Análise Tática dos problemas da defesa do Patriots

5 de outubro de 2017
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A coluna 32 por 32 entra no ar toda quinta e faz “observações gerais” sobre a semana que passou, onde nosso colunista expõe aquilo que mais lhe chamou a atenção na rodada. Em seguida, o “Olho Tático” traz vários vídeos de jogadas interessantes para serem analisadas e, concluindo, ainda tem o “No Huddle”, sem conferência com os companheiros de equipe, para as curiosidades e rapidinhas. Quer deixar uma opinião ou esclarecer uma dúvida? A caixa de comentários está disponível no final do post. Obs: Os dois links “Leia Mais” abaixo podem ser essenciais para que você compreenda bem todo o texto.

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observações gerais
Nas observações gerais, nosso colunista traz opiniões a respeito de alguns dos temas mais interessantes dessa semana na NFL.

Acabaram as desculpas, Miami Dolphins

Quando um time perde o quarterback titular, é esperado que tenha dificuldades e que perca jogos. Temos dois bons exemplos nessa temporada com o Miami Dolphins e o Indianapolis Colts (agora Tennessee Titans e Oakland Raiders entram no time). Porém, ao contrário do Dolphins, o Colts, apesar da campanha 1-3, tem conseguido mover a bola e ao menos anotar uma quantidade de pontos aceitável nos jogos. Já a franquia da Flórida passa bem longe disso, pois enquanto Indianapolis tem cerca de 17 pontos por jogo em 4 semanas, os comandados de Adam Gase sofrem com a média de 8,3 pontos a cada rodada.

Ou a equipe enxerga em Jay Cutler um empecilho ao que ela pode render e começa a pensar em alternativas se quiser ter um restante de temporada digno ou o elenco ainda é muito esburacado a ponto de depender quase que completamente de Ryan Tannehill para ter chances de vencer. Isso porque Tannehill nem de longe é um QB elite. O novo técnico Adam Gase chegou sendo elogiado justamente pelo que poderia fazer ofensivamente e já tinha feito um bom trabalho com o próprio Cutler no Bears, todavia o nível apresentado principalmente pelo ataque é inaceitável mesmo que diante das atuais circunstâncias. O Dolphins pode perder jogos e isso dá para entender. Mas a forma como perde eles é que é o problema. Gase precisa conseguir tirar um mínimo rendimento aceitável do seu elenco.

De uma hora para outra, o Texans é uma máquina ofensiva

90 pontos nas duas últimas rodadas! Tá certo que tanto Patriots quanto Titans não são lá grandes defesas nesse momento da temporada, mas de qualquer forma fazer 90 pontos contra dois times de nível profissional em semanas seguidas é algo que não acontece com ataques pobres. Aliás, essa sequência de muitos pontos anotados certamente é rara para o Houston Texans que está há um bom tempo sofrendo com a falta de um quarterback de qualidade e dependendo demais da sua defesa.

Deshaun Watson tem muito o que aprender e amadurecer ainda, mas de cara ele tem dado ao time algo que o técnico Bill O’Brien tem procurado desde que chegou a Houston: um quarterback que possa colocar o time no jogo mesmo quando a defesa não será a estrela da partida. Ou seja, quando o adversário marcar muitos pontos no Texans, ainda assim o time terá ao menos a esperança de conseguir reverter o quadro. Com um Brian Hoyer ou um Brock Osweiler da vida, isso seria praticamente morte certa. Isso, óbvio, é fundamental para um time que aspira a classificação para os playoffs. Nos dois últimos jogos, o Texans anotou mais pontos que 15 times da NFL conseguiram em toda a temporada.

Chamou a atenção!

Foi boa a atuação do Washington Redskins na derrota para o pragmático e forte Kansas City Chiefs. Principalmente no aspecto defensivo. Quem mais prejudicou o ótimo desempenho da defesa foi o ataque da equipe que teve dificuldades para se manter em campo por mais tempo, algo essencial contra um time que fez justamente isso e que tem o costume de explodir no último quarto. Exemplo claro são os números da sua nova estrela RB Kareem Hunt.

