quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

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O jogo de futebol americano está em constante transformação. De uns anos pra cá, o domínio do jogo aéreo é cada vez mais evidente, a necessidade por quarterbacks cresce e os wide receivers são também muito procurados. Com isso, uma posição pareceu muito ameaçada de ficar sem grandes estrelas: a de running back. Além da mudança na estratégia ofensiva padrão, a durabilidade dos “carregadores de piano” ofensivos é das menores da NFL devido à quantidade de pancadas que sofrem.

Nos anos 90, nenhum draft teve menos do que dois running backs selecionados na primeira rodada e houve um máximo de seis. Uma década antes, era raro haver menos do que três, com 1987 e 1982 vendo sete atletas da posição saindo logo de cara. Essa média foi diminuindo cada vez mais até que aquilo que um dia era inimaginável aconteceu de forma consecutiva em 2013 e 2014 – nenhum back entre as trinta e duas escolhas iniciais.

Desde 2011, a média é de 1,14 running backs selecionados na primeira rodada por draft. Mas o sucesso da classe de 2017 é absurdo, com diversas estrelas aparecendo. Assim, @AdilioBat pergunta: essa safra é superior às anteriores? A performance de atletas como Leonard Fournette, Alvin Kamara, Christian McCaffrey e Kareem Hunt pode levar à recuperação do prestígio da posição? Esse é o questionamento escolhido para a coluna dessa semana. Se você quiser ver o seu debatido aqui na próxima quinta-feira, envie-o no Twitter para @massaricarlos!

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É fácil ver o que a mudança de postura dos ataques significou para os running backs, mas é um fato também que eles pararam de performar como o esperado ao saírem do College. Na década de 90, apenas duas vezes o prêmio de calouro ofensivo do ano foi vencido por atletas de outras posições. Recentemente, houve um grande hiato entre 2007 (Adrian Peterson) e 2013 (Eddie Lacy) dominado por quarterbacks e wide receivers. Todd Gurley também foi o ganhador de 2015, o que já indicava talvez uma pequena volta ao sucesso dos backs.

Mas nada se compara ao que acontece em 2017. Kareem Hunt e Alvin Kamara, ambos escolhidos na terceira rodada, estão no top 10 em jardas de scrimmage, com os dois nomes que saíram no round inicial, Leonard Fournette e Christian McCaffrey, não estando muito longe disso. Todos os quatro trouxeram novas dimensões a ataques de equipes que estarão nos playoffs.

O que acontece é uma mudança de postura nos jogadores da posição e mais uma adaptação natural à evolução do jogo. Olhe para os running backs mais dominantes dos últimos dez anos – Marshawn Lynch, Adrian Peterson, Chris Johnson, etc. Todos eles tem grandes dons como corredores, seja pela força, paciência ou velocidade, e por isso se destacaram tanto. Também poderiam ser grandes bloqueadores ou recebedores competentes de screens ou outros passes curtos. Mas nenhum é uma real ameaça em profundidade, capaz de sair do backfield e causar um pesadelo em linebackers e safeties.

Assim, tirando as grandes estrelas, como os três citados, os running backs foram se tornando descartáveis. Era uma posição que se encontrava aos montes no draft, podendo ser escolhidos na terceira ou quarta rodadas, jogar dois ou três anos de maneira decente, tomar uma quantidade surreal de pancadas por carregarem o piano do ataque e então serem substituídos.

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Ryan Williams, Shane Vereen, Mikel Leshoure, Daniel Thomas, Isaiah Peed, LaMichael James, Giovanni Bernard, Le’Veon Bell, Montee Ball, Eddie Lacy, Christine Michael. O que todos esses nomes tem em comum? Foram selecionados na segunda rodada dos drafts de 2011 a 2013. Deles, um se tornou uma estrela (Bell), outros ainda estão na liga como backups, a esmagadora maioria teve uma ou duas temporadas ganhando muitas carregadas e depois desapareceram. Quer ir para a primeira rodada? CJ Spiller, Ryan Matthews, Jahvid Best, Mark Ingram, Trent Richardson, Doug Martin, David Wilson.

Spiller e Richardson foram grandes busts. Wilson e Best se lesionaram gravemente e encerraram a carreira em dois anos. Matthews nunca conseguiu explodir e sempre foi uma espécie de reserva por onde passou. Martin teve excelentes temporadas, mas seu físico não aguenta mais. Ficamos só com Ingram como exemplo de sucesso. Por que investir escolhas altas em uma posição com um índice tão alto de busts? O caminho natural foi que as franquias se afastassem de buscar estrelas e se contentassem com carregadores de piano que seriam encontrados mais tarde no recrutamento.

Mas o que mudou desde então? Simples: a posição se reinventou. Para ser uma estrela como running back, não bastava mais ser um corredor voraz, mas também trazer coisas diferentes. E isso vem na capacidade de ser uma ameaça real no jogo aéreo. Percorrer boas rotas, ter mãos confiáveis, atuar não só no backfield, mas por todo o campo.

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Duas das quatro estrelas da classe de 2017 tem mais jardas recebidas que corridas: Kamara (742 aéreas, 684 terrestres) e McCaffrey (611 aéreas, 421 terrestres). Hunt também aparece com mais de 400 jardas recebidas. Só Fournette, com 235, que destoa dessa característica. Mas vocês lembram quando falamos de Lynch, Peterson e Johnson? Em todas as suas carreiras, nenhum deles chegou a ter 600 jardas recebidas em uma temporada – coisa que os atletas de Saints e Panthers já fazem como calouros.

Isso não se aplica só aos calouros. Todd Gurley, candidato a MVP, tem 788 jardas recebidas. Le’Veon Bell tem 655. Todos esses números eram muito incomuns para running backs de alguns anos atrás, mas para sobreviver ao ostracismo e voltar à evidência na NFL, essa reinvenção foi necessária.

A classe de 2017 não é especial, ela faz parte de um processo de evolução da posição. É fundamental para os running backs agora serem bons recebendo passes e eles aprendem isso desde cedo, treinam e se desenvolvem. Performances como as de Kamara, McCaffrey e Hunt, porém, resgatam sim o prestígio da posição, já que eles mostram que essa nova geração vem preparada para mudar o funcionamento de como os backs se portam dentro de campo.

A Big Board do draft de 2018 da CBS Sports traz quatro running backs entre os 32 melhores jogadores disponíveis. Muita coisa ainda vai mudar, mas se eles todos forem de fato selecionados na primeira rodada, será o maior número desde 2008. Deles, Saquon Barkley é o único com números relevantes como recebedor, com quase 600 jardas no quesito – e esse é um dos motivos pelos quais deve sair no top 10. Dos outros três, Derrius Guice tem uma situação péssima de quarterbacks em LSU, Ronald Jones é muito elogiado por suas mãos e possibiildades pelo ar e só Bryce Love é visto como uma real incógnita no quesito. Eles precisarão provar no processo pré-recrutamento que são competentes fora do backfield para manterem seus posicionamentos.

Essa mudança constante é uma das coisas mais interessantes do futebol americano e a necessidade de uma posição que outrora dominou sistemas ofensivos e premiações se reinventar é a prova de que nada é seguro. A classe de 2017 dos running backs, como já dito, não é especial, mas mostra que esse processo de transformação atingiu a perfeição. Pelo menos temporariamente.

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