segunda-feira, 14 de março de 2016

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domingo nobre - L32

Lembranças de um tempo (recente) em que o Oakland Raiders fazia apenas figuração na NFL, com péssimos QBs, comissão técnica fraca, um elenco de apoio muito limitado e um GM que fazia loucuras no Draft parecem ser apenas resquícios de um passado distante agora. Isto porque o time que não vai aos Playoffs (ou sequer tem uma campanha acima dos 50% de aproveitamento) desde a temporada de 2001 vem de uma temporada sólida – a primeira sob o comando do HC Jack Del Rio – que parece ser um presságio de tempos melhores para a franquia da Califórnia.

Sei que é cedo, afinal estamos na primeira semana do “ano novo” da NFL, mas as expectativas criadas sobre a equipe estão altas após três grandes contratações na Free Agency, que demonstram a vontade de vencer agora, já que boatos de uma possível realocação podem ser abafados caso o bom desempenho atraia novamente os olhos da torcida para o Raiders.

Tudo (re)começou em 2011, quando o falecimento do saudoso Al Davis abriu a vaga de GM para os tempos que seguiriam. Se por um lado Davis é uma figura lendária dentro da NFL, tendo contribuído para a difusão da Liga por décadas, por outro lado suas contratações na Free Agency e, principalmente, suas ações no Draft durante seus últimos anos à frente do Raiders eram no mínimo questionáveis, podendo ser citados como um dos motivos do fracasso da equipe neste século. Reggie McKenzie assumiu o cargo para a temporada de 2012 e herdou um time limitado, com vários contratos exorbitantes para os próximos anos e com pouquíssimas escolhas no Draft (graças a várias trocas feitas pela antiga direção), passando sua primeira temporada “limpando a casa” e preparando o terreno para reerguer a equipe.

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A limpeza começou em 2013, quando começou a se livrar de contratos altíssimos de jogadores questionáveis. McKenzie teve peito e dispensou diversos atletas durante a intertemporada: Richard Seymour, Michael Huff, Tommy Kelly, Rolando McClain e Darrius Heyward-Bey foram alguns dos dispensados, que abriram um bom valor no teto salarial da equipe, mas ainda faltava alguma coisa. Após apenas oito vitórias nas duas primeiras temporadas do novo GM, ele sabia que precisava acertar no Draft de 2014, e é aí que entra o primeiro tópico da reconstrução do Oakland Raiders.

DRAFT de 2014

Pressionado pelo pouco sucesso à frente do time, McKenzie teve no Draft de 2014 sua primeira oportunidade de comandar o time no recrutamento anual da NFL munido de todas as suas escolhas originais, e a torcida não poderia sonhar com sucesso maior. Com a quinta escolha geral, o Raiders selecionou o LB Khalil Mack, oriundo da pequena universidade de Buffalo, mas o antes prospecto de duas estrelas saindo do colegial simplesmente dominou o NFL Combine e chamou a atenção do mundo da NFL para si. Foi o suficiente para McKenzie ter a certeza que o jovem seria o pilar da defesa no presente e futuro. Rapidamente ele se tornou o primeiro jogador da história a ser eleito para o time All-Pro da NFL em duas posições diferentes na mesma temporada, e seus 15 sacks na temporada regular de 2015 (incluindo cinco numa mesma partida contra o Denver Broncos) só foram superados por JJ Watt, do Houston Texans.

Mas a grande escolha de McKenzie veio no começo da segunda rodada daquele Draft. Desde a saída de Rich Gannon em 2002, o Oakland Raiders sofria para achar um jogador que transparecesse a mínima confiança na posição de QB, e numa classe onde os nomes de Teddy Bridgewater e Johnny Manziel atraíam as atenções, o General Manager se prendeu num jogador cujo histórico familiar na NFL não era muito animador, mas que teve temporadas gloriosas em Fresno State, e era tido como um protótipo de QB para a NFL: Derek Carr. Duas temporadas depois, apenas Dan Marino lançou mais TDs que os 53 dele na história da NFL para um jogador em suas primeiras 2 temporadas como profissional, um início realmente animador do atleta.

