Análise Tática do quarterback Jared Goff e do Rams

28 de setembro de 2017
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A coluna 32 por 32 entra no ar toda quinta e faz “observações gerais” sobre a semana que passou, onde nosso colunista expõe aquilo que mais lhe chamou a atenção na rodada. Em seguida, o “Olho Tático” traz vários vídeos de jogadas interessantes para serem analisadas e, concluindo, ainda tem o “No Huddle”, sem conferência com os companheiros de equipe, para as curiosidades e rapidinhas. Quer deixar uma opinião ou esclarecer uma dúvida? A caixa de comentários está disponível no final do post. Obs: Os dois links “Leia Mais” abaixo podem ser essenciais para que você compreenda bem todo o texto.

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observações gerais
Nas observações gerais, nosso colunista traz opiniões a respeito de alguns dos temas mais interessantes dessa semana na NFL.

Drop é uma estatística que não diz tanto assim

O trabalho de um recebedor vai muito além de receber a bola. Ele precisa correr bem as rotas, ter boa saída logo após o snap, atacar a bola no timing correto, ser capaz de se antecipar na disputa por espaço com a marcação, se aproveitar do posicionamento do oponente, fazer a leitura correta em “option routes”, dentre outras habilidades. Acontece que a única estatística que avalia a falha direta do recebedor é aquela que conta os “drops”.

Existem drops e drops dos recebedores de um time de futebol americano. Gostaria, então, de apresentar aqui algumas ideias sobre essa estatística tão falada, mas ao mesmo tempo tão pouco debatida. Drop é o ato de falhar na tentativa de fazer uma recepção, porém quando contabilizam-se os drops não se leva em conta dois fatores básicos: 1- A culpa pode ter sido do quarterback;

2- Um WR que dropa mais que outro não é necessariamente menos confiável;

No item número 1, o QB pode ter lançado a bola baixa demais ou alta demais e o recebedor, se esticando para tentar a recepção, pode ter soltado a bola. E aí temos um drop de um jogador que não teve a menor culpa no lance. Sobre o item número 2, não existe uma estatística que meça a qualidade da rota percorrida pelo recebedor, seu timing na hora do passe, sua habilidade de saber jogar em zona, ler secundárias, usar o posicionamento do marcador a seu favor, ou seja, um jogador pode ser excelente em todos esses quesitos, mas se ele tiver 7 drops na temporada – que podem nem ter sido por sua culpa – e outro atleta da posição tenha sofrido 3 drops, mesmo sem ser tão bom quanto o primeiro nos outros aspectos da posição, ele será considerado por muitos como mais seguro e confiável.

Se basear em “drops” para avaliar um recebedor é como comparar a qualidade de dois quarterbacks levando em conta tão somente o número de TDs de 25 ou mais jardas lançados por eles. Um recorte de uma pequena parte da habilidade de um quarterback usada como balança para pesar dois jogadores. É assim com os drops que, além de não avaliar a questão da culpa do recebedor no lance, aborda meramente uma pequena parte do conjunto de habilidades que um recebedor deve possuir.

Não digo que os “drops” são um número irrelevante, mas tão somente tento mostrar que toda estatística conta apenas uma pequena parte da história. Especialmente estatísticas soltas ou “não-avançadas”. Ter boas mãos é fundamental para ser um grande recebedor, mas até que ponto aquele com mais drops tem mãos ruins? Só o vídeo vai mostrar. É melhor ter um cara com 7 ou 8 drops no ano (repito, alguns nem por culpa dele), mas que é acima da média nas diversas outras habilidades da posição ou um que é mediano em algumas delas e sofre 3 drops na temporada? A avaliação vai muito além de um número solto que conta uma pequena parte da história.

Falcons e Chiefs em “Os Invictos”

A grande pergunta que se faz nesse momento é “quem consegue se manter por mais tempo invicto?”. O Falcons enfrenta o Bills em casa, enquanto o Chiefs recebe o Redskins pelo Monday Night Football da semana 4. O adversário do Kansas City Chiefs essa semana é mais perigoso, depois o time enfrenta Texans fora, Steelers em casa e Raiders fora. Já o Atlanta Falcons fica de folga na semana 5, tem um confronto com o Dolphins em casa na sequência e Patriots fora (revanche do Super Bowl). Resumindo, para essa semana, em tese, o Chiefs corre mais riscos. Até a semana 6 o calendário favorece o Falcons, mas na semana 7 a equipe de Atlanta tem uma chance considerável de perder a invencibilidade caso ainda esteja invicta até lá.

