quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

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É comum ler o argumento sobre o “fracasso” no Browns por parte daqueles que tentam diminuir o tamanho de Bill Belichick. Costumam citar que o lendário treinador só teve uma temporada com mais vitórias que derrotas no comando em Cleveland, o que é uma análise muito superficial diante do que acontecia na franquia na época. Bill já era um gênio muito antes de Tom Brady sonhar em entrar na NFL.

Ao chegar no Browns, ele percebeu que o sistema de scouting era falho. Os scouts não falavam a mesma língua e não havia uma identidade definida sobre que tipo de time eles queriam ser. Seu primeiro objetivo foi desenvolver um sistema que avaliasse jogadores no college e no profissional para que todos dentro da organização entendessem imediatamente ao ler a análise se ele poderia ajudar ou não a equipe. Belichick queria um time forte, alto e rápido que pudesse jogar em qualquer tipo de clima, pois precisava ter condições de vencer 8 jogos em seu estádio aberto e, pelo menos, mais dois contra os rivais de divisão Steelers e Bengals que também contavam com estádios sem cobertura.

Todavia, Mike Lombardi, diretor de pessoal do Cleveland Browns, não recebeu tão abertamente assim as ideias de Belichick. Ele discordava em vários pontos e mesmo em relação àqueles que ele gostava, não tinha intenção de mudar o sistema de avaliação da franquia da noite pro dia.

Outra ideia que o atual técnico do Patriots tinha era de trazer jovens com muita vontade de fazer carreira dentro do esporte para cargos menores dentro do Browns e fazer com que crescessem lá dentro já sendo “educados” pelo sistema que ele idealizava. Era difícil fazer com que scouts veteranos mudassem significativamente a forma de avaliar jogadores, então ele contaria com a experiência deles, mas ao mesmo tempo iria treinando vários jovens promissores na arte de achar talentos para uma equipe. Se um recém-contratado ia bem, ele recebia mais tarefas e assim sucessivamente até achar seu lugar dentro da franquia.

Quando Bill Belichick chegou ao Cleveland Browns em 1991, o time vinha de uma temporada com apenas 3 vitórias (campanha 3-13). Após a chegada do treinador, o número de vitórias dobrou no seu primeiro ano no comando. Foi justamente nesse período que Scott Pioli, uma peça importante na carreira de Bill, chegaria para trabalhar com ele vindo de Murray State, onde era técnico da linha defensiva. Eles se conheceram quando Belichick estava no Giants como coordenador defensivo e Pioli era um atleta universitário de futebol americano que já sonhava em ser treinador.

Assim, todo dia ele saía de sua cidade até Nova York (cerca de 200 km de distância) para ver os treinos do Giants e quando Bill soube disso, convidou-o para dormir nas instalações do time. Essa foi uma atitude que fez de Pioli eternamente grato a ele, já que Belichick não tinha absolutamente nada a ganhar por ajudá-lo. Tanto que quando o Browns fez uma oferta por ele, nem sequer ouviu a proposta do San Francisco 49ers. Queria trabalhar e retribuir o que Bill Belichick havia feito por ele.

O então treinador do Cleveland Browns tratou Pioli como todos os demais jovens que eram contratados: “trabalhe bem e receba mais coisas para fazer”. Scott era viciado em trabalho, então não demorou muito para que ele conquistasse Belichick. O staff da franquia contava com futuras estrelas como Nick Saban (técnico de Alabama) e Ozzie Newsome (GM do Baltimore Ravens). Isso sem falar em Bill e no próprio Pioli.

Na segunda temporada de Belichick por lá, o Browns terminou 7-9 e a torcida já demonstrava uma certa impaciência porque acreditava que a equipe não era para estar tão distante dos melhores times da NFL naquele momento. O segundo grande problema do head coach em Cleveland – o primeiro foi com Mike Lombardi que limitou o sistema que ele queria implantar – se deu com Bernie Kosar, o então titular na posição de quarterback. Ele era adorado pela torcida por ter nascido na região e ter dito quando ainda estava na Universidade que queria ser um jogador do Browns. Acontece que Bill não via nele o quarterback que ele queria para a franquia e, apesar de considerá-lo um líder, achava que tinha cada vez mais limitações físicas.

Para Belichick, não foi por acaso que o Browns teve uma campanha 3-13 na temporada anterior à sua chegada. Ele desejava mudar a identidade da equipe, o sistema de scouting e, claro, o quarterback titular. Mexer com um ídolo local amado pela torcida não é uma coisa tão simples. Em caso de fracasso ao fazer essa mudança, o técnico vira um alvo fácil.

