segunda-feira, 5 de Fevereiro de 2018

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Em uma noite que recordes dos mais variados tipos foram pulverizados e a expectativa de um jogo normal da NFL foi jogada pela janela nos primeiros minutos, Philadelphia Eagles e New England Patriots nos brindaram com um jogo que com certeza ficará para sempre na vanguarda do esporte. Por praticamente quatro horas, todos os fãs da bola oval pelo mundo (e quem não é também), permaneceram com os olhos vidrados na TV, acompanhando incrédulos o desenrolar de um jogo que colocou frente a frente os dois melhores times da temporada regular de 2017, e o resultado deste embate não poderia ser diferente do status de “clássico instantâneo” que a partida ganhou. Vivemos em uma época de ouro, em que somos brindados com vários Super Bowls decididos no último lance com requintes de emoção e crueldade, e o Super Bowl LII não poderia ser diferente.

No melhor estilo de tiroteio texano, Eagles e Patriots trocaram balas por quatro períodos, separados apenas por uma apresentação do astro Justin Timberlake entre eles. No final, bastou uma ótima jogada defensiva para praticamente selar a vitória, embora uma tentativa desesperada e improvável de vitória tenha passado nas mãos do maior TE da história, que aliás não garantiu presença na próxima temporada. No final das contas, o Eagles finalmente conquista seu título e o fez em grande estilo, afinal, precisaram passar pela dupla Brady e Belichick para conseguirem tal fato, um feito e tanto para um HC em sua segunda temporada que contava com o Quarterback reserva desde a parte final da temporada regular.

Confira um pouco de como o Eagles finalmente saiu da fila e conquistou seu primeiro título na era Super Bowl (1970 para cá).

  • Começo de jogo. Eagles a 100km/h e o Patriots nem tanto

Como parece ser tradicional dentro da finalíssima do futebol americano, o Patriots não começou muito bem. A primeira posse foi do Eagles e com um plano de jogo muito bem definido: corridas com o RB Jay Ajayi e passes curtos de Foles para Agholor e Jeffery a equipe foi capaz de marchar para o território do Patriots mas no melhor estilo New England, pararam perto da linha de gol e o resultado foi um chute curto do K Jake Elliott.

O time de Brady respondeu na mesma moeda na campanha seguinte e com o placar empatado, começamos a ver o quão especial seria a noite para o QB Nick Foles, outrora renegado e dispensado do então Saint Louis Rams: uma bomba de 34 jardas para o WR Alshon Jeffery que terminou no primeiro dos vários TDs da noite e deu a liderança para o time da Pensilvânia já na parte final do primeiro quarto.

  • Batalha das “trick-plays”

Em um jogo tão crítico como o Super Bowl, esperamos o melhor de cada time, isto é, jogadas bem desenhadas, que representam fielmente a importância deste confronto para cada atleta e membro da comissão técnica, em que não há espaço para erros e muito menos tentativas de surpreender o oponente com formações pouco ortodoxas e jogadas pouco vistas, correto? Errado! Uma estatística que mostra o quão maluco foi o embate de ontem é que tivemos o mesmo número de passes lançados para Quarterbacks que a soma de punts e sacks (foram dois).

No começo do segundo quarto, em uma terceira descida para cinco jardas já no território do Eagles, Josh McDaniels (coordenador ofensivo do Patriots), chamou uma jogada no mínimo peculiar: o WR Danny Amendola recebeu a bola após uma reversão e tinha Brady completamente livre da marcação, mas o passe foi um pouco mais alto que o necessário e o QB não conseguiu fazer a recepção, com a bola passando entre seus dedos. Desde 2001 (quando entrou na NFL), Brady recebeu um total de dois passes, sendo a tentativa de ontem apenas a terceira em dezessete anos, algo totalmente inesperado, mas uma previsão do que estava para acontecer.

Se estivéssemos em um desenho animado, naquele momento teria surgido uma lâmpada na cabeça do HC do Eagles, Doug Pederson. Nos instantes finais do segundo quarto, numa quarta descida na linha de uma jarda do campo de ataque e o placar de 15 x 12 para o Eagles após TDs terrestres de LeGarrete Blount (Eagles) e James White (Patriots), Pedersen e o OC Frank Reich foram ousados ao chamar uma jogada praticamente igual à que o Patriots tentou anteriormente, com o TE Trey Burton sendo a figura responsável pela tentativa de passe. O snap foi feito diretamente para o RB, que fez a reversão para Burton encontrar Foles completamente livre dentro da end zone para anotar o TD, que colocou o placar de 22 x 12 para os azarões indo para o intervalo. Vale destacar que a recepção de Foles marcou algo inédito na história da liga: pela primeira vez um jogador pontua passando e recebendo a bola para um Touchdown em um Super Bowl. Burton foi um Quarterback atuando no colegial e quando perguntado sobre a chamada, Pederson foi enfático: “marchamos todo o campo e não íamos parar ali na linha de gol.”

  • Patriots encosta no placar após a aparição de Justin Timberlake (e do Prince)

Uma figura totalmente nula na primeira metade do jogo a do TE Rob Gronkowski, principal arma ofensiva do Patriots, e porque não de toda a NFL. Já na primeira campanha após o intervalo vimos o quão perigoso é Gronk, afinal, de seis passes completos de Brady, cinco foram para o veterano TE incluindo a recepção para TD frente a um desesperado Ronald Darby que nada pode fazer frente à vantagem física do rival.

