quinta-feira, 1 de Março de 2018

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Nos últimos dois anos, Lamar Jackson foi um dos atletas mais impressionantes do College Football. Tremenda ameaça tanto pelo ar como pelo chão, venceu o Heisman Trophy em 2016 e ficou na terceira posição em 2017. É um dos cinco principais prospectos na posição de quarterback para o próximo draft – o único negro entre eles – e tem grandes chances de sair ainda na primeira rodada. Ainda assim, Bill Pollian, ex-general manager do Indianapolis Colts e atual comentarista da ESPN norte-americana, declarou no início do processo do Combine que o atleta deveria se converter para wide receiver.

A história dos quarterbacks negros na NFL mostra uma dificuldade de aceitação muito grande. O pioneiro foi Fritz Pollard, em 1920. 12 anos depois, viria o segundo, e só em 1953 o terceiro: Willie Thrower, que só atuou em uma partida antes de ser boicotado pela sua cor. Foi só a partir da década de 70 que começaram a surgir nomes mais proeminentes, e eles precisavam batalhar muito mais que seus colegas de posição brancos para ter uma oportunidade. É o que veremos a seguir.

Na coluna dessa semana, respondo se existe racismo contra quarterbacks negros na NFL. Para ter sua dúvida analisada aqui na próxima quinta-feira, envie-a no Twitter para @massaricarlos!

A história de Warren Moon

Nas décadas de 60 e 70, a luta pelos direitos civis avançou nos Estados Unidos e a segregação se tornou menor. A AFL foi a primeira a permitir jogadores negros – Oakland Raiders, Kansas City Chiefs e Houston Oilers foram os pioneiros nessa questão. Foi só em 1987 que um time com um quarterback negro venceu o Super Bowl pela primeira vez – por ironia, o Washington Redskins, franquia que liderou o boicote contra atletas não brancos duas décadas antes, com Doug Williams – que foi titular em apenas dois jogos na temporada regular.

Nessa mesma época, um jogador seria uma metonímia da situação dos quarterbacks negros. Warren Moon quebrou recordes na high school e foi recrutado por Arizona State, mas ao chegar no Sun Devils, recebeu a informação de que era visto como wide receiver (parece familiar?). Não querendo abrir mão de seu sonho, se transferiu para uma Junior College, mais uma vez jogando de forma fantástica e postando estatísticas inacreditáveis.

Moon recebeu uma nova chance com o Washington Huskies e brilhou, levando a universidade a uma vitória no Rose Bowl contra Michigan em 1977. Com altura e físico ideais para um quarterback, acabou nem sequer sendo selecionado no draft de 1978. Os executivos da época não conseguiam ver um negro como “pocket passer” tradicional – era necessário ser mais um corredor do que um passador. Mais uma vez, ele precisaria se provar.

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Mas nada impediria Moon de realizar seu sonho de jogar na NFL. Foi para a liga canadense e atuou por cinco anos no Edmonton Eskimos – venceu a Grey Cup, o Super Bowl do Canadá, em todos eles. Foi só ai que recebeu uma chance do Houston Oilers. Ficou na NFL entre 1984 e 2000, foi nove vezes ao Pro Bowl, liderou a liga em jardas aéreas duas vezes e em touchdowns em uma, foi eleito Offensive Player of Year em 1990.

Warren Moon foi um dos grandes quarterbacks das décadas de 1980 e 1990, mas precisou batalhar infinitamente mais que seus colegas de posição brancos para chegar onde chegou. Recusado na universidade, aconselhado a mudar de posição, não draftado, por incontáveis vezes provou errados todos aqueles que dele duvidaram. E abriu muitas portas.

Existe um ar de mudança

O sucesso de Warren Moon, Doug Williams, Randall Cuningham, entre outros, fez com que a NFL começasse a aceitar a possibilidade de negros na posição mais importante do futebol americano. Outros atletas icônicos passariam pela liga nos anos seguintes: Steve McNair, Donovan McNabb, Rodney Pete e Jeff Blake foram alguns dos que pavimentaram esse caminho.

Na temporada 2017, tivemos Tyrod Taylor (Buffalo Bills), DeShone Kizer (Cleveland Browns), DeShaun Watson (Houston Texans), Jacoby Brissett (Indianapolis Colts), Dak Prescott (Dallas Cowboys), Jameis Winston (Tampa Bay Buccaneers), Cam Newton (Carolina Panthers) e Russell Wilson (Seattle Seahawks) como negros titulares de suas equipes como quarterbacks. Oito de trinta e dois, ou seja, 25%.

