O jogador que precisa escolher entre a maconha medicinal e sua carreira na NFL

5 de dezembro de 2016
Tags: Arthur Murta, bills, matérias,

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Todos nós conhecemos casos de jogadores que colocaram sua carreira em risco por causa da dependência química. De Lawrence Taylor ao Le’Veon Bell, passando por Michael Irvin, Ricky Williams, Josh Gordon, Johnny Manziel e muitos outros com diferentes níveis de sucesso como profissionais. Concordo com o argumento de que eles conheciam as regras e eles concordaram em seguir essas diretrizes assim que assinaram seus contratos, muito bem pagos por sinal. Mas e quando essas regras da NFL impedem que um jogador tenha acesso ao tratamento recomendado pelos seus médicos? Esse é o caso de Seantrel Henderson, OT de 24 anos do Buffalo Bills.

No ano passado Henderson foi diagnosticado com Doença de Crohn, uma inflamação crônica no aparelho digestivo, que resulta no estreitamento do intestino, podendo impedir a passagem de comida e causar até mesmo o óbito. Os sintomas recorrentes são: cólicas, náuseas, diarreia, hemorragia, perda de apetite e consequentemente a perda de peso. O caso do atleta era bem grave e ele precisou passar por duas cirurgias onde retirou mais de 80 centimetros de partes prejudicadas do seu intestino. Em uma recuperação extremamente devastadora o jogador precisou de alimentação intravenosa e não pôde utilizar o banheiro por meses – andava com uma bolsa de colostomia retirando os dejetos diretamente do seu sistema digestivo. O atleta perdeu quase 25 quilos durante o processo e o efeito emocional pode ter sido ainda mais sentido.

No relato de Henderson: “Eu estava deprimido, estava para baixo, sem autoconfiança … eu tinha aquela bolsa e não pude usar o banheiro por três ou quatro meses. Eu não podia fazer nada do que gostaria, perdi todo aquele peso, estava sem saúde. Não tinha o apetite que costumava ter, então minha cabeça não estava mesmo no lugar. Depois da minha segunda cirurgia eu voltei a me exercitar e as coisas começaram a melhorar para mim.”

O tratamento é dado principalmente por meio de anti-inflamatórios que buscam controlar a expansão das paredes intestinais. O problema é que cada paciente tem uma reação diferente a cada remédio e esses anti-inflamatórios geralmente trazem uma série de efeitos colaterais. Além disso esses medicamentos só podem ser utilizados por um período limitado, já que o nosso corpo desenvolve tolerância muito rapidamente a eles e logo seria preciso aumentar as doses (e os efeitos colaterais) para conseguir os mesmo resultados do início do tratamento.

Foi aí que os médicos que tratavam Henderson recomendaram o uso de maconha (cannabis sativa) no tratamento da sua condição médica. O atleta precisava recuperar seu peso e sua forma física e as náuseas e cólicas impediam que ele conseguisse se alimentar corretamente. Da mesma forma que ajuda os pacientes que passam por quimioterapia, a maconha medicinal ajuda a aliviar o sintomas da Doença de Crohn e reduzir os efeitos colaterais dos remédios convencionais. Doutores advogam que a maconha traz uma menor dependência que os remédios químicos e é menos nociva no longo prazo. Outro fator que a torna eficiente é que o efeito é instantâneo após o consumo, ao contrário de outros remédios que podem demorar para fazer efeito e levar o paciente a aumentar a dose procurando um alívio.

Seantrel Henderson conseguiu finalmente se recuperar e se juntou ao time durante o training camp, previsivelmente longe da sua forma ideal. Só que antes da temporada começar chegou a notícia de que ele havia sido pego no exame antidoping e estaria suspenso dos primeiros quatro jogos. Nas palavras do próprio Henderson: “Meus médicos estão me falando que esse é o remédio número 1 para ajudar com a minha doença… Você tenta falar isso para a Liga, mas eles parecem não se importar.” Henderson voltou aos campos e chegou a ficar ativo no jogo da semana 11 contra o Bengals, mas logo em seguida foi suspenso de novo e dessa vez em um gancho de 10 partidas.

Você pode se perguntar se ele não está cometendo um crime ao comprar e utilizar maconha, mas não. No estado de Nova Iorque o uso recreativo da maconha não é crime e o uso medicinal é legalizado. As leis tem mudado fora da NFL, talvez seja o caso da Liga repensar suas diretrizes, ao menos em casos específicos como o de Henderson.