Independente disso, o mais importante não é permanecer invicto, mas sim vencer os adversários mais fracos com certa tranquilidade e contar com a sorte nos jogos contra times mais duros, apertados até o fim. Até porque os jogos mais difíceis podem ir para qualquer lado. Onde as grandes equipes mostram suas credenciais são em duelos contra times mais frágeis, dominando sem passar dificuldades. Dentre Falcons e Chiefs, hoje Kansas City é aquele time mais equilibrado e que venceu jogos contra Patriots e Chargers por uma diferença de duas posses. O dinamismo de sua defesa e a criatividade de Andy Reid na montagem das jogadas de ataque chamam a atenção. O Falcons continua com um ataque que pontua bastante – mesmo tendo perdido algumas coisas da época de Shanahan – e de bônus uma defesa que tem apresentado evolução. Ambos fortíssimos candidatos aos playoffs e além.

olho tático

No “Olho Tático”, trazemos uma análise tática da rodada com a ajuda de vídeos curtos. Para essa semana, vamos falar da evolução do QB Jared Goff e do remodelado ataque do Los Angeles Rams. Todos os vídeos aqui utilizados são captados pela câmera all 22, que pega todos os jogadores em uma visão aérea. 

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Sean McVay. Só de ouvir falar desse nome, certamente o QB Jared Goff já fica muito feliz. McVay é o técnico do Los Angeles Rams e ex-coordenador ofensivo do Washington Redskins. Responsável por extrair uma ótima temporada de Kirk Cousins em 2016 e por ter feito o ataque daquele time produzir consistentemente e com eficiência, se destacando também por sua capacidade de chamar as jogadas no momento ideal contra a formação de defesa adequada para encaixar cada desenho ofensivo específico. Ele é o técnico mais jovem da NFL e parece ter nascido para a função. Vale ficar de olho na evolução do ataque do Rams ao longo da temporada e, principalmente, nas próximas.

Na última temporada, Goff tinha um técnico (Jeff Fisher) especializado em defesas e um coordenador ofensivo que tinha maior conhecimento sobre linhas ofensivas, ou seja, não era a comissão técnica ideal para um jovem e cru quarterback. Isso não tira a responsabilidade de cima do então calouro, pois obviamente também teve sua boa dose de culpa pelo fracasso ofensivo da franquia.

Nesse vídeo acima, assim como no próximo, o desenho da jogada não colabora em nada com o quarterback ainda cru da equipe. Duas rotas longas e uma checkdown – inútil – do running back que fica entre dois linebackers. Esclarecida a responsabilidade da comissão técnica no lance e dos recebedores que não conseguiram a separação, o passe de Jared Goff é ridículo, sem qualquer toque ou direção. Os próximos dois vídeos também são da temporada de estreia do QB titular do Rams.

Aqui o Rams está em uma terceira para oito e a chamada é novamente uma coisa horrorosa. Os três recebedores correm rotas verticais sem a menor necessidade de fazer isso ainda no primeiro quarto. Não há um recebedor sequer correndo uma rota na altura da linha de first down ou esticando a defesa horizontalmente, de forma que a única opção era um passe bem longo.

Note como o adversário manda blitz e o espaço que existe na região central do campo, totalmente inexplorado. O Cardinals ficou em Cover 2 Man, marcando homem a homem e usando dois safeties recuados ao fundo, dividindo o campo metade a metade. Com as rotas todas atacando verticalmente, ambos ficaram em seus postos e isso proporcionou espaço para o RB ou TE que ficaram bloqueando inutilmente até o sack.

Outro vídeo da temporada 2016 que une a incompetência de Jeff Fisher e seu staff com a do próprio Jared Goff. Essa jogada é desenhada para acontecer para o lado direito com um “double slant” por ali visando o passe rápido e conquistas de jardas após a recepção. O problema dessa jogada é que a marcação dos cornerbacks pelo lado esquerdo da defesa acontece em “press coverage”, muito próximos da linha de scrimmage, e ainda estão protegendo a parte interna do campo. Note que eles estão posicionados um pouco mais para dentro que os recebedores. Isso praticamente inviabiliza aquilo que o Rams estava querendo fazer.

O recebedor mais aberto na ponta direita do ataque ainda tenta fingir que vai para fora e voltar por dentro em um “double move” sem qualquer eficiência porque essa era uma jogada frequentemente chamada por Jeff Fisher e havia se tornado bastante previsível. Na tentativa de ajudar Goff, acabaram atrapalhando. Isso gerou um QB incapaz de fazer essa leitura pré-snap que comentei aqui (press coverage + vantagem interna) e totalmente voltado para a primeira opção na sua progressão. Jared Goff não conseguia passar da sua primeira opção para a segunda, algo básico para um quarterback profissional.

Com um nome como Sean McVay e a experiência adquirida nos poucos jogos que pôde atuar em 2016, o Goff da atual temporada tem sido consideravelmente superior. Ele tem à sua disposição um ataque que consegue variar bastante, sem se tornar previsível. É uma equipe que usa conjunto 12 (um RB e dois TEs), 11 (um RB e um TE), 10, 2×2, trips, etc. E com a mesma formação que passa, pode correr. Com o posicionamento idêntico mesmo dos recebedores, qualquer jogada pode vir. É frequente ver opção de passe curto, médio e longo. Recebedores do lado esquerdo fazendo a mesma rota que os do lado direito, combinações de rotas indo para a mesma direção (flood), enfim, tudo o que possa auxiliar Goff a ler mais rápido e decidir com eficiência.