É importante ressaltar o efeito que a representatividade teve para cada um deles. DeShone Kizer, um calouro sofrendo no pior time da liga, falou sobre isso. Mesmo sendo de Toledo, em Ohio, ele cresceu um torcedor do Philadelphia Eagles porque seu pai via Randall Cuningham comandando a equipe e, mais tarde, ele viu Donovan McNabb. Cada quarterback negro de sucesso faz com que jovens acreditem que eles também podem chegar lá.

Mas a mudança ainda é lenta e dolorida

Na semana 13 da temporada de 2017, o New York Giants tomou uma controversa decisão e colocou Eli Manning no banco em detrimento a Geno Smith. Assim, Smith se tornou o primeiro negro a atuar como quarterback nos 92 anos de história da franquia.

Um jogo em 92 anos. Podemos pensar comparativamente no que isso significa?

Havia dezoito quarterbacks pertencentes a minorias nos rosters das equipes na última temporada – 16 negros. Isso contando Sam Bradford, claramente lido como branco, mas de ascendência Cherokee. Poucos deles são, como era Warren Moon, majoritariamente pocket passers.

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Se olharmos para Cam Newton e Russell Wilson, os dois mais proeminentes dessa lista, temos dois jogadores que são constantemente vistos pelo público como “running backs que eventualmente passam a bola”. Essa é uma visão que ainda denota um certo preconceito, uma vez que os dois já apareceram várias vezes entre os melhores da NFL nas métricas aéreas.

Dois estudos recentes mostraram dados sobre como é mais fácil chegar à NFL para atuar como signal caller se você for branco. O Washington Post avaliou 175 scouting reports de prospectos da posição entre 2008 e 2016 e chegou à conclusão de que brancos quase sempre são elogiados pela “inteligência”, “liderança” e “entendimento do jogo”, enquanto os principais atributos citados dos negros são “muita força física” e “excelente corpo”.

O The Guardian, por sua vez, comparou os quarterbacks selecionados nos últimos sete drafts e mostrou que a posição média para os brancos é a 53ª e a dos negros é a 70ª – apesar disso, o rating do segundo grupo como profissional é melhor que o do primeiro.

Cam Newton e Russell Wilson também ouviram que precisariam mudar de posição para atingirem sucesso na NFL. Terrelle Pryor virou, de fato, wide receiver. De Warren Moon a Lamar Jackson, esse é um fato comum – existem muitas barreiras de cor a serem quebradas se você é um negro e quer ser um quarterback profissional.

Afinal, e Lamar Jackson?

Pessoalmente, eu considero Josh Rosen, Baker Mayfield e Sam Darnold prospectos melhores que Lamar Jackson. Isso não quer dizer que ele não deva ser selecionado na primeira rodada, muito menos que ele deva virar wide receiver.

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Existem duas críticas principais ao produto de Louisville: uma é sobre a sua precisão nos passes, o que me parece ser muito mais um estigma pela cor do que uma realidade. Jackson é muito mais preciso do que Josh Allen, que tem sérias questões nesse quesito e é muito mais um talento físico do que algo próximo de um signal caller pronto para a NFL – ainda assim, você não vai achar ninguém sugerindo que ele deva mudar de posição.

No lance abaixo, Jackson demonstra toda a sua qualidade. Evita o pass rusher, planta os pés no pocket e lança uma bomba de 40 jardas com absoluta perfeição para seu recebedor – perceba como não é necessário nenhum ajuste para fazer a recepção:

A outra crítica também é recorrente a quarterbacks negros: alguém que depende tanto de correr e que se expõe tanto a pancadas não vai ter uma durabilidade grande na NFL. Jackson tem 1,91 de altura e 96 kg e certamente pode adicionar mais músculos em sua forma física, mas isso não significa que ele sofrerá com lesões recorrentes – de qualquer forma, a proteção que sua equipe o dará diz mais sobre isso do que qualquer outra coisa, como nos confirmaria Andrew Luck.

Como acontece com todos os prospectos do draft, nada garante que Lamar Jackson será um sucesso ou não na NFL. Não há dúvidas, porém, que a declaração de Bill Polian é baseada em racismo contra quarterbacks negros.

Vocês se lembram da infeliz declaração de Pelé de que “no futebol americano, o quarterback é o único jogador que pensa”? Os negros são maioria absoluta em todas as posições no jogo, menos na que supostamente precisa pensar. É só ligar os pontos das informações desse texto e dessas duas coisas para responder a pergunta do título.