O Redskins jogou com muita intensidade e conseguiu pressionar Alex Smith em diversas oportunidades, dando muito trabalho para a linha ofensiva de Kansas City. Destaque para Jonathan Allen, calouro que chegou com frequência ao backfield adversário. Ryan Kerrigan, Jonathan Allen, Zach Brown e Matt Ioannidis são nomes com ótimo rendimento no front seven, enquanto Josh Norman tem ido bem na secundária. Defesa dinâmica, que chega rapidamente pro tackle quando preciso, pressiona, cobre bem atrás, invade o backfield para destruir jogadas terrestres…teve de tudo contra o Chiefs e só não arrancaram a vitória porque cansaram no último quarto.

Afinal, foram 37 minutos de posse de bola para o time de Andy Reid contra 22 minutos do Redskins. Isso faz uma diferença absurda. Um minuto e meio de diferença de posse pode representar uma campanha a mais, imagine então 15 minutos de diferença. Mas fica o registro do que a defesa de Gruden fez contra um ótimo e invicto time.

olho tático

No “Olho Tático”, trazemos uma análise tática da rodada com a ajuda de vídeos curtos. Para essa semana, vamos falar dos problemas enfrentados pela defesa do New England Patriots nessa temporada. Todos os vídeos aqui utilizados são captados pela câmera all 22, que pega todos os jogadores em uma visão aérea. 

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Até quem não acompanha a NFL sabe que o Patriots enfrenta sérios problemas defensivos. E isso não é muito comum. Não que New England sempre tenha tido grandes defesas desde que Bill Belichick chegou lá, mas ao menos havia um senso de organização ainda que faltasse talento em uma posição ou outra. Nunca é demais lembrar que em todos os anos que o Patriots venceu o Super Bowl teve a defesa que menos cedeu pontos em toda a NFL.

Ao assistir os vídeos de todas as jogadas da equipe nessa temporada, uma coisa ficou muito clara: a defesa é uma bagunça. E isso assusta porque é raro ver um time que costuma ser tão bem treinado e preparado fazer tão feio mesmo em coisas básicas dentro do sistema defensivo. Se a grande reclamação do torcedor recai sobre Stephon Gilmore e sua incapacidade de atuar no esquema por zona, vale ressaltar que as falhas vão muito além do cornerback em questão. Veremos erros primários de posicionamento e ajustes durante uma jogada. E tem para todo mundo, pois separamos falhas de Gilmore (que se repete bastante nos vídeos), Devin McCourty e Malcolm Butler. Se houvesse mais espaço, apontaríamos as dificuldades de Chung para cobrir Tight Ends, a lentidão dos linebackers quando precisam defender contra o passe etc. É algo generalizado e preocupante.

No vídeo acima, o linebacker que dá o tackle recua 20 jardas, da linha de 40 do campo de defesa do Panthers até a linha de 40 do campo de ataque, e ainda chega antes do Free Safety! Antes mesmo de destacarmos em amarelo no vídeo o FS Devin McCourty e o recebedor que faz a jogada, o defensor já deveria ter lido o lance para perceber que os Wide Receivers das pontas estavam bem marcados dentro da zona dos cornerbacks na Cover 3, de forma que restava a ele avançar e fechar o meio que é sua prioridade número um.

Se tivesse que escolher uma jogada que simbolizasse a desorganização defensiva do Patriots seria essa. É simplesmente inacreditável que isso não tenha acontecido contra o Falcons no Super Bowl (time especialista em fazer a defesa confundir a direção da jogada), mas sim diante do ataque até então bem fraco do Carolina Panthers na semana 4. É mais um sinal de um time despreparado, confuso dentro de campo e com graves problemas para entender a função de cada um em campo.

Devin McCourty está posicionado ao lado do CB Stephon Gilmore pelo lado direito da defesa e, após o snap, ambos saem desesperados para o outro lado quando todo mundo por ali estava bem marcado e com ajuda de um safety atrás. Eram quatro jogadores do Patriots contra três por ali, enquanto que no lado que eles abandonaram sobraram dois recebedores contra absolutamente ninguém. Observe o destaque em amarelo mostrando toda a defesa ocupando 50% do campo. O mais incrível é que o buraco foi tão grande que havia duas oportunidades de touchdown na jogada, tanto com o RB que recebe a bola quanto com o WR totalmente livre mais à frente.

Aqui temos uma outra falha bisonha, mas única e exclusivamente do CB Stephon Gilmore. Que desastre. Ele está em marcação homem a homem, assim como todo o lado direito da defesa. Pelo lado esquerdo, Butler fica em zona fechando o Kelvin Benjamin para que ele não explore a lateral do campo e recebe ajuda pelo meio do safety. É uma boa chamada de Belichick e Patricia aqui, pois coloca dupla proteção em cima do jogador que é uma grande arma na red zone e usa Gilmore na cobertura homem a homem, seu ponto forte.

