Os jogadores estão certos em pularem os bowls

22 de dezembro de 2016
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O grande assunto da mídia esportiva norte-americana nessa semana foi a decisão do RB Christian McCaffrey (Stanford), RB Leonard Fournette (LSU) e RB Shock Linwood (Baylor) de não jogarem seus bowls, os famosos jogos de final de temporada da NCAA (o campeonato universitário norte-americano), para focar na preparação para o Draft da NFL. Como não poderia deixar de ser, essas decisões causaram polêmica e todo mundo opinou sobre o que acha ou não desses casos. Não será diferente aqui, na coluna dessa semana.

No caso do McCaffrey e do Fournette, não vejo nada de errado nessa decisão que eles tomaram. O desempenho deles, que jogam em universidades de conferências tarimbadas, repetidamente mostrou para os olheiros da NFL que ambos têm calibre para jogar em alto nível na liga e a participação deles no Buffalo Wild Wings Citrus Bowl ou no Hyundai Sun Bowl não mudaria nada na avaliação pro Draft. A grande verdade é que se jogassem, a chance maior é de saírem prejudicados do que qualquer outra coisa. Quem não se lembra da história de horror que aconteceu com o LB Jaylon Smith (DAL) no Fiesta Bowl da última temporada, que estourou o joelho e quase viu suas chances de jogar na NFL indo para o espaço. A questão do Linwood é mais complexa porque ele ainda é um jogador que os olheiros da NFL gostariam de ver mais e sua participação no Cactus Bowl contra Boise State poderia agregar valor às suas chances no Draft.

christian-mccaffrey

Nick Saban, vitorioso técnico de Alabama, disse nessa semana que respeita e entende as decisões desses jogadores de não jogarem nesses bowls de menor importância. Ele também levantou um ponto interessante: disse que a criação do College Football Playoff fez com que os bowls perdessem importância. É natural os times acharem que não terminar no Top 4 e garantir classificação para os playoffs torna a temporada uma decepção. Saban está certo e isso não é ruim. Todos sabemos que a maioria dos bowls não passam de uma forma das emissoras (principalmente a ESPN norte-americana, que inclusive organiza alguns desses jogos) e dos patrocinadores ganharem dinheiro fácil através de audiência televisiva. Dificilmente essas partidas têm um bom nível técnico (há tantos bowls que cada vez mais times com mais derrotas do que vitórias são convidados para preencher todas as vagas), muitas vezes os estádios são vazios pelas distâncias geográficas das universidades e da localização dos bowls e vale mais para os jogadores pelas festas e benesses que eles recebem do que o jogo em si. Junte-se a isso a tendência do aumento de número de vagas nos playoffs de quatro para oito nessa próxima década e o futuro não é muito promissor para esses bowls menores.

Quem critica os jogadores por não participarem dos bowls normalmente vêm com argumentos de apelo à emoção, uma das falácias mais comuns em qualquer discussão: que eles estão sendo ingratos pelo investimento que as universidades fizeram neles ou que vão sentir falta quando estiverem na NFL. O RB Ezekiel Elliott (DAL) foi um dos críticos mais ferozes e disse no Twitter que trocaria tudo para jogar mais uma partida por Ohio State, o que é uma hipocrisia absurda já que ele foi para a NFL com um ano de elegibilidade restante na NCAA. Os jogadores universitários não devem nada a ninguém, principalmente às universidades que fazem lucros absurdos em cima do trabalho grátis deles. Sim, as universidades bancam seus estudos através de bolsas de estudo e isso é uma vantagem absurda em relação ao universitário médio norte-americano, que faz dívidas incríveis para ter acesso ao ensino superior. Mesmo assim, isso não justifica deixar esses jogadores sem amparo nenhum e exigindo deles uma dedicação praticamente profissional nas aulas e nos treinos.

leonardfournette

Vou fazer uma conta rápida: um ano de ensino em Penn State custa cerca de 45 mil dólares, ou seja, o custo anual que a universidade tem com os jogadores com bolsa (80, no máximo, pelas regras da NCAA) é por volta de 3,6 milhões de dólares. Só em 2016, a Big Ten (conferência que Penn State faz parte) pagou 32,5 milhões de dólares para seus membros por conta de direitos televisivos. Essa história se repete nas outras universidades e conferências da primeira divisão, a fatia do bolo dedicada aos jogadores poderia ser maior sem efetivamente prejudicar as instituições. Isso que eu não entrei nos outros lucros que a universidade recebe como contratos de materiais esportivos, premiação dos bowls e patrocínios diversos. Não acho que esses jogadores deveriam ser assalariados, mas claramente dá pra ver que há algo de errado em como a NCAA e as universidades tratam eles.

Por conta disso, não vejo como julgar o McCaffrey ou o Fournette por decidirem focar no Draft da NFL. Como vou apontar na cara deles e falar que estão pisando em cima da universidade enquanto que ela fatura milhões nas suas costas? Estão mais do que certos em pular esses bowls para garantir que serão pagos pelo fruto do seu trabalho na liga profissional. O sistema da NCAA é fundamentalmente desonesto e até ele ser consertado a razão é toda dos jogadores em virar as costas para suas universidades nesses jogos sem importância.

O que você achou da coluna dessa semana? Tem alguma opinião sobre o assunto ou como a NCAA trata os jogadores? Deixe um comentário aqui ou venha falar comigo no Twitter lá no @oQuarterback! Também fique por dentro por tudo o que rola na NFL e na NCAA lendo aqui o Liga dos 32 e acompanhando o site no Twitter e no Facebook! Ah, Feliz Natal a todos! 🙂

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Felipe Laurence é administrador do oQuarterback desde 2011 e colunista da Liga dos 32. Advogado de profissão, assiste NFL desde 2000 e tem como maior hobby a difusão do futebol americano pelo Brasil. No Twitter: @oQuarterback.