Série Tática – Spread Offense

22 de fevereiro de 2016
Tags: spread offense, tática, tiago araruna,

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Estilo de ataque que surgiu no College, onde foi aperfeiçoado por caras como Urban Meyer e Chip Kelly. Como o próprio nome diz, a Spread Offense visa espalhar as armas ofensivas para abrir a defesa adversária e para isso normalmente faz uso de 3 ou 4 recebedores, um RB e um QB versátil – em formação shotgun – capaz de realizar a Read Option. O “No Huddle” costuma ser empregado nesse esquema.

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O sistema defensivo que enfrenta esse tipo de ataque precisa saber marcar homem a homem, ir para a Blitz sem se expor demais, inclusive chamando Zone Blitzes e nunca deixando de cobrir as rotas curtas e passes rápidos. É notório que o jogo terrestre funciona muito bem nos times que adotam a Spread Offense e muitos atribuem isso ao fato de ela permitir que não haja ninguém na sobra, todos no um contra um. Porém é algo que vai mais além do que assegurar o um contra um. Quando bem executada, o esquema que é tema dessa coluna dá o poder de decisão ao ataque sobre o que deseja fazer a cada jogada. Mas como isso é possível? Vejamos.

Se a defesa joga com 2 safeties recuados (para fazer com que isso aconteça o ataque precisa usar constraint plays como a bubble screen. Leia mais aqui – na seção olho tático – sobre elas), o ataque tem a vantagem numérica para correr com a bola, pois se ela tem sempre um na sobra para derrubar o RB, quando o QB também é uma ameaça por terra, terá problemas para ter jogadores suficientes para lidar com os bloqueadores (OL), corredor (RB) e com aquele que pode surpreender na corrida (QB). Imagine uma jogada em que haja 3 recebedores abertos, 5 OL, um TE, um RB e um QB, o grupo defensivo teria 3 CBs e 2 Ss preocupados com o jogo aéreo – Safeties no fundo do campo – e apenas 6 jogadores na linha de frente somando linha defensiva e LBs, o que resultaria em 6 x 6 (5 OL + TE), ou seja, um contra um e o RB ou QB livre para decidirem quem corre e por onde.

Caso a defesa use Single High Safety, onde apenas um Safety fica recuado (no caso o Free Safety), ainda assim é possível garantir a vantagem do um contra um e, mais que isso, o poder de decisão. Observe a imagem abaixo:

spread

Legenda de siglas:

NB = Nickelback
CB = Cornerback
SS = Strong Safety
FS = Free Safety
E = Edge Rusher (Defensive End no caso)
T = Defensive Tackle
B = Linebacker
QB = Quarterback

Claramente vemos na figura acima  o Edge (“E” circulado) anulado pela Read Option, completamente paralisado apenas por não saber quem vai correr: RB ou QB. Note que há 6 jogadores de defesa no box contra 5 da linha ofensiva (justamente por estarem apenas com um Safety recuado – o FS – e com o Strong Safety marcando um recebedor) e mesmo assim isso não dá a vantagem numérica à defesa porque o Edge circulado é anulado pela indecisão de ir atrás do Signal Caller ou do corredor e nem sequer precisa ser bloqueado, mantendo o ataque no um contra um nos bloqueios. Isso permite que o quarto recebedor esteja na jogada e não haja a necessidade de usar um TE ou Fullback para auxiliar a linha ofensiva. Dependendo da direção que o Edge corra, o QB fica com a bola ou entrega para seu Running Back, impossibilitando qualquer ação do pass rusher.

Nos lances em que sejam alinhados 3 recebedores, um TE e um RB e a defesa posicione apenas um Safety recuado e o outro no box (diferente do lance anterior onde o SS cobria o quarto recebedor, aqui são apenas 3, então ele fica no box com os Linebackers), o sistema ofensivo pode optar por um passe explorando a cobertura mano a mano com rub routes ou scissor routes (leia o texto sobre rotas dos recebedores aqui). Isso porque teríamos 7 no box (6 do front seven mais o Strong Safety), 3 CBs e o FS ao fundo, o que provocaria um 7 contra 7, novamente um contra um se o ataque utilizar os 5 OL, TE e RB no bloqueio, podendo ainda mandar o RB ou o TE em uma rota para tirar o SS do box.

Os técnicos que mais utilizam a Spread Offense gostam que as jogadas sejam executadas por meio do no huddle, o que dificulta ainda mais o posicionamento defensivo para parar tantas alternativas que o esquema coloca na mesa.  Contra Off Coverage – em que o CB fica distante do recebedor -, é comum que explore-se as rotas curtas enquanto que diante de press coverage (CBs colados nos recebedores na linha de scrimmage), o alinhamento dos recebedores é chave para ganhar separação com uma rub route ou scissors route já citadas, por exemplo.

O esquema também permite o uso da Triple Option que consagrou Tim Tebow no College. Com a intenção de congelar o defensor desbloqueado, nessa jogada, além da opção de correr com o QB ou com o RB, há ainda uma terceira hipótese: Shovel Pass (lembra um passe de basquete mas com uma mão) para o TE ou RB pelo meio.

É extremamente difícil defender a Spread Offense e isso explica seu sucesso no College e o motivo de estar sendo cada vez mais utilizada no playbook de diversos times da NFL. Para que seja possível parar as jogadas aéreas no mano a mano, se proteger contra read e até triple option, é necessário um jogador como “spy”, que fique responsável apenas por perseguir o QB caso mantenha a posse da bola para correr, sem contar uma defesa consideravelmente atlética e fisicamente preparada, pronta para se defender de uma lateral à outra já que esse sistema espalha os vários recebedores. Pode parecer simples na teoria, no entanto acaba sendo uma tarefa árdua na prática já que o atleta que está como “spy” precisa ser bastante versátil para conseguir derrubar o QB em suas corridas e ter agilidade e habilidade suficientes para se reposicionar e cobrir algum recebedor em caso de passe. Seja no College como base principal do ataque de inúmeros times ou apenas como uma parte do playbook das equipes da NFL, a Spread Offense impulsionou vários jogadores ao longo dos anos e veio para ficar também na liga profissional.

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Tiago Araruna acompanha a NFL desde 2006 e é o idealizador do projeto Liga dos 32. Como Editor-Chefe do Portal, está à frente da coluna semanal 32 por 32, toda quinta no ar. Co-apresentador do Podcast Liga dos 32 que vai ao ar às quartas . No twitter: @tiagoararuna