Chapecoense e Marshall: O esporte além do campo

1 de dezembro de 2016
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32 por 32 - L32

Obs: Quem acompanha a coluna 32 por 32 sabe que ela trata principalmente da parte tática do esporte a cada semana (além da análise da rodada e curiosidades). Porém, diante da tragédia dessa semana, resolvemos abordar tal tema.


14 de Novembro de 1970.

O time de futebol americano da Marshall University, através de 37 de seus membros, estava presente no voo 932 da Southern Airways que os levaria para casa após um duelo contra East Carolina. A queda do avião aconteceu porque ele desceu mais do que deveria buscando se aproximar e fazer a manobra para iniciar a aterrissagem, mas o motivo que levou os pilotos a perder mais altura do que o recomendado nunca foi determinado. Suspeita-se de defeito no altímetro que enganou a tripulação que jamais havia voado para aquele aeroporto. Todas as 75 pessoas a bordo vieram a falecer.

A Universidade está localizada em Huntington (West Virginia) que é uma cidade de aproximadamente 50 mil habitantes e, claro, na década de 70 esse número era ainda menor. Sendo assim, toda aquela comunidade vivia e respirava o time de futebol americano universitário. Os jogadores eram ídolos das famílias, verdadeiras celebridades locais e os grandes responsáveis pelos melhores momentos de lazer de milhares de pessoas em dias de jogos. É assim que funciona com o futebol americano universitário – a ligação entre os times e a cidade é muitas vezes mais forte que os laços entre os times profissionais e seus torcedores, isso porque muitos daqueles que estão na arquibancada torcendo estudam com um ou mais jogadores e convivem com eles no campus.

Além disso, várias dessas cidades que abrigam times universitários são pequenas, todo mundo se vê o tempo todo e as famílias dos jogadores e da população em geral se conhecem. Foi a tragédia mais impactante envolvendo um time de qualquer esporte americano dentro do território dos Estados Unidos. “Somos Marshall” é um filme excelente que conta justamente essa história, inclusive o recomendamos em nossa lista de 10 filmes sobre futebol americano.

29 de Novembro de 2016.

No início do dia, ainda de madrugada, sumiu do mapa o avião que levava todo o elenco da Chapecoense, sua comissão técnica e jornalistas brasileiros que iriam cobrir a grande decisão. O voo 2933 operado pela LaMia tinha a bordo 77 pessoas, dentre as quais 6 delas sobreviveram. O time da Chapecoense saiu da série D para a série A em apenas sete anos, era elogiado por ser bem administrado. por contar com uma diretoria competente e estava no auge de sua história, prestes a disputar a final da Copa Sul-Americana contra o Atlético Nacional, da Colômbia.

Era um momento mágico, a cereja no bolo de um time modesto, sem muito nome, mas que estava sendo premiado pelo ótimo trabalho realizado nos últimos anos. Assim como Huntington, Chapecó é uma cidade pequena de pouco mais de 200 mil habitantes e vive o Chapecoense da mesma maneira que a cidade americana se mistura com o time da Marshall University. O clima entre os seus habitantes era de uma alegria contagiante graças ao conto de fadas que estavam vivendo ao descobrir que era possível acreditar que uma pequena cidade de Santa Catarina pudesse ter um time competitivo a ponto de esse estar prestes a vencer um título internacional.

Existem muitas semelhanças entre as duas tragédias. Dois times de cidade pequena que foram dizimados por uma queda de avião e, a partir disso, receberam toda a solidariedade e ofertas de ajuda por parte de times, NCAA, CBF etc. Sabemos que Marshall se reconstruiu, buscou forças para ressurgir das cinzas, literalmente, e se sagrou campeão da FCS em 1992 e 1996, além de ter vencido 10 dos 13 Bowls universitários que disputou até hoje. Inúmeras pessoas torcem por essa universidade devido ao acontecido, inclusive diversos brasileiros. O futuro da Chapecoense ainda será escrito, mas se tem uma coisa que aprendemos com eles é que ninguém jamais pode duvidar daquilo que a Chapecoense e sua torcida são capazes de fazer.

A lição de humanidade que o esporte mais uma vez dá ao mundo e serve como exemplo em situações como essa nos faz questionar a ideia que alguns têm de que esportes – quaisquer que sejam eles – são uma perda de tempo. Eles têm o poder de unir completos estranhos até em partes diferentes do mundo e despertar o que há de melhor nas pessoas, superando inclusive “barreiras” como a língua, classe social ou credo. Esse tipo de tragédia obviamente atravessa os campos, o âmbito esportivo e termina por descansar na eternidade da lembrança de tudo aquilo que foi construído pelos envolvidos. E esquecer um dia o que aconteceu seria matar novamente todas as pessoas que estavam no voo 2933 porque elas irão viver enquanto sua memória estiver sendo lembrada através de homenagens e/ou orações, algo que certamente acontecerá por muito tempo por parte das famílias e da hoje imensa torcida do clube.

marshall

Mensagem da cidade de Huntington e da Universidade Marshall à cidade de Chapecó e torcedores da Chapecoense

O que a Chapecoense fez esse ano merecia mais do que uma estrela no peito como recompensa. O time ganhou milhões de torcedores, marcou a história e colocou 71 estrelas no céu. A memória daqueles que não sobreviveram jamais se apagará e para sempre serão lembrados no coração de quem ama a Chapecoense, de quem ama esportes ou simplesmente de quem é humano.

Em vida, essas pessoas deram a milhares de torcedores a alegria de vitórias no futebol. Em morte, elas deram a milhões no mundo todo a esperança para acreditar que ainda podemos viver em um mundo mais bonito e solidário.

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Tiago Araruna acompanha a NFL desde 2006 e é o idealizador do projeto Liga dos 32. Como Editor-Chefe do Portal, está à frente da coluna semanal 32 por 32, toda quinta no ar. Co-apresentador do Podcast Liga dos 32 que vai ao ar às quartas . No twitter: @tiagoararuna