Em 1992, a situação melhorou para Cleveland em termos de mercado. Um juiz federal determinou que a Free Agency da NFL era ilegal no modelo que vinha sendo executada. Os times mantinham direitos sobre 37 dos seus 45 jogadores, mesmo que seus contratos já estivessem vencidos, o que dificultava a vida dos times mais fracos na tentativa de conseguir bons nomes para o seu elenco. A principal contratação do time em 1993 foi o QB Vinny Testaverde que havia sido o reserva de Bernie Kosar na Universidade de Miami. No mesmo ano, Belichick ainda limitou o acesso da imprensa, o que gerou muita revolta por parte dos jornalistas e muitas matérias nada agradáveis sobre o técnico que ainda estava prestes a colocar Kosar no banco de reservas.

O time teve um começo muito bom (3-0) e seguiu com uma campanha 5-2 antes da bye week, incluindo uma vitória sobre o rival Steelers. Bernie Kosar continuava como titular, mas era frequentemente substituído por Vinny Testaverde quando começava a errar muito. Testaverde era o melhor quarterback naquele momento e, depois de entrar em três jogos seguidos, finalmente foi nomeado o titular. A sorte não estava do lado do QB e ele sofreu uma lesão no ombro que o tirou da temporada, abrindo novamente o espaço para Kosar, certo? Errado. Com o Browns em uma campanha 5-3 e liderando a divisão, Belichick anunciou o corte de Bernie e a cidade/torcida se sentiu apunhalada. No mesmo dia havia um cartaz na frente do centro de treinamento da franquia que dizia “Cortem Belichick e não Kosar”. Com a lesão de Testaverde, Bernie era o melhor QB no elenco, mas Belichick não mais queria contar com o jogador. Art Modell, dono do Browns, apoiou publicamente o seu treinador.

O Browns perdeu 5 dos 6 jogos após cortar Bernie Kosar e ficou novamente fora dos playoffs com mais uma campanha com menos vitórias que derrotas (7-9). Já em 1994, Mike Lombardi se abriu para mais algumas ideias de Belichick sobre como o time deveria avaliar os jogadores no Draft. De 1991 a 1994, a equipe havia selecionado apenas um jogador de impacto considerável que foi Eric Turner. Mike e Bill desenvolveram um sistema com uma nova linguagem e metodologia. Não totalmente como Belichick imaginava, mas um pouco mais próximo daquilo que ele havia sonhado colocar em prática. Após o Draft e a Free Agency, a temporada regular chegava e o Browns contava com Vinny Testaverde plenamente recuperado. Pela primeira vez, o time tinha o QB que Bill (dentre as opções viáveis) queria e havia feito uma offseason mais a seu gosto, o que trouxe ótimos resultados. A defesa de Cleveland, comandada por Nick Saban e Bill Belichick, era a melhor da NFL e foi chave para que o time conseguisse uma campanha 11-5. O desempenho da defesa na temporada de 1994 só é comparável dentro da franquia com a dos anos 50, treinada por Paul Brown (Hall da Fama).

Nos playoffs, o Browns bateu o New England Patriots de Bill Parcells, mas perdeu na sequência para o rival Pittsburgh Steelers. Havia esperança para a equipe que tinha conseguido atingir o nível de “time de playoffs” com uma campanha de respeito (11-5). No entanto, no meio da temporada de 1995 foi anunciada a mudança da franquia para Baltimore, onde se transformaria no Baltimore Ravens. Após esse anúncio, a campanha foi 1-7 e o time afundou completamente, destruindo tudo o que vinha sendo construído. Uma semana após a mudança de cidade, Bill Belichick foi demitido pela então nova franquia de Baltimore. É um erro histórico dizer que ele foi demitido pelo Browns.

Em Cleveland, Belichick chegou com grandes ideias, mas com pouco espaço e oportunidades para colocá-las em prática. Muito dessa dificuldade vinha da necessidade de ter suas sugestões de mudanças aprovadas por Mike Lombardi. Ainda enfrentou toda a torcida e imprensa ao colocar o ídolo local – Bernie Kosar – no banco para Vinny Testaverde que, apesar de superior a Kosar naquele momento, nunca foi o quarterback que Bill desejava ver no comando. Seu sistema de scouting nunca foi plenamente colocado em prática e, além de tudo isso, recebeu o anúncio de que o time iria se mudar de cidade no meio da temporada seguinte à sua melhor campanha dentro da franquia.

A verdade é que uma série de fatores impediram que ele conseguisse fazer o time embalar, mas é fato que recebeu um time 3-13 e entregou um time 11-5 com a melhor defesa da NFL, excluindo o último ano em que foi anunciada a mudança e os jogadores basicamente abandonaram a temporada. Não é possível saber o que Bill Belichick faria se a franquia tivesse continuado em Cleveland com um pouco mais de estabilidade, porém já sabemos o que ele fez depois disso. É preciso pensar duas vezes antes de criticar sem conhecer a verdadeira história da passagem do treinador pelo Browns, principalmente por se tratar da, talvez, grande mente da história do futebol americano.

 

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