Análise Tática do QB Carson Wentz e do ataque do Eagles

26 de outubro de 2017
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A coluna 32 por 32 entra no ar toda quinta e faz “observações gerais” sobre a semana que passou, onde nosso colunista expõe aquilo que mais lhe chamou a atenção na rodada. Em seguida, o “Olho Tático” traz vários vídeos de jogadas interessantes para serem analisadas e, concluindo, ainda tem o “No Huddle”, sem conferência com os companheiros de equipe, para as curiosidades e rapidinhas. Quer deixar uma opinião ou esclarecer uma dúvida? A caixa de comentários está disponível no final do post. Obs: Os dois links “Leia Mais” abaixo podem ser essenciais para que você compreenda bem todo o texto.

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observações gerais
Nas observações gerais, nosso colunista traz opiniões a respeito de alguns dos temas mais interessantes dessa semana na NFL.

Hue Jackson é a próxima grande contratação como OC

Já se vão alguns bons anos desde que começamos a cobrir a NFL, mas nunca deixo de me surpreender com o dinamismo das narrativas acerca de jogadores, times ou campanhas. Uma hora o cara é gênio, no minuto seguinte não serve para nada. É claro que todo esporte tem isso e não é tão difícil explicar, pois os esportes são movidos pela paixão dos torcedores. O caso do Cleveland Browns é um tanto quanto atípico porque por ser um time tão (mal) falado, muita gente se interessa pela franquia para ver quando e como eles vão finalmente sair do buraco. É algo que ultrapassa o limite de ser ou não torcedor da equipe.

O Cincinnati Bengals teve uma grande temporada em 2015 que terminou de forma desastrosa nos playoffs para variar. Mas o que aconteceu de diferente naquele ano foi uma série de boas partidas do QB Andy Dalton, muito graças ao excelente esquema ofensivo de Hue Jackson. O então coordenador ofensivo do Bengals era gênio ali, depois foi considerado uma ótima contratação por parte do Browns que, naquele momento, era visto como uma organização desajustada mas que tinha nomes inteligentes no comando e agora um técnico de respeito.

Hoje, tanto a direção quanto Hue Jackson são questionados no Browns. Por que deixaram Deshaun Watson passar? Por que o técnico troca o QB toda semana e muitas vezes durante os jogos? Parece que a bagunça procura o Browns e sempre acha. Acho muito prematuro julgar o direcionamento de uma franquia antes de dar 3 anos para que ela se ajuste através de uma reconstrução e no caso de Cleveland ainda falta um quarterback. Depois da próxima offseason sim, eles precisam apresentar uma evolução clara. Se não tiverem paciência e demitirem seu treinador, alguém vai se dar muito bem com um grande coordenador ofensivo em sua comissão técnica. Por melhor que seja o técnico, ele precisa de peças, principalmente em um time que recomeçou do zero.

Deu vergonha alheia do Atlanta Falcons

Disparado o melhor ataque da NFL em 2016, a realidade do Atlanta Falcons é bem preocupante. A própria comissão técnica entende isso ou você acha que arriscariam uma quarta descida para seis jardas no campo de defesa ainda no início da partida se tivessem plena confiança que o Falcons é páreo para o Patriots em Foxboro? Obviamente que não. E olha que eu sou um defensor de chamadas agressivas em quarta descida, principalmente com o jogo estando zero a zero. O que pior pode acontecer é o outro time pegar uma posição boa de campo e anotar um FG ou mesmo um TD. Diferença de uma posse de bola não mata time nenhum. Mas arriscar uma quarta descida para o “goal” com aquela jogada manjada de jet sweep? Ridículo.

Todo mundo sabe que o coordenador ofensivo do time na última temporada era o Kyle Shanahan e hoje ele é o técnico do San Francisco 49ers, então era de se esperar que houvesse uma queda no desempenho do ataque. O grande problema é que caiu demais e em todos os aspectos imagináveis. Steve Sarkisian, atual coordenador, simplificou o playbook deixado por Shanahan, retirando inúmeras jogadas que foram a base do sucesso da franquia há pouquíssimo tempo. Adeus envolvimento constante dos Running Backs recebendo passes (4 no total contra o Patriots); outside zone com a linha ofensiva bloqueando lateralmente e gerando ótimas jogadas de passe com bootleg e, claro, corridas também; misdirection plays com todas as rotas indo para um lado, linha ofensiva indo para outro, QB saindo do pocket e lançando para um TE que saiu atrasado propositadamente para o lado oposto recebendo livre. Enfim, há um conjunto relevante de jogadas que foi abandonado ou quase isso.

O plano de jogo ofensivo também é uma coisa pavorosa. Contra o Patriots isso ficou bem claro, pois não havia um planejamento em si. O que vimos foi um Falcons tentando ser agressivo e arriscando demais sem seguir qualquer ideia ou conceito que fizesse o mínimo de sentido valer a pena correr tanto risco. Por fim, as chamadas ou play calling. Um jogo é, nada mais nada menos, que um conjunto de chamadas de lado a lado que duelam entre si para ver qual funciona melhor a cada snap. Sarkisian ainda se mostra muito perdido porque uma jogada abre terreno e cria uma oportunidade para a próxima, mas no Falcons isso tem sido cada vez mais difícil de observar.

