As filosofias e estratégias do Draft

24 de abril de 2017
Tags: Arthur Murta, browns, draft, eagles, packers, patriots, raiders, rams, ravens, seahawks, steelers,

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O Super Bowl que me desculpe, mas o Draft é o evento mais importante no calendário da NFL. É claro que a grande final gera mais apelo, mas é aqui que os 32 times têm a chance de redefinir seus futuros e construir dinastias que entrarão para a história.  Ao analisar a inexata ciência do Draft, percebemos que toda escolha carrega um grande risco, especialmente depois da segunda rodada, onde mais da metade dos jogadores escolhidos não tem um futuro próspero na NFL. Quando olhamos os números que indicam que a chance de um jogador escolhido na terceira rodada vingar é de apenas 30%, levantamos a questão: O que diferencia os times que consistentemente renovam seus times durante o Draft daqueles times que não conseguem achar jogadores sólidos com a mesma frequência?

O segredo está nas estratégias de cada equipe. Certas vezes, o debate sobre estratégias no Draft acaba simplificando a questão para a disputa de duas filosofias: escolher jogadores por necessidade ou escolher o BPA (sigla em inglês para “Melhor Jogador Disponível”), nessa matéria procuraremos entender melhor essas duas filosofias, mas também veremos porque somente essas duas classificações são limitadas para explicar todas as estratégias e linhas de pensamento utilizadas pelos times antes de escolher um jogador.

Diferentes times, diferentes prioridades

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Todos os times chegam ao Draft com duas listas em mão: uma delas com os melhores jogadores da classe, independente da posição, e uma com as posições onde os times tem suas necessidades mais urgentes. A primeira lista contém o valor dos jogadores, não só para indicar quem são os melhores para a franquia, mas também ajudam o time a formar uma expectativa de onde acha que cada um merece ser selecionado. Ao cruzar esses valores com a lista de necessidades, os times chegam a alguns nomes que acreditam estarão disponíveis na sua escolha. Na teoria, times que escolhem por necessidade, dão um foco maior à segunda lista, selecionando jogadores para cobrir os maiores buracos atuais no elenco, a franquia limita suas escolhas aos melhores disponíveis para aquelas posições deficientes. Já os times que escolhem o melhor jogador disponível não dão tanto valor as necessidades atuais, selecionando sempre o que acreditam ser o melhor atleta disponível. Só que na prática, as coisas não são simples assim. Quase todos General Managers da liga te dirão que escolhem sempre o que acreditam ser o melhor jogador para sua equipe, mesmo que essa escolha tenha sido motivada por uma necessidade no elenco. Como não podemos acreditar no que dizem por aí, especialmente na época do Draft, precisamos então observar as práticas de diferentes tomadores de decisão para entender diferentes filosofias e estratégias usadas para encarar o Draft.

Al Davis

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O saudoso Al Davis, ex-dono do Oakland Raiders, era um caso a parte quando se tratava de avaliação dos talentos do Draft. Ele considerava muito as capacidades físicas dos atletas escolhidos, desde os tempos no Combine até o tamanho das mãos do jogador eram levados em conta no processo analítico. Al Davis também valorizava bastante os jogadores que se saíam bem no Senior Bowl, ele não se importava com o desempenho dos jogadores contra competições mais fracas que nunca viriam a jogar na NFL, mas no Senior Bowl ele poderia analisar os melhores jogadores do Draft jogando contra seus pares. O fetiche do Al Davis por velocidade e tamanho levou o Raiders a uma série de erros, entre as mais notáveis foram a escolha do QB Jamarcus Russell com a primeira escolha geral no Draft de 2007 e do WR Darrius Heyward-Bey com a sétima escolha geral de 2009. Com todo respeito à importância de Al Davis para o Raiders e para a NFL, é incontestável que o time de Oakland melhorou muito após o falecimento de Davis.

Bill Belichick

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Belichick valoriza mais jogadores que se encaixarão no esquema que ele roda com sucesso em New England, o que não quer dizer que ele vá escolher um jogador muito acima de onde ele deveria sair só para cobrir uma necessidade imediata. Belichick adora adquirir escolhas adicionais quando considera que não há nenhum jogador disponível que valha a posição atual do time no Draft. Ele tem um ótimo aproveitamento em escolhas no meio do evento, por isso não perde uma oportunidade de transformar uma escolha em várias outras mais tarde. Essa deve ser sua melhor qualidade como tomador de decisão no Draft, a capacidade de se aproveitar de times desesperados para fazer uma troca e pegar algum jogador específico.

John Schneider e Pete Carroll

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A busca por jogadores que se encaixem no seu esquema, também é prioridade para o John Schneider e Pete Carroll em Seattle, exemplo marcante foi no Draft de 2012, onde o Seahawks usou suas três primeiras escolhas em OLB Bruce Irvin, LB Bobby Wagner e QB Russel Wilson. A franquia recebeu enormes críticas por ter escolhido jogadores que estavam cotados para sair mais tarde do que foram selecionados. A dupla que encabeça o Draft do Seahawks teve uma série de três ótimos Drafts entre 2010 e 2012, com destaque para as escolhas de Kam Chancellor e Richard Sherman nas 5ª rodada de 2010 e 2011, respectivamente.