Acontece que Stephon Gilmore tem mil maneiras de surpreender o time e a torcida. Mesmo na marcação homem a homem em press coverage (veja que ele está na linha de scrimmage), ele abandona o jogador que deveria marcar (traço amarelo) que é aquele que está a sua frente. Perdeu uma cobertura tão óbvia na red zone? Adeus. Touchdown certo e fácil do adversário. Eric Rowe ainda tenta em vão salvar a jogada e troca a cobertura para marcar o jogador que era de Gilmore ao ver ele indo para cima do seu recebedor.

Já nesse lance, Gilmore não falhou. O problema é que a defesa do Patriots está tão bagunçada que mesmo quando aquele que mais tem errado está bem, algum outro companheiro entrega. Nesse caso especificamente, a falha foi dupla. Tanto Malcolm Butler quanto Devin McCourty deixam a desejar, sendo o desempenho de Butler o pior dos dois.

Novamente uma Cover 3 e mais uma vez os defensores do Patriots parecem não entender os conceitos desse tipo de cobertura. Os balões vermelhos mostram a área que cada um deve cobrir. Na Cover 3, os dois CBs pelas pontas e o FS ao fundo dividem 1/3 do campo. Butler recebe ajuda do safety que fica responsável por cobrir o “flat”, a área mais próxima da linha de scrimmage. O CB deveria cobrir quem quer que caísse na sua região de cobertura (balão vermelho mais ao fundo), porém ele se atrasa para identificar quem está em uma rota mais longa e cede uma boa oportunidade de touchdown para Cam Newton. Para sorte do Patriots, a jogada foi para o outro lado.

E no outro lado tem mais uma falha também. O FS Devin McCourty tenta ler os olhos do quarterback e novamente deixa a desejar na sua cobertura principal que é a do jogador que vai em profundidade pelo meio do campo. Quando existem dois jogadores por ali, dá para entender a hesitação, mas nesse lance só havia um e o Free Safety não pode estar a 10 jardas do recebedor após ele ter feito a recepção na área do campo que ele deveria fechar. Isso compromete demais a Cover 3.

Esses são alguns dos problemas enfrentados pelo New England Patriots nessa temporada. Sua secundária tem sofrido demais por estar mal preparada – e aqui vai na conta de Belichick – e por falhar em execuções básicas a nível profissional, casos em que não dá para culpar o treinador. A boa notícia é que boa parte das grandes jogadas que o time cede, pequenos ajustes resolveriam. A notícia ruim é que um dos maiores treinadores da história está vendo exatamente os mesmos lances semana a semana e não tem conseguido resolver. Resta aguardar as respostas que o Patriots vai dar defensivamente para que deixe de ser tão frágil a ponto de colocar em risco os objetivos da equipe na temporada.

no huddle

  • O Saints é o terceiro time desde 1933 a não sofrer turnover em nenhum dos quatro primeiros jogos da temporada.
  • QB Deshaun Watson é o único calouro a ter 7 TDs aéreos e 2 terrestres nos quatro primeiros jogos da carreira.
  • Cam Newton tem 49 TDs terrestres em sua carreira. Com mais um TD corrido, ele se tornará o único QB a ter 50 touchdowns desse tipo.
  • O Miami Dolphins é o único time que ainda não conseguiu marcar um touchdown sequer no primeiro tempo nessa temporada.
  • RB Leonard Fournette é o primeiro atleta da história do Jaguars com um TD em cada um dos 4 primeiros jogos da temporada.
  • RB Todd Gurley tem TDs aéreos em cada um dos seus três últimos jogos. Antes disso, ele nunca tinha conseguido receber para um touchdown em sua carreira.

A coluna 32 por 32 entra no ar toda quinta aqui no site. Anote na agenda e não deixe de conferir para curtir a NFL através dos seus detalhes táticos, observações e curiosidades!


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Tiago Araruna acompanha a NFL desde 2006 e é o idealizador do projeto Liga dos 32. Como Editor-Chefe do Portal, está à frente da coluna semanal 32 por 32, toda quinta no ar. Co-apresentador do Podcast Liga dos 32 que vai ao ar às quartas . No twitter: @tiagoararuna