quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

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Jimmy Garoppolo é o quarterback sensação nesse momento na NFL. Com apenas cinco jogos – sendo quatro deles completos – pelo San Francisco 49ers, ele acumula 1.268 jardas, 69% dos passes completos, 5 touchdowns, 3 interceptações e uma média alta de 8,7 jardas por passe tentado. É válido mencionar que a estatística “jardas por tentativa de passe” é uma das melhores para medir a eficiência do QB movendo a bola e, nesse quesito, Garoppolo lidera com folga entre todos os jogadores da sua posição.

Separamos, então, dez jogadas para mostrar detalhadamente onde o atual quarterback do 49ers se destaca, até que ponto o esquema genial de Kyle Shanahan o auxilia e o que ele ainda precisa mostrar evolução. Antes mesmo de chegarmos lá, cumpre destacar que, seja para o bem ou para o mal, essa pequena quantidade de jogos se mostra insuficiente para bater o martelo sobre qualquer QB. É uma análise puramente pontual sem a pretensão de fazer qualquer tipo de projeção futura, já que isso não é possível ao avaliarmos uma amostra tão pequena.

 

Essa jogada mostra uma maturidade que o Garoppolo já tem mesmo com tão pouca experiência como titular na NFL. Atenção no último homem do Houston Texans, pois esse Free Safety é a chave do que acontece no lance. Veja que ele está lendo os olhos do quarterback como manda a cartilha da sua posição e é justamente isso que o QB do 49ers explora para criar uma janela menos perigosa para o seu passe longo.

Seu recebedor no slot pelo lado direito executa uma rota “post” e recebe a bola exatamente no ponto que o Free Safety está posicionado antes do snap. Sendo assim, Jimmy Garoppolo olha para os seus recebedores no seu lado esquerdo e faz com que o Free Safety (olho nele) abandone o seu posicionamento incial, virando o quadril todo na direção que o QB estava olhando inicialmente. É o famoso “criar espaço com o olhar”. Parece mais simples do que é na prática e nem todo quarterback consegue fazer isso de maneira tão natural, até porque para isso ele precisa ter total noção do que está acontecendo do lado que ele vai se voltar para dar o passe, consciência do posicionamento defensivo e do Free Safety, além de um bom domínio da jogada em si — conhecer o playbook e estar confortável com ele.

Perceba ainda que estamos diante de uma leitura Hi-Lo, onde o quarterback vai primeiro olhar para a rota mais longa e, se não estiver aberta, só depois para a rota mais curta. Havia a opção do recebedor na rota “slant” naquele mesmo lado.

Nem só de acertos vive Jimmy Garoppolo. A verdade é que o aproveitamento dele é realmente incrível, então as jogadas aqui nesse post são positivas. Até mesmo essa para mostrar um erro na leitura pré-snap teve um resultado positivo.

Antes, podemos dizer que a “falha” aqui acontece pelo fato de ele – nem seu center – não perceber a blitz do inside linebacker do lado esquerdo da defesa, coisa que normalmente só quarterbacks mais experientes iriam ver. Como aquele LB vem de trás na blitz, o running back sai para receber completamente livre e ganharia muitas jardas ou até mesmo anotaria o TD se o passe fosse para ele. Veja que o San Francisco 49ers nem sequer cogitou a blitz daquele jogador, de forma que ele passa pela linha ofensiva intocado.

Que fique claro que a jogada aconteceu como desenhada e a leitura dele era ali pro lado esquerdo mesmo. Com o tempo, podemos esperar que ele identifique melhor uma situação de blitz como essa e mude a ordem da sua progressão para o lado que vem a blitz, justamente para poder se virar primeiro para a opção do running back.

No vídeo acima, destacamos a velocidade da bola saindo da mão de Garoppolo. Ele mostra força no braço – que não só é vista em passes muito longos – para encaixar um passe entre dois marcadores e em uma área do campo com muito tráfego. A intenção é diminuir os riscos de uma interceptação: ou o recebedor pega a bola ou ninguém vai pegar.

Um outro ponto que chama a atenção é a sua mecânica de lançamento. Do momento que ele decide lançar até a bola sair da sua mão é uma fração minúscula de segundo como todo profissional, com a diferença que ele lê rapidamente a defesa após o snap e o tempo que ele leva para decidir soltar a bola também é muito curto. Jimmy Garoppolo enxerga aonde a bola tem que ir rápido, solta ela instantaneamente e o passe vai com velocidade – quando a jogada pede – e precisão. Isso cansa o pass rush e, por consequência, desgasta a defesa toda. Nesse aspecto, lembra muito o atual Tom Brady, de quem ele foi reserva.

Aqui é uma jogada em que o improviso acontece. A chamada era um passe curto para o lado direito do QB, com duas rotas que se cruzam, mas o defensor que inicialmente ameaça blitz volta para marcar o #44 (Kyle Juszczyk) que sai do backfield posicionado ao lado de Garoppolo em direção ao flat. Com a falha de marcação do CB que corre para cobrir também o #44, a rota mais longa fica inesperadamente aberta e aí o quarterback do San Francisco improvisa mesmo em meio a uma blitz e faz a bola chegar lá.