Ozzie Newsome

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O General Manager do Baltimore Ravens é considerado um dos melhores estrategistas no Draft, especialmente pela sua capacidade de pensar alguns anos adiante, fazendo suas decisões pautadas não só nas necessidades atuais, mas também levando em consideração posições em que jogadores estão entrando em fim de contrato. Isso não quer dizer que Newsome escolhe apenas jogadores para posições de maiores necessidades. O Ravens estava bem servido nas posições quando selecionou o RB Jamaal Lewis no Draft de 2000 ou o RB Ray Rice em 2008, assim como tinha outras necessidades mais gritantes quando escolheu o DT Haloti Ngata em 2006 e o LB C.J. Mosley em 2014. O mais impressionante sobre Newsome é que ele consegue manter o nível do time mesmo sem normalmente escolher no início do evento.

Times precisando de QBs

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É mais difícil ter esse pensamento adiante que Ozzie Newsome tem, quando se está em um time que precisa mostrar resultados urgentemente, nesse caso usaremos como exemplo o Cleveland Browns, que teve 4 General Managers diferentes desde 2012. Mesmo escolhendo no início do Draft com frequência, a franquia tem enorme dificuldade em montar e manter um time, visto que perde muitos dos seus melhores jogadores após o término do primeiro contrato, dificultando a formação de uma equipe competitiva. O Browns está junto dos demais times que estão há anos procurando uma solução para a posição de QB, a incerteza na posição e a dificuldade de encontrar um jogador sólido, mesmo na primeira rodada, leva esses times a pagar mais do que deveriam por QBs, enquanto melhores jogadores ainda estão disponíveis. Um exemplo disso é o preço que Rams e Eagles pagaram para ter a possibilidade de escolher os melhores QBs no Draft do ano passado, mesmo que em perspectiva os dois não fossem tão promissores quanto outros jogadores que sairam após a terceira escolha.

Isso não é uma exclusividade do Draft de 2016. Em 2015 vimos uma situação parecida, com os QBs Jameis Winston e Marcus Mariota sendo selecionados nas duas primeiras escolhas, enquanto o nome mais forte em Leonard Williams sobrou para o Jets na sexta escolha. Interessante é que o Jets já tinha uma das melhores linhas defensivas da NFL, com Sheldon Richardson, Muhammad Wilkerson e Damon Harrison (que nem draftado foi), o que não fez com que o time deixasse passar o melhor jogador disponível. Isso se provou uma atitude correta, já que os contratos de Wilkerson e Harrison terminaram após a temporada passada, o segundo está agora no Giants e o primeiro acabou tendo seu contrato renovado.

Muitos são os fatores que acabam influenciando o valor que cada jogador tem para cada franquia, mas um fator que não pode ser relevado na preparação da estratégia de uma equipe é a lógica da oferta e da procura de cada posição. Por exemplo, o Draft de 2016 parecia ter talento para o interior da linha defensiva, a oferta de jogadores te permitirá encontrar bons DTs na segunda e na terceira rodada, mas por outro lado, não estava tão bem servido de Safeties. Já em 2017 há uma clara abundância de talentos para cornerback, e discutivelmente para safeties e tigh ends. Assim, equipes precisando de safeties esse ano possivelmente conseguirão melhores jogadores com escolhas mais tardias nesse ano do que conseguiriam no ano passado. Além disso, um time que precise de ajuda em posições com grande diferença na oferta de jogadores de talento, pode optar por por uma posição com menos oferta de jogadores mais cedo (tal como safeties no ano passado, ou offensive tackles esse ano) contando que terá mais facilidade para achar os jogadores da posição com maior oferta depois (como defensive tackles no ano passado e cornerbacks nesse ano).

Da mesma forma, a dificuldade de encontrar QBs depois da primeira rodada do Draft força os times a escolherem atletas antes da hora – o que pode acabar custando caro demais em comparação, especialmente quando se encontra bons talentos na posição em rodadas inferiores do mesmo ano (como foi o caso com Russell Wilson e parece ser com o Dak Prescott).

Já outras posições sofrem efeito contrário, RB é uma das posições mais desvalorizadas atualmente e, com a quantidade de RBs de qualidade que são escolhidos após a metade do Draft, os times sabem que podem investir em outras opções e ainda assim encontrar talento nas últimas rodadas.

Denominadores comuns entre as franquias mais consistentes no Draft

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Não temos como afirmar que há uma única fórmula para todos os times alcançarem sucesso no Draft, mas alguns pontos em comum são observados nas franquias mais bem sucedidas, desde a família Rooney em Pittsburgh ao regime de Ted Thompson em Green Bay, passando por Bill Belichick com New England. Todos esses times favorecem a continuidade do trabalho, a preferência por jogadores que compreendam o sistema em curso, que tenham um bom caráter, sejam bons de grupo e aparentem facilidade para ser moldado pelos técnicos. Sendo assim, esses tomadores de decisão escolhem os melhores jogadores disponíveis, que preencham esses requisitos.

A visão da maioria dos General Managers de sucesso é alinhada com o formato vitorioso de Bill Polian, que quase sempre optava pelo melhor jogador disponível, mas caso ele identificasse um valor parecido em jogadores de diferentes posições, focava no jogador que tem mais chances de contribuir imediatamente em uma posição carente.

Matéria publicada originalmente em 27 de abril de 2016, com atualizações feitas em 24 de abril de 2017.

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Arthur Murta conheceu a NFL em 2005 e, desde que pisou no Ralph Wilson Stadium, nunca mais foi o mesmo. Além de uma matéria semanal, também é responsável pela coluna Dicas de Fantasy e co-apresenta o Podcast Liga dos 32. Arthur gosta de fantasy football mais do que gosta de sorvete. Twitter: @murtaarthur