Série Tática – Air Coryell

24 de março de 2017
Tags: serie tatica, tiago araruna,

“Don” Coryell, influenciado pelo grande Sid Gillman, é o dono da mente criativa por trás desse esquema que é conhecido por atacar as defesas verticalmente. Ex-técnico do Chargers, a filosofia do histórico treinador fez sucesso e foi a responsável por colocar a franquia de San Diego no topo da liga em se tratando de jardas aéreas por 6 temporadas consecutivas (1978 a 1983). Dan Fouts, QB da equipe na época, marcou o ano de 1981 quando conseguiu lançar para 4.802 jardas, acima do que ele mesmo já tinha feito em 1980 (4.715). Para efeito de comparação, o segundo maior passador na temporada 1981 alcançou 3.912 jardas. Um abismo de distância realmente assustador que deu à “Air Coryell” muita credibilidade na NFL.

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A base da filosofia de Don Coryell é confiar em uma linha ofensiva de qualidade capaz de proteger o quarterback por tempo suficiente para que ele possa lançar em profundidade, ter um bom tight end que explore as rotas curtas e intermediárias, construir um jogo corrido físico e de contato pelo meio da linha, além de usar um WR alto com a qualidade de ganhar disputas de bola no ar. Outro fator relevante é a movimentação dos recebedores antes do snap acontecer (“motion”), algo que foi desenvolvido pelo próprio Don. Com a criação e implementação dessa técnica, o sistema ofensivo do treinador do Chargers era muito difícil de ser parado, pois o “motion” facilitava a leitura da defesa por parte do QB, permitindo saber se enfrentava marcação em zona ou homem a homem, bem como perceber algumas das intenções dos safeties. E não eram só os wide receivers que trocavam de posição no campo antes do snap, já que running backs e tight ends também eram envolvidos nisso.

Era complicado defender contra tal filosofia não só pelo fato de o quarterback conseguir ler melhor o que está enfrentando, mas também porque tal movimentação demanda ajustes por parte da defesa e tende a confundir os adversários quando em marcação por zona. Se estão em marcação individual, imagine o defensor precisando sair do lado esquerdo para a direita correndo atrás do recebedor antes mesmo da jogada começar e, assim que o atleta de ataque se firma na posição, já vem o snap sem nem dar tempo do cornerback em questão se alinhar direito ou pensar se deve marcar em press (fica colado no WR já na linha de scrimmage) ou off coverage (recua de 3 a 10 jardas da linha de scrimmage), por exemplo.

Dessa forma, é um sistema que não fica preso a um alinhamento muito engessado de seus alvos, tendo em vista que a cada snap o posicionamento deles pode mudar, inclusive com “motions”. Para deixar tudo ainda mais imprevisível, cada recebedor tem duas ou três opções de rotas (“option route”), dentre as quais ele deve escolher uma a depender de como está sendo marcado (entenda melhor a “option route”) e isso exige também que ele esteja na mesma página do quarterback, ou seja, ambos tenham a mesma leitura do lance, caso contrário é bola em uma rota e o companheiro de time correndo outra.

Para compreender bem o esquema ofensivo “Air Coryell”, é preciso que fiquem claras suas principais características e filosofias:

1- A rota que será a primeira opção de passe para o quarterback sempre é uma rota em profundidade.

2- Em toda jogada existirão opções na forma de rotas mais curtas – slant, flat, screen pass etc. – no caso das mais longas estarem bem cobertas ou se o pass rush do oponente estiver prestes a sacar o QB.

3- Ter pelo menos dois recebedores rápidos com características de receber passes longos correndo rotas em profundidade a cada snap. Não necessariamente os mesmos dois todo lance, claro.

4- Um quarterback com presença no pocket, que saiba jogar dentro dele e tenha um braço forte para os passes longos. QB móvel não é o melhor encaixe aqui, a não ser que o time use a “Air Coryell” apenas como base e faça ajustes no desenho das jogadas.

5- Jogo corrido físico pelo meio da linha ofensiva, com a possibilidade de haver um bloqueador liderando os avanços.

6- Uso do tight end, running back e de um terceiro WR em rotas curtas e intermediárias. É possível que um deles corra uma rota curta, outro uma intermediária e o último uma longa. Ou duas curtas e uma intermediária. Ou uma curta e duas intermediárias. São muitas as possibilidades quando se tem 5 potenciais recebedores na jogada. Lembrando que os outros dois WRs no exemplo se destinam a correr as rotas longas.

7- Os passes lançados pelo QB serão baseados no seu timing com os recebedores, pois ele deverá lançar a bola no local previsto para que seu alvo esteja antes de ele realmente chegar lá, ou seja, ele antecipa o passe imaginando o ponto futuro, onde seu companheiro estará quando a bola percorrer sua trajetória. Assim, o atleta irá fazer a recepção em movimento e seguirá correndo sem precisar reduzir a velocidade ou até parar para isso.

