quinta-feira, 25 de Janeiro de 2018

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A NFL é como o nosso planeta. Está sempre em movimento. Muitas das grandes alterações que acontece na liga profissional, sejam elas táticas, de estilo de jogo ou mesmo no protótipo de jogador ideal para cada posição de ataque ou defesas vem do futebol americano universitário. No College Football, existe uma liberdade maior e quase que uma obrigação no sentido de ser criativo e buscar coisas novas porque o terreno é muito fértil para tal.

Por muitos anos, o futebol americano foi um esporte quase que totalmente voltado para o jogo nas trincheiras, envolvendo corridas, bloqueios e tackles. Não era qualquer um que aguentava fisicamente esse formato que dominou os campos e os times da NFL por bastante tempo. A alma do futebol americano provavelmente sempre estará residindo em um grande bloqueio para uma corrida bem desenhada. O passe veio depois e só acabou se tornando uma prioridade para os ataques bem mais para frente.

A questão é que depois que algo ou alguém muda, é impossível voltar a ser como era antes. Pelo menos não totalmente. E no caso do futebol americano, ele não quer retroceder na sua evolução natural impulsionada por grandes mentes ofensivas e defensivas ao longo dos tempos. Dentre as inúmeras coisas que foram sendo adequadas à atual versão moderna do esporte, a posição de running back foi uma das mais afetadas. É muito claro que os RBs perderam valor no Draft. Não que um RB não possa ser draftado no top 5 geral, mas isso é bem menos frequente do que já foi. Além disso, costuma ser possível encontrar corredores em rodadas mais baixas, com a versatilidade desejada para correr, receber e bloquear. Então, para que gastar uma escolha tão alta?

Mas não é o Draft que vamos discutir, nem se vale a pena selecionar um RB com uma escolha tão alta. O centro da questão é a mudança no perfil do running back moderno e como eles ganharam valor sobre aqueles jogadores mais “old school” que corriam muito bem e “só”.

Le’Veon Bell, David Johnson e Todd Gurley. Percebem algo em comum entre eles? E que tal Christian McCaffrey e Alvin Kamara buscando entrar nesse grupo? São Running Backs que correm e recebem muito bem, ou seja, uma dupla ameaça para a defesa a cada snap. Correr, receber e bloquear para o passe – alguns deles ainda estão trabalhando esse último aspecto – são os fatores mais buscados em um só running back hoje. Ter essas três habilidades significa possibilitar ao técnico a sua manutenção em campo por quantos snaps seguidos forem necessários. Isso porque, em situação óbvia de passe, um RB que não bloqueia bem nem sabe receber é completamente inútil e precisa ser substituído. Aliás, Todd Gurley entrou de vez para esse grupo nessa temporada quando, definitivamente, se transformou também em uma arma aérea nas mãos de Sean McVay.

O grande segredo do futebol americano são os duelos favoráveis. Enquanto a defesa procura evitá-los a todo custo, o ataque está sempre buscando encontrá-los. Running backs que sabem bloquear e receber são a grande arma de um time para conseguir explorar tais duelos favoráveis que são mais facilmente encontrados por meio do uso “incomum” dos RBs como, por exemplo, abertos como um wide receiver típico e enfrentando um linebacker mais lento em campo aberto. Ou, caso o time adversário use um cornerback para cobrir o RB, ele acabou de abrir um espaço no meio do campo para uma corrida ou passe rápido. Não há limites para explorar um bom running back completo, desde motions, alinhamentos incomuns ou até mesmo com rotas saindo do backfield. Não somente rotas básicas para RBs como a angle route ou a flat, mas rotas que antigamente só os wide receivers conseguiam executar com qualidade.

Um RB que tem como única qualidade o fato de correr bem facilita o posicionamento da defesa e até mesmo torna a jogada mais previsível. Em tempos onde 64% das jogadas da NFL são passes, a filosofia “corra e pare a corrida” está bastante ultrapassada.

Um jogador como Adrian Peterson hoje no seu auge é justamente o modelo antigo de running backs. Não sabe bloquear e não é bom recebendo a bola, de forma que ele é muito prejudicial quando a jogada é de passe – as óbvias de passe então, faziam dele um cone. Quando está em campo, o ataque tem que se ajustar a ele e, pior, sempre que o time estava correndo atrás do placar usando “no huddle” para tentar empatar ou virar às pressas, Peterson não iria ajudar em nada. Justamente nas situações mais críticas do jogo ele ia para o banco! Shaun Alexander é outro exemplo. Ter um running back desse tipo como destaque de um ataque é pedir para vê-lo inutilizado no banco em algum momento decisivo de um jogo de playoffs da vida.

A NFL mudou. O valor de algumas posições também sofreu com isso. No caso da posição de running back especificamente, o modelo moderno que corre, bloqueia e recebe chegou para ficar. Serão cada vez mais importantes e utilizados como peças fundamentais nas jogadas aéreas, servindo para que as mentes ofensivas usem e abusem deles para encontrar duelos favoráveis para os próprios RBs ou para seus companheiros.

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  • Airis Proêza Souza

    Perfeita explanação!!!
    Kareem Hunt e Christian McCaffrey só faltou dar de mão na defesa dos Patriots.

    E por isso, que em cima desse assunto eu coloco outra posição a ser discutida. Vcs não acham que os OLB pesados e lentos também não terão sua carreira ameaçadas?
    O protótipo de OLB daqui pra frente não seriam os 2 do Jacksonville Jaguars (Telvin Smith e Myles Jack)?

  • Tiago Araruna

    Smith e Jack são linebackers e não Edges. É importante essa diferenciação porque OLB é o termo mais usado para pass rushers em 3-4.