Fica então a pergunta que só o tempo irá responder: seria o Atlanta Falcons mais um time que vai sofrer com a maldição do coordenador promovido? Aquele caso em que o coordenador (ofensivo ou defensivo) vai ser técnico de outro time e faz mais sucesso que o técnico principal da sua ex-equipe, no caso Dan Quinn?

olho tático

No “Olho Tático”, trazemos uma análise tática da rodada com a ajuda de vídeos curtos. Para essa semana, vamos falar de Carson Wentz e o ataque do Eagles. Todos os vídeos aqui utilizados são captados pela câmera all 22, que pega todos os jogadores em uma visão aérea. 

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Repita os vídeos quantas vezes for necessário para observar todos os detalhes.

O Carson Wentz de 2016 era um quarterback ainda muito cru e protegido dentro do esquema do Philadelphia Eagles devido a isso e até mesmo pela ausência de boas armas ao seu redor. Eram muitos passes atrás da linha de scrimmage ou de até 5 jardas, apostando em dar segurança ao então calouro e, claro, evitando também correr muitos riscos com passes mais longos. Com a chegada de Alshon Jeffery e Torrey Smith, além da evolução de Nelson Agholor e Zach Ertz (virou uma máquina na end zone), o QB Carson Wentz conseguiu ter mais liberdade para soltar o braço, amadureceu na leitura pré-snap, nas progressões dos seus alvos e hoje é um jogador bem mais preparado para atuar e liderar um ataque na NFL.

A temporada dele tem sido tão boa que já é considerado por muitos analistas um candidato ao prêmio de MVP. Obviamente que muita água vai rolar ainda ao longo da segunda metade da competição, mas isso diz muito sobre o que Wentz tem feito em campo, proporcionando uma mudança de patamar do ataque do Eagles e, por consequência, de toda a equipe.

No vídeo acima, temos uma “option route” com três possibilidades para o WR Nelson Agholor. Quando estamos diante de uma jogada que dá a liberdade para o recebedor escolher a rota que ele vai correr dentre as opções pré-estabelecidas, aposta-se na leitura do quarterback, na leitura do recebedor e na química entre eles. Ou seja, não é para qualquer um. Ambos precisam decidir pela mesma rota e fazer isso rápido. Agholor poderia optar pela “shallow cross” (rota amarela) em caso de marcação homem a homem, pela “hitch” (rota azul) se fizesse a leitura de marcação por zona ou ainda por uma rota “seam” (vermelha) se o posicionamento do safety favorecesse isso. Nessa jogada especificamente não existe a possibilidade de correr uma “seam” porque outro recebedor está alinhado no slot e vai em direção àquele mesmo espaço. Então, sobraram duas opções. Como era uma cobertura em zona, a rota foi a “hitch”, onde o recebedor para e explora um espaço entre as zonas de marcação.

Uma das grandes frustrações no jogo de Carson Wentz em 2016 era justamente o fato de ele raramente soltar o braço nos jogos por fatores já explicados no vídeo anterior. Braço ele tem, mas no ano de calouro esse lado do seu jogo não apareceu tanto e o quarterback do Eagles sofreu muitas críticas nesse sentido. Já nesse ano, a coisa é bem diferente e Wentz tem tido a liberdade de explorar seus passes intermediários e longos com frequência e, principalmente, com um aproveitamento muito bom.

Um bom exemplo foi esse touchdown diante do Redskins em que ele lançou um passe que percorreu 62,8 jardas até cair nas mãos do recebedor, um recorde absoluto levando em conta as temporadas de 2016 e 2017. Deixando mais claro, foram 62,8 jardas puramente aéreas sem incluir as jardas após a recepção. Essa jogada nos mostra força no braço, precisão e leitura, tendo em vista que o quarterback faz as progressões como podemos observar no segundo ângulo do vídeo. O Redskins se posiciona em zona por ali, enfrentando uma jogada conhecida como 3-level stretch que estica o campo em três níveis: rota curta, intermediária e longa no mesmo lado do campo. O safety cai na armadilha de achar que era uma rota corner e quando o recebedor corta na vertical, Wentz percebe e não desperdiça a oportunidade. Veja o TE saindo para o “flat” no lado direito como opção de passe curto. O Carson Wentz de 2016 provavelmente lançaria a bola ali.

Esse aqui foi o melhor passe dele no jogo contra o Washington Redskins pelo último Monday Night Football. É um lançamento que exige um toque e precisão absurdos do quarterback, pois ele é o chamado “over the shoulder” com o recebedor praticamente de costas para Carson Wentz e a bola caindo perfeitamente no seu colo em um timing perfeito. O ideal é que o defensor não consiga chegar na bola para desviá-la, de forma que o WR não pode voltar pra pegar a bola na sua lateral ou muito possivelmente o passe será incompleto.