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9 Comentários

  1. Sinceramente, isso é procurar cabelo em ovo. Se o cara é bom, ou aparenta ser, ele vai ser selecionado. A desproporção de QB’s negros e brancos na NFL não é um resultado de racismo na liga profissional, mas é algo que vem lá do high school e college. Na formação inicial do atleta isso realmente deve pesar muito. A proporção de QB’s brancos/negros na NFL acaba refletindo então o fato de haver mais QB’s brancos na fase estudantil dos atletas. Assim, acaba havendo uma probabilidade maior de QB’s brancos com potencial de NFL. Mesmo assim, desde 2007, foram selecionados três QB’s negros na primeira posição geral e um na segunda posição geral. Onde está o racismo? O problema é que lá atrás, na formação dos QB’s negros, eles tem sido estimulados a desenvolver as habilidades atléticas de corridas, ao invés de pocket pass. Na NFL são poucas equipes com roster e técnicos em condições de usufruir desses QB’s corredores no seus planos de jogo. Despois da “surpresa” dos read option as equipes estão bem mais preparadas a defender esse tipo de QB. Sinceramente, falar da precisão do Lamar Jackson e pegar como exemplo uma jogada de play action isolada é brincadeira. Assim, dá até para falar da precisão dos passes do Tim Tebow. Por pior que o cara seja, é sempre possível achar um ou outro lançamento bonito, isso é algo que vemos em trick plays de caras que nem são QB’s. O Lamar Jackson tem péssima precisão, o percentual de passes completos no College ficou abaixo de 60%. Simplesmente não dá para falar bem da precisão dele. Isso não quer dizer que ele não possa virar um grande QB na NFL, vide o caso do Cam Newton, que também não tem boa precisão, mas tem braço. Volta e meia vemos um grande lançamento dele, mas continua sendo um QB com precisão ruim. Um QB com grandes habilidades atléticas tem potencial de jogar em várias posições, até pela necessidade de maior entendimento do jogo que atletas de outras posições. O Terrelle Pryor, que citaste, é um bom exemplo. Ele era um QB medíocre e como receiver mostrou potencial para a posição, ter 1000 jardas recebidas numa temporada pelos Browns é para poucos. Se tivesse ficado como QB já estaria fora da liga. Em relação ao Russel Wilson, o cara é um anão para a posição, é menor que o Drew Brees. Assim é natural sugerir a troca de posição.

  2. Carlos Massari on

    Rubens, você sabe que porcentagem de passes completos não é exatamente uma estatística confiável, ainda mais no College, certo? O Lamar Jackson teve mais que o dobro de drops do Sam Darnold em 2017, por exemplo. E naquela estatística bem mais funcional, a “Adjusted Completion Percentage”, levando em conta drops, bolas jogadas fora e etc, ele é o terceiro melhor dentre os cinco candidatos de saírem na primeira rodada com 73,1% – fica atrás só do Mayfield (82,6%) e do Rosen (74,4%), e à frente do Darnold (70,6%) e do Allen (65,7%).

    Sobre a afirmação de que há mais quarterbacks brancos desde o College, não tenho dados pra confirmar ou para negar essa informação, mas o teste visual me dá impressão de que a proporção nesse nível é mais equilibrada. E segundo um estudo da Black Athlete, só entre 2009 e 2010, 14 quarterbacks negros do College tiveram que mudar de posição para tentar jogar na NFL.

    Concordo que o Terrelle Pryor era um quarterback bem medíocre, isso sendo até positivo com ele. Mas quantos quarterbacks brancos do mesmo nível não continuam por anos na NFL sem ninguém sugerir que eles joguem em outras posições?

  3. Muito bom e importante o texto. Li um artigo, não lembro onde, que mostrava que o percentual de QBs negros trocam de posição na faculdade é muito maior que no caso dos brancos. Outra posição que parece que rola um racismo descarado são com os centers, teoricamente a posição mais “cerebral” da OL. Por aqui tem a perseguição aos treinadores de futebol e goleiros que são negros. Por fim, parabéns pelo texto

  4. Há racismo na NFL? Como uma organização feita por pessoas, ela é uma extensao da sociedade, então sim, há racismo na NFL, como em toda a parte dos EUA, como em toda a parte no mundo inteiro.

    Há racismo na opinião do Pollian? Na minha opinião, claro e evidente que NÃO.
    É só a opinião dele cara, endossada certamente por análises que ele possivelmente deve ter feito acerca do jogador, repito, opinião dele. Certamente observou o jogador esses anos, viu dezenas de tapes, jogos, assim como sabe da dinamica dele em campo, e emitiu essa OPINIÃO.

    Eu concordo com a ideia dele? Obviamente não, ele é um bom QB, e ao meu ver se for bem desenvolvido e cair no time certo, pode em alguns anos explodir na liga.

    Enfim, há racismo na liga, há racismo nas opiniões de alguem sobre o que quer q seja por ai, mas não nessa declaração do Pollian, o texto apesar de importante sobre um otimo tema, surge de um fato forçado, um fantasma que só alguem quer ver.