A partir daquele momento, os times trocaram pontuações de maneira mais incisiva dentro do embate. Um passe cirúrgico de Foles para o RB Corey Clement (em que há dúvidas sobre o controle de bola do jovem RB dentro da end zone) foi a forma que o Eagles respondeu ao TD de Gronk, apenas para Brady conectar Chris Hogan na campanha seguinte e após o ponto extra, o placar já estava em 29 x 26 para o Eagles com pouco mais de 18 minutos de futebol por jogar na atual temporada.

Parecia o mesmo cenário do colapso monumental do Atlanta Falcons no Super Bowl LI na última temporada: o Patriots se encontra dentro do embate e passa a dominar todas as ações. De fato o time pressionou mais o QB Nick Foles na segunda metade, mas não impediu o ex-jogador de Rams e Chiefs de continuar conectando seus recebedores de forma sólida para grandes ganhos territoriais. Parecia que ele estava predestinado a vencer a partida, e aí veio o quarto período.

  • Os derradeiros quinze minutos finais foram uma prova da troca de poder na NFL

Um filme que me veio na cabeça ao assistir o último período foi Estrada para a Glória. Se ainda não assistiu, é uma ótima dica. Conta a história de um time de basquete do estado do Texas que, sem alternativa de recrutamento, convoca diversos jogadores negros para formarem o time em pleno ano de 1966, o auge das tensões raciais no estado. De fato, o título da universidade no Final Four daquele ano é considerado uma das maiores zebras da história do esporte nos EUA, e uma passagem contada no livro (e no filme), é um discurso motivacional do então técnico Don Haskins:

“Acha que vão nos entregar de bandeja só porque achamos que merecemos? Às vezes na vida temos que ir lá e tirar a força aquilo que queremos. É isso que devemos fazer.”

Foi o que o Eagles fez. Atrás do placar pela primeira vez no confronto após outro TD de Gronkowski, vimos uma campanha primorosa do QB Nick Foles, com direito a uma conversão de quarta descida crucial já bem próximo da metade do campo. Quem diria que Foles e Pederson, que somados não tem o mesmo número de vitórias na carreira (somando temporada regular e playoffs) que a dupla Brady e Bill Belichick tem apenas na pós-temporada, iriam encontrar vida fácil na obtenção da glória? Foles, outrora renegado e que quase se aposentou após perder a paixão pelo esporte durante sua estadia e posterior dispensa do Rams foi capaz de engatar um campanha de sete minutos que terminou no TD de Zach Ertz, que deu a vantagem de 38 x 33 com pouco mais de dois minutos por jogar na temporada, e deixou com sua defesa para uma última campanha com ares de tensão.

  • A defesa (finalmente) apareceu no Super Bowl

Sabe todo o papo de ir lá e arrancar a força? Foi uma introdução para o que aconteceu aqui. Tom Brady, dono de onze campanhas da vitória na pós-temporada (maior marca da história) se colocava em posição de conseguir a 12ª, um de seus mais variados recordes de uma carreira colossal para o veteraníssimo de 40 anos e atual MVP da temporada regular. Mas a unidade defensiva comandada por Jim Schwartz tinha outros planos.

No Super Bowl que quebrou o recorde de jardas totais na história de qualquer partida (1135) estava óbvio que seria uma jogada da defesa que iria definir o embate, e foi o que aconteceu. Brady, pouco pressionado durante toda a noite simplesmente não viu a aproximação do DE Brandon Graham, capaz de dar um tapa na bola quando o QB fazia a mecânica para lançar. O calouro LB Derek Barnett foi o responsável pela recuperação do fumble no único sack dentro do jogo, que praticamente selou a vitória dos então azarões, mas parece que estavam acostumados com este fardo após perderem seu melhor jogador na reta final da temporada, o QB Carson Wentz.

Elliott chutaria outro FG e Brady tentaria uma última campanha desesperada, mas o tempo já se extirpava do relógio e foi questão de minutos até o Eagles bloquear uma tentativa de hail mary nos segundos finais para enfim poder soltar seu grito de campeão, entalado na garanta há décadas.

Placar final: Philadelphia Eagles 41 x 33 New England Patriots

No equilíbrio de forças que a conferência nacional se tornou, o Eagles é o último time a desafiar os reis da AFC e conseguir alcançar a glória maior do esporte. Agora, resta apenas comemorar esta conquista e posteriormente se preparar para o tour de defesa do campeonato que começará na parte final deste ano, provavelmente com Carson Wentz no comando. O trabalho de Doug Pederson é louvável pois em apenas dois anos, tirou o time de uma fila que durava quase 60.

Para o Patriots, resta a decepção e a certeza que a NFC Leste é um verdadeiro carrasco na vida de Brady e cia. Afinal, nem as 505 jardas aéreas (quebrando seu próprio recorde nesta partida) e 3 TDs de Brady foram capazes de trazer a vitória e o posterior sexto título da franquia, que a colocaria em igualdade com o Pittsburgh Steelers como o maior vencedor desde 1970. Em vez disso, o recorde do time contra esta divisão no principal jogo da temporada caiu para 1-4, graças também às duas derrotas para o New York Giants comandado por Eli Manning.


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