Uma outra dificuldade nesse tipo de passe, principalmente quando viaja mais de 20 jardas, é que o safety estará fechando o fundo do campo (não foi o caso aqui) exatamente à frente do recebedor, então a janela aonde a bola precisa ir é bem pequena. Nem um pouco atrás para não ser desviada ou até mesmo interceptada e nem um pouco a frente devido ao risco do safety destruir a jogada. Da forma como esse passe foi feito, ele anulou o defensor na marcação homem a homem e também impossibilitaria qualquer coisa que o safety tentasse fazer para impedir a recepção mesmo que ele estivesse bem posicionado.

O Redskins está todo marcando em Cover 2 Zone, cobertura em zona com dois safeties recuados dividindo o fundo do campo. Washington até tenta confundir o QB do Eagles se posicionando com um dos safeties mais adiantados para sugerir uma Cover 1, mas logo após o snap ele recua bastante. TE Zach Ertz é o único que sofre cobertura homem a homem de um linebacker, mas o detalhe mais interessante aqui é a forma como Wentz tira o safety da jogada. Preste atenção no safety que está em cima da águia símbolo da equipe e veja como ele corre disparado para o outro lado do campo e abre justamente o espaço que Ertz está indo explorar. Tudo isso porque Carson olhou para aquele recebedor e fixou nele para depois se voltar para o seu tight end. Bons QBs precisam mover a defesa com os olhos e essa foi uma bela demonstração.

Essa jogada é Run/Pass Option puro e muito bem desenhada. O Eagles coloca mais dois homens no lado esquerdo da linha ofensiva, sugerindo uma corrida por ali por meio de uma formação pesada que indica fortemente isso. O Redskins adianta um dos safeties e coloca oito homens no box. Por conta disso, Wentz já percebe antes do snap que ele tem boas chances de optar pelo passe (lembrando que na run/pass option pode acontecer tanto um passe quanto uma corrida). A linha ofensiva bloqueia como se fosse uma jogada terrestre, os oito homens vem para cima do QB e isso abre um espaço grande pelo meio.

Sob pressão e com uma calma no pocket que mostra amadurecimento, ele lança na rota slant que tem espaço para ganhar muitas jardas após a recepção. Um WR mais rápido ganharia do CB e ficaria a um tackle perdido forçado (do Free Safety) para correr livre para a end zone. É uma ótima jogada e uma execução muito boa do quarterback.

Para finalizar, Carson Wentz também pode conquistar jardas com as próprias pernas. Em uma terceira descida para três jardas, uma corrida é bem possível e é por isso que conseguir terceiras descidas curtas é tão importante. A defesa não pode se antecipar e tentar prever o passe. O front seven do Redskins faz um excelente trabalho e fecha todos os Gaps internos, o que dificultaria demais a vida do running back se tentasse correr ali pelo meio para conquistar as três jardas.

Então, o quarterback do Eagles mantém a bola em mãos e corre na direção lateral para garantir o first down. 3-level stretch, options através de read option, option routes e run/pass option, jogadas eficientes para explorar passes em profundidade e um QB que cria espaço no campo ao fazer boas leituras e mover defensores até com os olhos é um conjunto de fatores que fazem desse ataque do Philadelphia Eagles um setor bem mais intrigante que o de 2016, movido por uma clara evolução de Carson Wentz.

no huddle

  • O S Eddie Jackson (Bears) é o primeiro jogador da história com dois TDs defensivos de mais de 75 jardas no mesmo jogo. Ele teve um fumble recuperado e uma interceptação retornados para touchdown.
  • Dak Prescott tem 7 jogos com 3 TDs e uma ou nenhuma interceptação sofrida. Só Dan Marino (9) tem mais em suas duas primeiras temporadas.
  • Drew Brees precisa de 12 passes completos para ser o mais rápido a chegar na marca de 6000 passes completos (240 jogos). Ele bateria o atual recordista que é Peyton Manning (259).
  • QB Deshaun Watson (Texans) igualou o recorde de Dan Marino de mais passes para TD por um calouro nos primeiros 7 jogos (15).
  • Antonio Brown e Le’Veon Bell possuem mais de 700 jardas conquistadas nessa temporada. Nenhuma dupla conseguiu isso nos primeiros 6 jogos.
  • O Chicago Bears foi o primeiro time a vencer um jogo da NFL com apenas 7 passes ou menos tentados e 5 ou menos first downs desde que o Browns bateu o Eagles em 1950.

A coluna 32 por 32 entra no ar toda quinta aqui no site. Anote na agenda e não deixe de conferir para curtir a NFL através dos seus detalhes táticos, observações e curiosidades!


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Tiago Araruna acompanha a NFL desde 2006 e é o idealizador do projeto Liga dos 32. Como Editor-Chefe do Portal, está à frente da coluna semanal 32 por 32, toda quinta no ar. Co-apresentador do Podcast Liga dos 32 que vai ao ar às quartas . No twitter: @tiagoararuna