Novamente uma blitz que passa livre pela linha ofensiva do 49ers diretamente na cara de Garoppolo. Como apontado, esse é um aspecto que ele e seu center precisam trabalhar melhor. A pior coisa para uma defesa é um QB que consegue destruir a blitz mesmo quando um dos defensores passa completamente livre e é isso que Jimmy G faz. Leitura rápida, passe rápido e bem colocado…jogada positiva em vez de perda de jardas com um sack.

Caso ele mantenha um desempenho bom contra a blitz, isso vai forçar os coordenadores defensivos a serem mais conservadores e tentarem pressioná-lo com no máximo quatro defensores. Kyle Shanahan, técnico do 49ers, adoraria isso já que seu esquema consegue atacar tanto o homem a homem quanto a marcação por zona com eficiência e pouco tempo, imagine então com mais tempo para as rotas se desenvolverem? Mesmo com um homem a mais na secundária, seria problemático para os adversários.

Presença no pocket é outro aspecto fundamental na vida de um bom quarterback. Isso permite que ele estenda as jogadas quando ninguém está aberto, compre mais tempo para a sua linha ofensiva e ainda evita que leve um sack ou uma pancada que poderia lesioná-lo. Existem quarterbacks que tem tanta presença no pocket quanto um boneco de olinda e quando deveriam ganhar tempo, vão de encontro ao pass rusher e dificultam o trabalho da linha ofensiva em vez de facilitar.

Não podemos esquecer dos quarterbacks móveis que ficam tão viciados em correr para um lado e para outro que isso não é presença de pocket, mas justamente a falta dela. A saída do pocket se dá em situação de pressão em que o pass rusher está efetivamente ganhando do bloqueador e dar dois passos para frente não é uma opção ou quando o desenho da jogada é esse.

Veja que Garoppolo primeiro vai pra frente, aí depois um defensor passa pelo bloqueador e vai na sua direção pelo seu lado esquerdo, só então ele sai do pocket para o lado direito, orienta o recebedor apontando onde a bola vai e manda um belo passe em movimento.

Temos aqui a mesma situação do vídeo anterior: presença no pocket + passe em movimento. A diferença é que aqui o lançamento foi contra o movimento do corpo, algo ainda mais difícil. Quando um destro corre para a direita e lança em movimento, é menos complicado que quando ele corre para a esquerda. Tem consideravelmente menos apoio para fazer o passe.

 

Nesse lance, Garoppolo sai do pocket e lança com uma mecânica diferente da comum. É o chamado lançamento “de lado”, essencial na jogada para que a bola passasse lateralmente pelo defensive back e ele não tivesse como desviar essa bola bloqueando a linha de passe. É mais um recurso bem utilizado pelo QB do niners. Outro lançamento em movimento e correndo para um lado que não dá apoio para um passe de um destro. Grau alto de dificuldade aí.

Colocação de bola. Precisão. Dentre as vantagens de ter essas características estão a possibilidade de completar passes mesmo em situação de marcação apertada, bem como colocar o recebedor em uma boa posição para conquistar jardas após a recepção.

Foi o que aconteceu na jogada, pois a marcação era boa. Porém, não existe cobertura contra o passe perfeito. Note que Garoppolo coloca a bola onde só o recebedor poderia agarrá-la e mesmo que o defensor se esticasse todo – como foi o caso – não conseguiria desviá-la. A partir disso, surgiu uma jogada explosiva com várias jardas depois da recepção. Mais um passe muito bom diante de blitz e com um defensor em cima dele.

Não podemos falar só de Jimmy Garoppolo mesmo que o foco da análise seja ele. Essa chamada com uma pitada de “split zone” vende muito bem uma jogada terrestre. A linha ofensiva bloqueia em zona e vai toda para a direita, deixando o pass rusher (edge) do lado esquerdo da linha desbloqueado para aparentemente ser bloqueado pelo FullBack #44 que vem do lado direito para o lado esquerdo. Mas o que acontece é um play action e um passe fácil para esse fullback completamente livre.

Essa é um dentre inúmeros exemplos que acontecem nas partidas do San Francisco 49ers em que Kyle Shanahan brinca de destruir defesas. Abusando da criatividade e mudanças de direção a cada jogada, não é difícil ver constantemente mais de um recebedor livre nos lances – isso sem contar a inteligência também por terra. Ele é uma das grandes mentes ofensivas da NFL atualmente e isso, óbvio, facilita o trabalho de Jimmy Garoppolo agora e no futuro.

O que não quer dizer que ele está sendo tão bom só porque Shanahan está lá. Não! Garoppolo já demonstrava talento no Patriots quando tinha a oportunidade e pegou um elenco fragilizado ofensivamente no 49ers. Por mais que ter uma grande mente ofensiva ajude, é inegável a capacidade individual de Jimmy Garoppolo como jogador demonstrada nos dez vídeos acima e em quantos mais você assista. Tem tudo para ser muito divertido ver essa dupla (Garoppolo + Shanahan) em ação na NFL pelos próximos anos.

 

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