quinta-feira, 8 de Fevereiro de 2018

Compartilhe

Josh McDaniels estava apalavrado com o Indianapolis Colts para ser o seu futuro Head Coach, mas refugou ao receber uma “proposta irrecusável” das mãos de Robert Kraft, dono do New England Patriots. Certamente o atual Coordenador Ofensivo do Patriots goza de muito prestígio dentro da organização, mas acredito que ele tenha se queimado não só com as outras 31 franquias, mas também com vários colegas de profissão, além de ter perdido seu agente, que decidiu não mais o representar.

Hoje falo o porquê a opção de McDaniels pode vir a marcar a sua carreira da pior forma possível e destrincho os erros que ele cometeu no processo. Não deveria precisar falar isso, mas é bom ressaltar que esse texto contém as opiniões do autor e não necessariamente reflete a posição de todos os membros do site.

O amigo Rafael Storone explicou com detalhes como McDaniels deixou o Colts esperando no altar, então se você quiser detalhes sobre como e quando a negociação fracassou, sugiro abrir o link abaixo.

LEIA MAIS: O caso McDaniels: o vale-tudo entre Patriots e Colts

O que o histórico de McDaniels nos diz?

Antes de mais nada, é bom contextualizar melhor para quem não conhece a história de Josh McDaniels na NFL, desde a sua primeira tentativa de se tornar Head Coach. Em sua chegada à Denver, ele era até então o HC mais novo da história da NFL, com apenas 33 anos. A mídia de Denver conta que na época, McDaniels procurava compensar sua juventude com um pulso forte, onde tentou implantar sua filosofia de qualquer maneira possível, sem considerar as relações pessoais que já existiam dentro do time e da franquia como um todo.

Não demorou muito para perder o vestiário e ser visto com péssimos olhos dentro do Broncos. Depois de uma primeira temporada 8-8 em 2009, McDaniels foi demitido na semana 13 de 2010, tendo conseguido apenas 3 vitórias e 9 derrotas naquele ano.

Em 2011 foi contratado como Coordenador Ofensivo do St. Louis Rams e teve uma temporada tenebrosa, deixando o time com o pior ataque da liga em pontos feitos e o segundo pior em jardas ofensivas. Até vou aproveitar e pedir desculpas à St. Louis por trazer isso à tona.

No ano seguinte ele voltou para a sua zona de conforto em New England, onde viveu todos os seus anos bem sucedidos na carreira, e depois disso veio a conquistar seus primeiros dois títulos como Coordenador Ofensivo.

Apesar da frustração com a passagem de McDaniels por Denver, a NFL não tinha desistido dele. Nas últimas offseasons o seu nome surgia com frequência entre os candidatos mais badalados às vagas de HC, mas ele não parecia interessado em sair do Patriots. Ou talvez ele tivesse interesse, mas não pelas oportunidades que apareceram. Enfim, essa parte é pura especulação e pouco importa para o decorrer da trama.

O que importa é que McDaniels parecia finalmente ter decidido sair das asas de Bill Belichick e voar sozinho mais uma vez. O Colts parecia ter um bom plano com o GM Chris Ballard comandando a montagem do elenco e não deixando McDaniels muito livre para tomar as decisões bruscas que marcaram sua passagem em Denver – sim, ele foi o responsável por fazer a fatídica troca para voltar ao primeiro round e draftar Tim Tebow.

E o técnico parecia estar decidido a aceitar o desafio de reerguer o Colts, inclusive já tinha tido algumas reuniões para definir a sua equipe de apoio. Três desses coordenadores já haviam até mesmo assinado  contratos com o Colts antes de Josh McDaniels voltar atrás na sua palavra: Matt Eberflus, Dave DeGuglielmo e Mike Phair já tinham pedido demissão de seus atuais empregos para seguir McDaniels, que por sua vez deixou todo mundo na mão.

Por sorte dos três treinadores, Ballard falou em entrevista coletiva na quarta (dia 7 de fevereiro), que conta com os serviços deles e os elogiou dizendo que eles se encaixam no plano que o time tem em mente. O problema é que isso pode acabar travando as negociações com alguns próximos candidatos à HC, que poderiam preferir outros nomes para as vagas de Coordenador Defensivo, Técnico da OL e Técnico da DL.

Pior que a situação desses três, que pelo menos terão seu emprego garantido por essa temporada, é a situação os outros coordenadores que estavam em situação parecida e nem chegaram a assinar um contrato. Alguns deles já estavam planejando a mudança de suas famílias e podem até mesmo ter largado seus empregos em troca da oportunidade que parecia eminente.

Aqui eu já tenho um problema sério com a conduta dele. Dar a sua palavra e  voltar atrás é algo muito grave, que indiscutivelmente quebra a sua credibilidade com futuros novos empregadores.  Pior ainda quando isso ainda afeta diretamente a vida e a carreira de vários técnicos que concordaram em segui-lo e foram deixados à deriva. Com todos os questionamentos que haviam sobre a maturidade de McDaniels após sua passagem por Denver, isso foi uma ducha de água fria em quem acreditava que ele teria aprendido com o tempo.