    Ou então meu caro, o que voce achou quando ha alguns anos o Chris Wesseling e muitos outros, propuseram que uma boa saida pro péssimo (quase opinião unanime entre todos os comentaristas americanos, da cor que voce desejar) Tim Tebow, seria se converter a TE pra assim ter uma chance a mais na liga?

    Opinião garoto, nada mais.

  5. Não diria que é racismo, mas sim estereótipo. Se tem o estereótipo de que quarterback branco é somente pocket passer enquanto o quarterback negro é somente QB móvel. E tem fundamento esse estereótipo, se vc pegar um top 20 ou 30 QB de todos os tempos, quantos dos negros são QB realmente pocket passer? Hoje na liga qual o QB negro pocket passer de sucesso? Os melhores são dual-thread, puxando mais pra mobilidade.
    O mesmo acontece com RB branco. Basta ver quando o McCaffrey foi draftado, muitos questionando o fato de ele ser um RB branco.

  6. Excelente artigo, Carlos. Sempre haverá alguma estatística dizendo o contrário, a fim de tentar basear opiniões ridículas como a de que o Lamar deveria virar um wide receiver; entretanto, um estudo social da sociedade americana – e mesmo da brasileira, em outros níveis – mostra que o preconceito, além de existir, ainda é forte na maioria branca que comanda a NFL e a imprensa relacionada. Note, inclusive, que mesmo o presidente atual é racista – isso diz muito, ainda mais quando foi eleito após um presidente negro e com um discurso de ódio nonsense. E, falando ao Rômulo: estereótipo é um tipo de preconceito, especialmente no quadro do artigo. Abraço!

  7. Sabem qual é o motivo de ninguém sugerir que QBs brancos se tornem WRs? Porque eles não teriam físico pra isso. Tem mais brancos entre os QBs porque é a posição que acaba exigindo menos do físico e assim sendo muitos brancos são direcionados desde o high school. Seria por assim dizer a posição que “sobra”. Não imagino no high school que quando o jogador chega o técnico olha e fala “você é branco então vai ser QB e você é negro vai ser RB”. Imagino muito mais assim “você é franzino vai ser mais bem aproveitado como QB e você é forte e atlético vai ser bem aproveitado como RB”. Mesma lógica para caras mais “gordinhos” serem OL ou DL, os altos WR e etc. E o mesmo raciocínio pros QBs chegando no college “você é um QB franzino vamos explorar seu passe e você é atlético vamos explorar além do passe a corrida”. Coisa que os técnicos do college amam, porque ganha jogos e trofeus Heisman, imdependente de ser negro ou branco.. Exemplos, Tim Tebow, Manzel… Sendo assim, muitos mais QBs brancos chegam no draft como pockt passers porque são direcionados pra isso, treinados pra isso e só podem fazer isso. Ou você imagina o Tom Brady com o fisico que ele chegou no draft de 2000 sendo draftado ou jogando em alguma outra posição. Não é questão de inteligência ou cor, é biotipo e direcionamneto dos treinamentos. E a prova maior disso tudo é que se além de franzino você não souber segurar a bola eles te colocam pra ser kicker ou punter. Cade os kickers negros? Porque ninguém reclama disso? Porque kicker não ganha dinheiro e QB é o que mais ganha, por isso essa polêmica sobre racismo. E pior ainda, porque essa polemica vende.
    Agora, especificamente sobre o Lamar.. O jornalista só achou que ele seria melhor aproveitado como WR pelo que viu do jogo e físico do cara, não pela cor ou inteligência. Até porque QB bust é o que não falta, principalme no perfil dele, sendo branco ou negro. O tempo dirá se ele tinha razão. Ele não propos isso pros outros porque eles não teriam a capacidade de ser WR como o Lamar tem.
    Quanto racismo na NFL, é claro que existe, seria muita ignorância negar isso. Assim como na sociedade americana em geral e no mundo. Mas não especificamente no caso do Lamar.

  8. Acho que se tentou polemizar mais do que devia. O cara não é o melhor prospecto de QB deste draft, e a sugestão de negros mudarem de posição deveria ser encarada como elogio, uma vez que eles possuem físico e força para isso. Faça uma lista dos top 5 de WR e RB. A maior parte vão ser negros.
    Porque não sugerem que QBs brancos joguem de WR? Simples, porque eles não tem estrutura física para isso.
    Não estou falando que não existe racismo, infelizmente na NFL assim como no mundo ainda existe racismo, mas neste caso, acho mais questão de o físico possibilitar ele tentar jogar em uma posição que teria mais sucesso.

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