Mencionamos que é importante ter recebedores velozes e ágeis para as rotas mais longas, mas também é essencial contar com “wide receivers de posse de bola”, que são aqueles que não são muito rápidos, mas que correm bem as rotas, garantem separação e tem mãos seguras para garantir as primeiras descidas quando a jogada parece estar indo para o buraco. Como o foco é o jogo pelo ar vertical, para que tudo funcione como o planejado é fundamental que a linha ofensiva dê tempo ao quarterback, principalmente porque boa parte das jogadas têm como requisito 5 step ou 7 step drops (5 ou 7 passos para trás pelo QB antes de lançar) e isso demanda mais tempo de proteção. Para todo e qualquer sistema ofensivo é bom contar com uma linha ofensiva de bom nível, todavia para a “Air Coryell” é fundamental.

air coryell

Muito do que foi falado sobre a “Air Coryell” pode ser visto nesta imagem. É uma jogada conhecida em alguns playbooks como “double-post” em virtude das rotas amarela e vermelha serem chamadas de “post” como aprendemos no texto sobre as rotas dos recebedores (link mais abaixo nesse texto). Ambos os wide receivers, externo e slot, do lado direito irão correr a rota “post” e colocar pressão no single high safety – único safety em profundidade – que terá de decidir qual dos dois irá ajudar a cobrir. Veremos no vídeo que ele opta por cuidar do recebedor no slot (rota vermelha), de forma que Joe Flacco lança para Torrey Smith (rota amarela) que entra na end zone.

É bom que fique claro que na “Air Coryell” a primeira opção do quarterback é sempre uma rota longa, então nesse lance especificamente as duas primeiras leituras de Flacco são as rotas “post” (amarela e vermelha). Na eventualidade de ambos estarem bem marcados, a terceira possibilidade seria a rota intermediária, que nesta chamada é a “In” (azul). A quarta e última leitura era o RB no “flat” (rota preta – o outro RB com o traço amarelo no capacete fica para ajudar a bloquear), outra característica conhecida desse esquema ofensivo que é sempre ter alguém com quem contar para o passe curto e de segurança caso não seja possível conectar nem o longo, nem o intermediário. De novo, busca-se primeiro o passe em profundidade, depois o intermediário e, somente na impossibilidade de fazê-los, vem o passe para uma válvula de escape mais próxima do QB. Por sempre procurar as jogadas mais explosivas, é sempre muito divertido assistir ataques que adotam pelo menos partes dessa filosofia em seus playbooks.

Agora veja a mesma jogada da imagem acima em vídeo e perceba todos os detalhes que foram explicados:

Além de ter criado todo um novo esquema de ataque, Don Coryell é o responsável por algumas inovações que aconteceram na NFL. Antes dele, a formação base que reinava na liga profissional envolvia um tight end bloqueador, dois wide receivers e dois running backs. O ex-treinador do Chargers mudou isso e passou a retirar um dos RBs do backfield e substituí-lo por um tight end capaz de receber passes. Indo direto ao ponto, ele é o responsável pela one-back formation (um RB na formação), embora não se possa afirmar que ele criou tal alinhamento por ser impossível cravar com certeza que ninguém – nem os treinadores das escolas – usou antes. Mas certamente foi ele quem passou a implementá-la a nível profissional, modificando a tendência de usar dois backs na época.

“A NFL hoje é uma liga ‘pass happy’ que adora lançar a bola” – você já deve ter lido ou ouvido isso em algum lugar. Coryell tem ligação direta com esse fato. Não que tenha sido o primeiro a explorar passes longos e muito menos a usar o jogo aéreo, porém foi pioneiro em passar a bola mais do que correr em uma década em que isso era considerado um absurdo. Um absurdo até fazer sucesso. Dentre outros avanços feitos pelo lendário treinador estão ainda o tight end como um verdadeiro wide receiver (capaz de correr rotas antes “exclusivas” dos WRs), as “option routes”, “motions” e, mais importante, a árvore das rotas. Olha quanta coisa esse cara criou!

Sobre a árvore das rotas (saiba mais dela aqui), foi extremamente útil para facilitar a chamada das jogadas ofensivas. O nome de cada chamada na West Coast Offense de Bill Walsh era gigante e o QB praticamente recitava um poema para que ela pudesse ser captada e executada pelos seus companheiros de equipe. Com a árvore e suas rotas numeradas, na “Air Coryell” bastavam três números para que cada recebedor soubesse que rota correr, sempre do atleta da esquerda para a direita. Por exemplo, se a chamada começa com 739, o wide receiver da esquerda percorrerá a “7”, o slot vai com a “3” e o da ponta direita terá de correr a “9”. Simplificou e facilitou demais essa ideia de Don Coryell.

É notável a competência da “Air Coryell” em fazer com que a defesa do oponente tenha que se preocupar com quatro aspectos a cada snap: passe longo, passe curto/intermediário, jogo corrido e distribuição horizontal e vertical dos defensores. O sistema também sabe aproveitar o talento dos seus jogadores mais habilidosos ao máximo, fazendo muito bom uso dos playmakers. No entanto, o referido esquema ofensivo terá dificuldades contra defesas que conseguem cobrir bem o passe vertical e contam com ótima secundária – como a do Seahawks atualmente – por ser focado no passe longo. Mesmo que tenha outras saídas com o jogo corrido e as rotas curtas e intermediárias, se lhe é retirada a sua principal característica, o ataque sofrerá um pouco.

Claramente a “Air Coryell” continua existindo na NFL por meio de treinadores e coordenadores que foram influenciados pelo sistema, como Tom Moore, Norv Turner, Al Saunders e Jason Garrett.

Matéria publicada originalmente em 30 de maio de 2016.

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Tiago Araruna acompanha a NFL desde 2006 e é o idealizador do projeto Liga dos 32. Como Editor-Chefe do Portal, está à frente da coluna semanal 32 por 32, toda quinta no ar. Co-apresentador do Podcast Liga dos 32 que vai ao ar às quartas . No twitter: @tiagoararuna