terça-feira, 17 de janeiro de 2017

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O futebol americano é um esporte apaixonante. Se você é um dos que acessa a Liga dos 32 de forma frequente, você provavelmente já tinha noção disso por algum tempo. Por trás de toda pancadaria que parece ser o esporte a primeira vista, vemos uma complexa estratégia por trás, um jogo que se aproxima muito mais do xadrez do que qualquer arte marcial, por exemplo. Como não é fácil perceber isso assistindo pela primeira vez, requer uma certa insistência para você convencer aqueles seus amigos de infância de que o futebol americano, o football, é algo que vale a pena acompanhar regularmente.

E por muito tempo essa insistência não teve retorno.

Meu primeiro contato com o futebol americano foi em 2005, num Rose Bowl épico entre Texas e USC. Obviamente, não entendi nada na época e acabei não dando outra chance pro futebol americano — por mais que não tenha sido um jogo da NFL. Passaram-se anos até que um amigo me convenceu a prestar atenção com calma no esporte. Foi em 2009 que eu resolvi dar essa chance, e não me arrependi.

Fascinado pelo esporte, pelos jogos dramáticos e por todos os elementos que envolvem uma partida, eu queria compartilhar esse sentimento com o maior número possível de pessoas. Afinal, como que uma liga com jogos tão competitivos, com jogadas que te deixam de queixo caído pode ser tão menosprezada por todos por aqui?

Por mais que eu, mesmo já tendo escolhido um time para torcer, tivesse antipatia com alguns times da liga, seja por rivalidade com meu time ou por apenas “não ir com a cara”, jamais trataria um torcedor desses times como rival. O núcleo de pessoas que acompanhava o esporte era pequeno, o número de jogos transmitidos no Brasil também era reduzido e o conteúdo em português era mínimo. O fã da NFL aqui no Brasil precisava se unir em prol do esporte, independente de ter torcedores de times rivais ou não. A meta era uma só: compartilhar a paixão pelo esporte e fazê-lo crescer no Brasil.

Felizmente, isso acabou dando certo nessa década.

A audiência aumentou e levou a um aumento no número de jogos, que acabou aumentando mais a audiência e fazendo outra emissora comprar os direitos de transmitir os jogos. O boom da NFL havia acontecido e pela primeira vez se viu um número relativamente alto de fãs do futebol americano no Brasil. Não há pesquisas que indiquem isso, mas acredito que o futebol americano tenha sido o esporte que mais aumentou de forma proporcional no Brasil nessa década — com exceção do MMA e o UFC.

Esse aumento espantoso foi ótimo. Hoje você já encontra pessoas aleatórias na rua usando vestimentas de times da NFL — e sabendo do que a camisa se trata, e não apenas bonés do Oakland Raiders, ou como o Antony Curti sempre adora mencionar, você já consegue encontrar um número suficiente de pessoas para jogar o fantasy. Isso é ótimo. Isso faz a NFL olhar com carinho para o Brasil, ter uma inclinação para promover campanhas e outras exclusividades no país, como já vimos ser feito em 2016 e já em 2017.

Mas há um detalhe importante nessa popularidade que não agrada.

O brasileiro nasce e cresce assistindo o futebol da bola redonda. Todos tem um time para torcer e uma boa parte já foi (ou ainda é) bastante aficionado por ele. A obsessão pelo time do coração acaba trazendo consigo um desprezo pelos times rivais, uma vontade de torcer para que seu time se imponha diante dos rivais para, é claro, tirar uma onda com aquele seu amigo que não veste as mesmas cores que você. Essa vontade de sacanear os rivais, no entanto, acaba nos levando para debates nada saudáveis e uma enxurrada de comentários completamente desnecessários.

Não se preocupe, eu já fui um desses. Já chorei e já sorri pelo meu time de futebol. Já quis entrar em discussões com torcedores rivais e terminei em xingamentos nada agradáveis. Acho que esse tipo de coisa está na essência da nossa torcida.

Só que o futebol americano não se encaixa exatamente isso.

Não me leve a mal. Rivalidades são boas, desde que saudáveis e, principalmente, com respeito mútuo. Ela te incentiva a torcer com mais emoção quando o jogo é contra aquele time que você detesta, incentiva os jogadores que estão em campo e vários outros fatores. Mas esse tipo de rivalidade não se encaixa com a que vemos no futebol da bola redonda hoje.

A NFL não é palco de torcidas organizadas. Quem já teve o privilégio de ir a um jogo por lá sabe que o clima é familiar e a rivalidade é totalmente sadia. Torcedores dos dois times sentam um ao lado do outro, já que não há essa coisa de divisão de torcida por lá, e convivem muito bem durante o jogo. Não faz parte do futebol americano a rivalidade agressiva e prejudicial que vemos por aqui.

Se você abrir qualquer fórum de dicussão do campeonato brasileiro, você vai ver mais e mais comentários com apenas um “chupa” ou “chora mais”. Sério, não traga isso ao futebol americano.

A NFL ainda está crescendo no Brasil e tudo que menos precisamos é de discussões rasas como essas. Não importa se seu melhor amigo está torcendo pro time que você mais detesta e que ele seja um completo de um mala, o foco deve ser o mesmo de anos atrás: compartilhar a paixão pelo esporte. Não cabe trazer ao futebol americano esse tipo de coisa. Não cabe trazer para os fãs da NFL o mesmo papo furado de que “o time A é ladrão e compra a arbitragem” e derivados. Discussões baseadas em xingamentos e ofensas vazias só fomentam a divisão entre fãs do esporte, e isso é completamente prejudicial para o crescimento do esporte no país.

Não, não é “só uma zoeira pra ser levada na brincadeira”. Você sabe que não é isso.

Você pode estar ganhando os debates de zoeira na internet, mas lá no fundo há um grande perdedor: a NFL.

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