y” busca dificultar a vida dos linebackers que tentem marcá-lo e “F” segue no “flat” como válvula de escape. Com uma formação destra (no início da Air Raid) como já foi explicado, os times poderiam tentar se focar mais em se proteger por ali e a Y-Cross é inteligente por atacar o lado oposto, pois note que quatro das cinco rotas podem ir para o lado esquerdo, o weak side. Nesta jogada, as rotas quentes são a do “Y” e “H”, de forma que a opção de fazer a leitura em profundidade ou curta primeiro varia de treinador para treinador.

four verticals2

O terceiro exemplo de jogada frequentemente presente no playbook de ataques que tem como base a Air Raid Offense é a Four Verticals (figura acima). Não uma Four Verticals comum, pois esta é adaptada ao estilo do esquema sob análise. O fato de existir uma jogada de passe bem vertical e longo não contradiz a afirmação de que a intenção da Air Raid é esticar o campo horizontalmente, pois nessa chamada os recebedores correm reto em direção à end zone, no entanto sempre procurando parar no ponto do campo que encontre espaço livre para receber. Somente caso esteja tranquilo conseguir a separação seguindo reto até o fim, os atletas podem fazer a rota “go” como manda o figurino. Fica claro que ela é vertical, mas abre espaços na horizontal ao exigir pelo menos quatro defensores de lateral a lateral em profundidade.

Veja a quantidade de opções que cada rota tem, algo que dá liberdade ao recebedor para pisar no freio tão logo ache um vazio no campo, coisa que pode acontecer na cobertura em zona ou quando derrote a marcação homem a homem na velocidade e ainda exista um free safety mais ao fundo. Basta parar e receber o passe entre um e outro. Outra saída interessante para o quarterback na jogada é a rota do “F”, muito presente em várias chamadas da Air Raid.

Mais um detalhe digno de nota nessa figura é o fato de ela ser a mais evoluída – dentre as três jogadas analisadas – para estar na NFL sem nenhuma adaptação ao que consta na imagem, já que temos quatro recebedores e um running back, o que configura uma formação bem mais utilizada no profissional.

CONCLUSÃO

As criações táticas no futebol americano costumam misturar talento da mente por trás delas, criatividade e necessidade. Basta ler sobre como surgiu cada novo esquema revolucionário e um fator comum a quase todas é a busca por se adaptar ao que o elenco oferece de forma a torná-lo competitivo diante dos times que enfrentará. A Air Raid Offense facilitou a vida dos técnicos do College Football, pois não precisavam de um quarterback extremamente atlético e com um braço muito forte. É um sistema que não exige muitos passes longos, dando ênfase na inteligência e na química entre quarterback e recebedores, bem como na capacidade deles de escolher que momento parar na rota e confiando na mesma interpretação do “signal caller”.

Aqueles que não são fãs do sistema apontam algumas falhas, tais quais não aproveitar o talento dos recebedores  para correr rotas limpas da forma que deveria; proteger demais o quarterback ao tentar oferecer para ele sempre os lançamentos mais fáceis e sem tanto perigo de interceptação; e o fato de não ter uma divisão tão equilibrada entre passes e corridas. Claro que todas essas críticas são questionáveis, mas o papel da Série Tática não é ser um texto opinativo.

É claro que uma filosofia de jogo tão bem elaborada faria sucesso. Mike Leach dominou a NCAA comandando Texas Tech ao implantar por lá a sua criação que ajudou a consagrá-lo no mundo do futebol americano. Pode-se dizer que todos os times da NFL tem um pouco (ou muito) da filosofia Air Raid Offense em seus livros de jogadas e se dão muito bem com ela, em especial por ser um esquema que tem muitas qualidades, dentre as quais a capacidade de evoluir no tempo e se ajustar à necessidade de cada equipe.

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Tiago Araruna acompanha a NFL desde 2006 e é o idealizador do projeto Liga dos 32. Como Editor-Chefe do Portal, está à frente da coluna semanal 32 por 32, toda quinta no ar. Co-apresentador do Podcast Liga dos 32 que vai ao ar às quartas . No twitter: @tiagoararuna