É importante dizer que não tenho nada contra McDaniels continuar em New England. Acho inclusive que é onde ele tem a melhor chance de não fracassar como HC e quem sabe até fazer um bom trabalho. Após a aposentadoria de Bill Belichick e Tom Brady, ele seria um elo com os tempos gloriosos da Dinastia e não teria a função de implantar uma cultura, algo que não conseguiu fazer em Denver. Terá sim a função de manter a cultura viva após a aposentadoria dos maiores ícones da franquia.

O meu problema não é com o destino de McDaniels e sim com o caminho que ele tomou para chegar a esse destino e quantidade de gente que ele desapontou durante a jornada. Foi um caminho inconsequente e que vai deixar marcas na sua carreira e nas relações de bastidores com os outros times e técnicos da NFL.

McDaniels tem muito valor dentro do Patriots, não acredito que Robert Kraft tenha feito tanto esforço para segurá-lo apenas para “jogar na cara” do Colts, time que é seu desafeto desde o caso do “Deflategate”. Esse esforço para segurá-lo mostra que Kraft o vê como o sucessor de Bill Belichick e tudo indica que o momento dessa passagem de bastão se aproxima.

O que o futuro guarda para Josh McDaniels?

McDaniels terá então a enorme tarefa de dar seguimento ao trabalho da melhor dupla QB-HC da história, algo que vai aumentar ainda mais o tamanho da responsabilidade e das expectativas sobre o seu trabalho. Manter o padrão de excelência do Patriots nos últimos 18 anos será uma tarefa extremamente complicada, especialmente depois que Tom Brady se aposentar.

E caso McDaniels não se mostre à altura de tal tarefa? Até que ponto irá a lealdade de Robert Kraft a ele? E se ele for demitido? Quem vai querer contratá-lo depois dele ter queimado tantas pontes nessa offseason? E quais coordenadores vão querer trabalhar com ele, depois dele ter deixado vários que confiaram nele na mão?

Saber fazer ajustes e traçar bons planos de jogo é uma parte importante do trabalho de um técnico da NFL e isso McDaniels parece saber bem, só que a outra parte importante é a gestão de pessoas e nesse ponto ele ainda tem muito o que aprender.

A carreira de McDaniels como HC depende agora do sucesso que ele conseguirá ter caso suceda Bill Belichick. Se ele conseguir fazer boas temporadas com o Patriots pós-Brady e manter o time competitivo, então a NFL vai acabar o perdoando e dando novas chances para ele. Mas caso ele não consiga ser bem sucedido em New England, aí ele vai perceber o tamanho da besteira que fez nessa offseason.

E não é como ele não tivesse sido avisado do erro que estava cometendo ao virar as costas para o Colts. Seu agente, Bob LaMonte, tentou lhe avisar que essa decisão poderia lhe fechar portas no futuro. LaMonte  inclusive foi o primeiro a abandonar o barco de McDaniels após ele tomar a decisão que tomou.

Em entrevista ao Mike Garofolo, da NFL Network, LaMonte disse que um “conflito de princípios” o levou a não querer mais representar o ex-atual Coordenador Ofensivo do Patriots. O agente disse que “sua palavra é o vínculo mais importante que pode ter, uma vez quebrada a palavra, não sobra nada”.

LaMonte que coincidentemente é o agente de Chris Ballard, além de outros figurões como Andy Reid, Jon Gruden e Doug Pederson, foi o primeiro a pular fora do barco de McDaniels. Caso Robert Kraft resolva um dia que McDaniels não é o comandante ideal para o seu transatlântico, tudo que sobrará é um ex-candidato a HC promissor, que se perdeu na sua própria inconsequência e imaturidade.

O futuro de McDaniels como HC nesse momento parece ser New England ou bust. O tempo dirá se a vida vai ser capaz de ensinar algo para McDaniels. Enquanto isso a NFL estará acompanhando criticamente cada um dos seus passos.


Acompanhe nosso conteúdo mais de perto e fique por dentro de tudo o que rola na NFL e NCAA: Siga nosso Twitter e curta nossa página no Facebook. Para ganhar DEZENAS de benefícios e se tornar um apoiador do site e do nosso trabalho, clique aqui.

Compartilhe
  • Andre

    Baita texto, pegou leve mas falou bonito. Arthur é foda.

  • Arthur Murta

    Valeu, grande Korb! Você que é foda, grande guerreiro das edições!

  • Rafael de Nuzzi Dias

    Muito bom o texto. Parabéns

  • Arthur Murta

    Valeu Rafael! Abs

  • Sandro Sant’Anna

    Gostei. bom texto.

  • Fábio Ferrari

    Concordo com o egoísmo da decisão de McDaniels mas pessoalmente acho que ninguém vai lembrar disso daqui a 4 ou 5 anos. Principalmente se ele estiver fazendo um bom trabalho… Fora os Colts, acho que times precisando de bons treinadores não descartariam uma potencial solução para os seus problemas por um fato de tanto tempo atrás. Não vejo esse corporativismo todo na NFL, os donos de times querem vencer, eles também são egoistas em muitas decisões, ainda mais com a quantia de dinheiro envolvida. Prova disso é a contratação de jogadores até mesmo envolvidos em crimes. McDaniels se queimou, fato. Mas nem de longe acabou com a carreira.