Também não é incomum ver “motions”, com jogadores se movimentado antes do snap para indicar marcação homem a homem ou zona, ou apenas para confundir a defesa sobre a direção da jogada. É um ataque que capricha nos mínimos detalhes até mesmo em uma corriqueira jogada de play action como veremos mais adiante. Esse vídeo acima, bem como os dois próximos, são da atual temporada. Estamos vendo o novo Goff em um esquema ofensivo remodelado. Pelo lado direito acontece a “rub route” que cruza duas rotas já na saída, nesse caso utilizando o RB saindo do backfield para tal. Veja como a “hitch” corrida pelo único recebedor alinhado no lado direito atrapalha o linebacker que se desloca para cobrir o RB Todd Gurley. O campo é curto e não dá tempo para se recuperar. Touchdown.

Essa jogada é sensacional. Ela não é inovadora, não muda o mundo do futebol americano, mas sua execução faz dela uma chamada brilhante. O WR Robert Woods vai em “motion” e se alinha como slot no lado esquerdo do ataque. A marcação o acompanha de um lado a outro, indicando cobertura mano a mano. Jared Goff vai para o “play action” e finge que entrega a bola para o RB, mas na realidade acontece o passe. Até aí nada demais. Acontece que na NFL, muitos times que executam cotidianamente o “play action” o fazem como se estivessem cumprindo tabela. Não adianta nada fingir que é corrida se está claro para todos os jogadores adversários desde o início que não é.

O Packers fez isso muito bem com Rodgers na rodada, onde ele finge que entrega a bola pro RB, esconde ela por quase um segundo e aí sim vira para o passe. Esse teatro é muito necessário para tirar defensive backs e linebackers da jogada. No vídeo, o WR que realizou o “motion” – e que acaba recebendo a bola no fim – finge que vai bloquear para a corrida, o CB tenta passar por ele para ir atrás do RB e aí, exatamente quando Woods está na linha de 50 jardas, ele acelera com tudo garantindo uma ótima separação. O passe de Goff e sua leitura são boas, mas se tivesse sido melhor, mais jardas seriam conquistadas. Foi um pouco atrás. Esse primor de execução em uma jogada não era visto sob o comando de Jeff Fisher em 2016.

O Rams emprega nesse lance o conceito de triângulos no sistema ofensivo, explorando muito bem os espaços do campo através da movimentação de defensores e criação de novos espaços. Os dois recebedores pela direita correm rotas “slants”, sendo que o recebedor no slot atrai a atenção dos linebackers na faixa central. Mas a grande chave dessa jogada e onde reside sua genialidade é a rota do running back que serve de opção, mas o ideal é que seja meramente ilustrativa. É uma rota “minimizadora de chances de interceptação”. McVay deixa a jogada segura para o seu QB escolha número um geral do Draft.

Observe como o RB puxa o linebacker que estava posicionado exatamente em frente a linha de passe. Se ele ficasse por ali, poderia agir como um verdadeiro “spy” e atacar a bola para desviá-la ou mesmo interceptá-la. Não que Goff tenha problemas de visão, mas em uma slant rápida, muitas vezes a visão foca no WR e no CB. Abriu? Bola nele. E é aí que surgem os linebackers por perto para aparecer “do nada” e acabar com a campanha ofensiva. Então, o Rams puxa esse linebacker lá para a ponta e o corredor fica livre para Goff, com nada nem ninguém entre ele e Woods que usa muito bem a vantagem interna, impedindo que o CB tome a frente.

O Los Angeles Rams não é mais aquele ataque raquítico de outrora e não só por causa da evolução de Jared Goff. Há uma mente ofensiva de verdade à frente da franquia e ele tem sido capaz de dar nova vida ao time, ao seu quarterback e ao RB Todd Gurley que também cresceu. Quando o QB evolui, o RB talentoso volta a jogar, Sammy Watkins aparece como um dos protagonistas, Woods faz jogos decentes, dentre outros destaques, é claro que Sean McVay tem bastante crédito. Ofensivamente, vai ser bem divertido ver o ataque do Rams daqui em diante. O time tem futuro.

no huddle

  • O Chiefs marcou TDs de 50 jardas ou mais em 9 jogos seguidos. Um recorde na NFL.
  • O Field Goal de 61 jardas que definiu o jogo entre Eagles e Giants foi o mais longo na história convertido por um calouro. Que dia para Jake Elliott.
  • O WR DeSean Jackson marcous 53 TDs na NFL e a média de jardas por TD é de 46,1, a melhor marca considerando jogadores com pelo menos 50 TDs.
  • Odell Beckham Jr foi o mais rápido WR da NFL a chegar a 300 recepções. Ele precisou de apenas 45 jogos para conseguir tal feito.

A coluna 32 por 32 entra no ar toda quinta aqui no site. Anote na agenda e não deixe de conferir para curtir a NFL através dos seus detalhes táticos, observações e curiosidades!


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Tiago Araruna acompanha a NFL desde 2006 e é o idealizador do projeto Liga dos 32. Como Editor-Chefe do Portal, está à frente da coluna semanal 32 por 32, toda quinta no ar. Co-apresentador do Podcast Liga dos 32 que vai ao ar às quartas . No twitter: @tiagoararuna