As duas escolhas se provaram muito válidas até agora. Mais do que isso, são os verdadeiros alicerces do ataque e da defesa, peças para se apoiar e montar um time voltado aos dois jogadores, e foi exatamente o próximo passo de McKenzie.

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FREE AGENCY de 2014

Dinastias são construídas através do Draft. A capacidade de dedução e pesquisa sobre os prospectos representam a verdadeira alma de um time vencedor na NFL. Com uma base muito jovem – e promissora -, McKenzie observou na Free Agency a oportunidade de cercar os jovens de jogadores veteranos, que proveriam suporte para o elenco e mais, poderiam absorver para si as possíveis críticas sobre a equipe, blindando os mais novos da pressão que é jogar por uma franquia que há tanto tempo almeja mais que oito vitórias em uma temporada – número comum para muitos times da liga. Com esse pensamento, o Raiders assinou com o DE Justin Tuck e o LT Donald Penn, além de promover a volta do CB Charles Woodson, jogadores veteranos, mas que ainda rendiam dentro da NFL e que ajudaram muito na evolução dos mais novos.

Porém, a comissão técnica ainda era limitada. Dennis Allen não tinha a experiência necessária para comandar a equipe e foi demitido depois de quatro derrotas para abrir a temporada. Tony Sparano assumiu o comando interinamente pelo resto do ano, e só foi vencer um jogo na semana 12, após 10 derrotas consecutivas. Saindo vitoriosos em apenas três jogos, McKenzie sabia que era a hora de trazer um técnico capaz de levar o time ao próximo patamar.

JACK DEL RIO ASSUME O COMANDO      

Cincinnati Bengals v Oakland Raiders

Com vários anos de experiência como técnico do Jacksonville Jaguars e uma boa passagem como coordenador defensivo do Denver Broncos, Del Rio assumiu o cargo de HC para a temporada de 2015. Trouxe com ele Bill Musgrave para comandar o ataque e Ken Norton Jr, então técnico de LBs do Seattle Seahawks, para coordenar a unidade defensiva. O Draft também foi de grande valia para a equipe, já que o WR Amari Cooper, selecionado na primeira rodada, liderou todos os calouros com 72 recepções e 1.070 jardas, mesmo lidando com marcações duplas durante a maioria das jogadas. Após anos apenas cumprindo tabela na última parte da temporada, o Raiders chegaria à semana 15 com possibilidades matemáticas de classificação para os Playoffs, mas a derrota em casa para o Green Bay Packers extirpou as chances do time em quebrar o tabu de ausência na pós temporada, porém isso não destruiu o que está sendo construído.

CENÁRIO PARA 2016

Munido de um elenco talentoso (foram seis jogadores eleitos para o Pro Bowl) e mais de U$50 milhões de espaço no teto salarial, era tempo de McKenzie provar que o Raiders vem para competir imediatamente, mesmo com o atual campeão do Super Bowl e um time que emendou 11 vitórias consecutivas atuando na mesma divisão.

Quando uma franquia solidifica a posição de QB, um mundo de possibilidades se abre para o planejamento e montagem da equipe. O Raiders tem em Derek Carr a figura de não apenas seu QB para o futuro, pois o talentoso jogador provou que é o cara para comandar Oakland no presente, terminando a temporada de 2015 com 3972 jardas aéreas, 32 TDs e apenas 13 interceptações lançadas. Um QB jovem e talentoso é um verdadeiro ímã de free agents, que se animam com a possibilidade de evolução do jogador que elevou seu status para um dos grandes QBs jovens e candidato à futura face da NFL. Desta vez, McKenzie não está atrás de jogadores em fim de carreira para apoiar os mais novos, mas num passo ambicioso, contratou – e contratará – jogadores no meio de suas carreiras, com possibilidade de evolução num cenário de futuro próximo, mas que também já demonstraram serem titulares sólidos em seus times anteriores. Claro que isto tem um custo financeiro maior, além de elevar as expectativas sobre a equipe, mas é também o próximo passo de um time que almeja se livrar de alcunha de “coitado”, e realmente impor respeito ao adversário, fato este definido como o principal objetivo do HC Jack Del Rio em sua primeira entrevista no cargo.

