O nível da NFL está realmente caindo?

27 de outubro de 2016
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A resposta simples para essa questão é: não, o nível da NFL não está caindo. Pelo menos não no significado bruto da palavra. É inegável que nessa temporada estamos sendo sujeitos à uma miríade de jogos absolutamente terríveis (principalmente em horário nobre), mas se fizermos uma análise estatística da liga nessas primeiras sete semanas você não encontra nenhuma discrepância em relação às últimas temporadas. O número de pontos por jogo se mantém por volta de 22, punts por volta de 4,6 por jogo, passes completos na casa de 63% no ano e turnovers em pouco menos de 12% (todos dados que podem ser conferidos por vocês no Pro Football Reference). Ou seja, apesar de toda a conversa que o nível da NFL está caindo isso não está sendo refletido nos números.

Então, a questão não é mais se o nível da NFL está caindo e passa a ser porque nós achamos que o nível da NFL está caindo. Seria um drama desnecessário criado por parte da mídia e que vem sendo replicado pelos torcedores ou o problema vai além dessa análise estatística? Eu acredito que a resposta seja a segunda opção e vou tentar provar isso para vocês na coluna dessa semana.

O que eu vejo que está acontecendo na NFL é um problema de percepção por parte daqueles que acompanham a liga, como a soma de vários fatores não-estatísticos passam a mensagem que algo está errado com a liga e interpretamos isso como um nível cada vez pior dos jogos e da NFL como um todo. Esse problema de como nós enxergamos a liga pode ser dividido em três eixos: midiático, organizacional e competitivo.

Uma das principais histórias nessa primeira metade da temporada vem sendo o declínio das audiências dos jogos lá nos Estados Unidos. A queda é especialmente assustadora nos jogos de horário nobre, o Monday Night Football, por exemplo, teve queda de 24% se comparado ao mesmo período de 2015. A grande verdade é que a queda de audiência não é um fenômeno restrito à NFL, na Inglaterra a audiência da Premier League caiu quase 5% nesse início de temporada. Essa queda faz parte de um fenômeno muito mais profundo na nossa sociedade: as pessoas estão parando de ver televisão. O fato de ter nas mãos, no seu smartphone, a possibilidade de ver os melhores momentos da partida faz com que o ato de ficar parado assistindo um jogo inteiro se torne obsoleto para os torcedores menos fanáticos.

No entanto, esse problema de queda de audiência toma contornos adicionais na NFL. Mark Cuban, dono do Dallas Mavericks da NBA e magnata das comunicações nos EUA, criticou a NFL em 2014 dizendo que estão “diluindo” muito seu produto e isso vai começar a afastar os torcedores. Na época, todo mundo achou que ele estava viajando, que era “inveja” do sucesso da NFL. Hoje, parece que ele tem certa razão. A NFL espalhou demais seus jogos: tem jogo na quinta-feira, no sábado (lá em dezembro), na manhã de domingo (quando em Londres), na tarde de domingo, no domingo à noite e na segunda-feira à noite. Assistir um jogo de futebol americano não é fácil, a partida é longa e tem vários nuances que dependem de uma atenção especial de consome isso. O fato da liga espalhar tantos seus jogos cria um esgotamento natural já que o telespectador vai começar a mensurar quando ligar a televisão pra assistir ao jogo.

Outros fatores também influem nessa questão das audiências: os responsáveis por montar a tabela pisaram feio na bola na escolha dos jogos de horário nobre nesse início de temporada e também por estarmos entrando no clímax da eleição presidencial mais maluca na história moderna dos Estados Unidos.

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O segundo eixo é o organizacional, de como a liderança da NFL está lidando com seus problemas internos e suas prioridades. Não vou me alongar nesse ponto porque o Gabriel Plat escreveu uma coluna sensacional nessa última terça-feira explicando como a NFL não merece o sucesso que tem. Eu concordo plenamente com ele e acredito que os desmandos de Roger Goodell para tornar a liga cada vez mais puritana dentro de campo e ao mesmo tempo virando o rosto para o que acontece fora dos campos é um dos fatores que influem na nossa percepção da liga como um todo. Sem dúvida nenhuma fica feio a liga dar mais importância para punições de comemorações pós-touchdown do que em casos de violência doméstica.

Por fim, o ponto final a ser analisado é o competitivo e aqui sim entramos em uma área que dá pra dizer que o nível da NFL está caindo. Desde 2011, com o novo acordo trabalhista entre a liga e os jogadores, houve uma diminuição drástica da quantidade de treinos de um time e o que as equipes podem fazer nesses treinamentos. Os jogadores viram isso como uma vitória, mas claramente dá pra ver que isso está tendo efeitos devastadores. Com cada vez menos tempo para aprender os fundamentos do jogo, os jogadores estão entrando em campo crus e com técnica sem apuração. Você pode se perguntar: não é trabalho da NCAA formar os jogadores? Não, não é. A NCAA não é uma liga de desenvolvimento da NFL e tem como objetivo ganhar dinheiro ao participar dos vários bowls que existem, para isso implementam sistemas de fácil aprendizagem para seus jogadores de forma com que isso não afete a qualidade dos times universitários.

O jogador já chega defasado na NFL e a pouca quantidade/baixa qualidade dos treinos que eles recebem por conta do acordo trabalhista faz pouco para melhorar essa situação. A consequência disso tudo é clara: aumentam os números de penalidades por falta de apuração de técnica (por exemplo, há um aumento expressivo nas faltas de holding nessa temporada), o que faz com que os jogos se tornem cada vez mais maçantes e arrastados. Essa falta de técnica fica evidente em jogadores de linha ofensiva e da secundária, que dependem muito dessa lapidação via treino e cujas ineficiências não entram nas estatísticas que eu citei no primeiro parágrafo. Claro, como disse na coluna da semana passada, a arbitragem da NFL tem vários problemas, mas o fato de jogadores entrarem cada vez mais crus em campo também contribuí para esses problemas da nossa percepção da NFL.

Em síntese: estatisticamente, o nível dos jogos da NFL não está caindo, mas há um esgotamento forte causado pelos fatores elencados que fazem com que enxerguemos a liga com um olhar bem mais crítico. O fato de ter jogos de horário nobre (em sua maioria ruins) espalhados por vários dias da semana causa um esgotamento no telespectador, como a liga trata casos de jogo em detrimento de casos de violência doméstica cria uma aura negativa sobre a NFL que afasta os torcedores e o aumento de jogos arrastados por conta da união de jogadores de técnica deficitária com arbitragem de baixo nível faz com que tenhamos essa impressão de um nível cada vez mais baixo na liga.

Aí você me pergunta: como resolver todos esses problemas de uma vez só? Não faço ideia.

O que você achou da coluna dessa semana? Você tem alguma outra crítica a fazer ou tem sugestão de como melhorar essa situação? Deixe um comentário aqui ou venha falar comigo no Twitter lá no @oQuarterback! Também fique por dentro por tudo o que rola na NFL e na NCAA lendo aqui o Liga dos 32 e acompanhando o site no Twitter e no Facebook!

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Felipe Laurence é administrador do oQuarterback desde 2011 e colunista da Liga dos 32. Advogado de profissão, assiste NFL desde 2000 e tem como maior hobby a difusão do futebol americano pelo Brasil. No Twitter: @oQuarterback.