Apesar do bom senso dizer que sim, a NFL não tem obrigação nenhuma de mudar suas políticas de substâncias ilegais. A NFL tem sim a obrigação moral de repensar a forma e o tamanho das punições que dá em diferentes casos. Muitas pessoas podem se sensibilizar com a história de Henderson e ainda assim achar que ele deva ser punido. O que não dá é para aceitar uma liga que pune um jogador lutando pela própria vida com 10 jogos de suspensão no mesmo ano em que suspendeu o ex-Kicker do Giants – Josh Brown – em apenas um jogo, após ele ter admitido as acusações de agredir repetidamente a sua esposa. Depois de todo o escândalo com o caso de Ray Rice, parece que a NFL não evoluiu em nada, apesar do discurso de intolerância à violência doméstica e contra as mulheres.

É uma questão de prioridades mesmo. Quando a NFL pune um jogador que usa maconha dizendo que se preocupa com o exemplo dado fora de campo, ela também tem que pensar no próprio exemplo negativo que dá ao punir Henderson de uma forma tão mais severa do que pune Brown.

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O debate sobre a maconha ganhou muita força na sociedade americana nos últimos 10 anos e hoje a maioria dos estados tem alguma flexibilização nas leis que permitem no mínimo o uso medicinal. Dentro da NFL o caso de Henderson pode servir para acalorar o debate, mas fato é que esse debate já existe.

Eugene Monroe, ex-OT do Baltimore Ravens, já havia pedido ao comissário Roger Goodell que pare de considerar a maconha nos exames antidoping, segundo o jogador a planta é uma excelente alternativa aos diversos analgésicos usados pelos jogadores após os jogos. Nas palavras de Monroe: “Hoje sabemos que esses remédios não são tão seguros como os médicos costumavam achar, causam maior dependência e morte ao redor do país… E nós temos a Cannabis que é bem mais saudável, menos aditiva e, francamente, pode até ser mais eficiente na redução da dor.” Monroe sabe do que fala pois passou por diversas lesões graves em sua carreira na NFL e investe um bom dinheiro em institutos que pesquisam os efeitos medicinais da maconha. Ele deixou a liga esse ano por descordar das políticas antidrogas da NFL.

Se a Liga não repensar suas políticas, Henderson pode ser mais um que vai deixar a NFL para cuidar da sua saúde, e dessa vez nem estamos falando dos escândalos com as concussões que preocupam tanto o pessoal que cuida da imagem da Liga. E que decisão dura deve ser para Henderson abandonar seus sonhos de criança dessa forma. Cabe a NFL analisar casos distintos de formas diferentes.

Por se tratar de um tema polêmico, o objetivo desse texto é trazer mais questionamentos do que respostas. Assim como em todo tema que divide opiniões, isso também precisa ser discutido pelo público, e principalmente pela NFL.

Aguardo a opinião de vocês na seção de comentários!


Vamos então aos destaques da rodada:

Você pode assistir esses lances e todas as partidas da NFL clicando nesse link.

 

Jogada ofensiva da semana:

 

Chiefs voltou do intervalo perdendo por 20 x 16, tudo indicava que eles seriam forçados a um punt na primeira campanha, mas Andy Redid tinha planos diferentes para Albert Wilson. As vezes o destino premia a ousadia e esse foi o caso.

Jogada defensiva da semana:

 

E o Chiefs cravou a dobradinha jogada ofensiva e defensiva da semana. E essa foi sem dúvida a jogada mais incrível do fim de semana. Berry já tinha conseguido retornar uma interceptação mais cedo na partida, mas ainda assim o Chiefs não conseguia frear a reação da turma de Matt Ryan que conseguiu a liderança por 28 x 27 com 4 minutos de jogo restantes. Falcons tentou a conversão de 2 pontos que colocaria o time com um FG de vantagem e caso errassem a conversão ainda assim teriam a liderança mínima. Só que não contavam com a astúcia de Eric Berry que interceptou o passe e garantiu os dois pontos que selariam a vitória em 29 a 28 para o Chiefs.
Momento buttfumble:

Pode parecer que o “homenageado do momento buttfumble dessa semana é o Jeff Fisher, mas não, é a direção do Rams. Como vocês puderam renovar o contrato de um sujeito que não consegue nem ao menos achar a bandeirinha de challenge, muito menos treinar um time. Rams, para com isso que tá feio.


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Arthur Murta conheceu a NFL em 2005 e, desde que pisou no Ralph Wilson Stadium, nunca mais foi o mesmo. Além de uma matéria semanal, também é responsável pela coluna Dicas de Fantasy e co-apresenta o Podcast Liga dos 32. Arthur gosta de fantasy football mais do que gosta de sorvete. Twitter: @murtaarthur