Por enquanto são três jogadores deste calibre. O LB Bruce Irvin surpreendeu a todos ao preferir assinar com o Oakland Raiders, quando o Arizona Cardinals foi reportado como o provável destino do ex-jogador do Seahawks.

Pessoalmente, acredito que a contratação foi um fit perfeito. Irvin é um jogador que passou as três primeiras temporadas sob o comando de Norton Jr em Seattle, porém mesmo sendo um pass-rusher puro, muitas vezes era deslocado para a cobertura em zona, pela qualidade de jogadores defensivos de Seattle, indo para cima do QB quase que exclusivamente em situações de blitz. Mesmo assim, o LB compilou 17 sacks e pancadas na última temporada, o que é a oitava melhor marca entre LBs (seu novo companheiro Khalil Mack foi o segundo com 24). Falando nele, Mack deve estar muito feliz por esta contratação, já que fora ele, o Raiders pecou em pressionar com consistência o QB adversário, sendo o MLB Malcolm Smith o segundo colocado do time em sacks, com apenas quatro – foram 15 de Mack em 2015. Irvin deve dividir as atenções da linha ofensiva e formará com ele uma ótima – e jovem – dupla de pass-rushers, além de serem atléticos para combater o jogo corrido.

Kelechi Osemele trocou o Baltimore Ravens pelo Oakland Raiders, e mesmo a contratação de OLs não sendo muito atraente para a torcida, o versátil jogador é uma rocha na abertura de espaços para o jogo corrido, simplesmente atropelando qualquer coisa que esteja usando um capacete em sua frente. Capaz de jogar de Guard e Tackle, abre um leque de possibilidades para a formação da linha ofensiva do time em 2016. O LT Donald Penn é free agent, mas deixa claro que sua prioridade é retornar para a equipe e, caso isto ocorra, Osemele poderá jogar como RT e solidificar o desempenho na posição. Por outro lado, com um salário de quase U$12 milhões por temporada, é esperado que ele assuma a posição de LT num futuro próximo, o que formaria com o LG Gabe Jackson uma das duplas mais físicas e intimidadoras de toda a NFL.

Chegou também o CB Sean Smith, que deixou o rival Kansas City Chiefs e foi para o Raiders. Outra peça muito interessante para a defesa, desta vez a secundária, tendo em vista que o atleta proverá solidez na posição de CB, que sofreu na temporada passada com a falta de um companheiro para o decente TJ Carrie, após DJ Hayden, selecionado na 12ª escolha geral do Draft de 2013, falhar em cumprir as expectativas carregadas sobre ele. Prova da regularidade de Smith é que ele é o único jogador em atividade que tem sete temporadas consecutivas permitindo menos de 60% de passes completos lançados em sua direção, ou seja, o contrato de U$40 milhões a serem pagos nas próximas quatro temporadas valerá a pena, caso o veterano CB mantenha o desempenho de temporadas passadas.

Porém o Raiders parece não estar satisfeito com o ótimo papel desempenhado na free agency até agora: o LB Bruce Irvin trabalha como um recrutador, tentando convencer o S Eric Weddle para assinar com a equipe após várias temporadas no rival San Diego Chargers. A equipe demonstra certo interesse no veterano DB, que num sinal ao mínimo intrigante, começou a seguir vários jogadores de Oakland em uma plataforma online de relacionamentos desde a abertura da janela de transferências. O jogador, que daria preferência para assinar com um contender, pode sim continuar na Califórnia, e ao preço certo seria um belo substituto para Charles Woodson, que se aposentou mesmo dizendo se sentir fisicamente bem para jogar no mínimo mais duas temporadas.

O Oakland Raiders não é favorito ao troféu Vince Lombardi, nem sequer abrirá a temporada como o favorito na sua divisão, mas a torcida que convivia com temporadas de ostracismo num passado próximo não está minimamente preocupada com isso. Fato é que Del Rio começa a cumprir a promessa feita em sua entrevista de introdução ao cargo de HC, ao comentar que construiria um time que trouxesse orgulho para a cidade e faria os adversários terem medo ao olhar o calendário e ver que uma viagem ao Black Hole do Coliseum os aguarda. Bom, eu não duvidaria disso.

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