sexta-feira, 9 de Fevereiro de 2018

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Agora que a poeira do Super Bowl 52 está finalmente baixando e a vitória do Philadelphia Eagles está sendo consumada e entrando na mente de todas as pessoas dentro do cenário da NFL, podemos sentar e analisar os impactos da vitória dos grandes “azarões”, que em vez de se sentirem ofendidos com o termo, abraçaram a alcunha de “underdogs” nos três jogos de playoff (contra Falcons, Vikings e Patriots), pois mesmo não sendo os favoritos nas casas de apostas (apesar de terem tido o melhor recorde da NFL junto com o Pats), tornaram comum a cena de comemorarem as vitórias utilizando uma máscara de cachorro, em alusão ao título criado para eles pela mídia em geral. O Philadelphia Eagles é o grande campeão da temporada 2017/18, e isto pode ser um marco da NFL que outrora ficou esquecido nos últimos anos. Vamos, nesta coluna, visualizar o que esta vitória pode simbolizar para o cenário da liga já na próxima temporada.

Durante toda a semana que antecedeu o grande embate, a imagem geral era que Nick Foles e Doug Pederson eram pequenos soldados sem muita pretensão enfrentando o grande império de Brady e Belichick. A disparidade em experiência dentro da NFL afinal, quando Brady venceu seu primeiro Super Bowl Foles era um atleta do colegial e quando Belichick assumiu o Patriots, Pederson era Quarterback do Cleveland Browns, era apenas um dos atributos que tratavam a partida como um verdadeiro embate de Davi x Golias, relembrando uma passagem marcante da Bíblia.

Já dentro da partida, o cenário que se desenhava era algo parecido com o que vimos duas vezes nos últimos três anos, afinal, o caminho era claro para que Brady tivesse a chance da vitória nos instantes finais. Até que o LB Brandon Graham conseguiu uma mágica jogada, o strip-sack, e forçou o fumble no Quarterback lendário dos Patriots e praticamente sacramentou a vitória por 41 x 33 dos azarões, dando ao Eagles o primeiro título de Super Bowl da história e o primeiro campeonato desde a década de 1960. Uma verdadeira surpresa em que muitos especialistas que se debruçam no estudo e análise deste jogo não foram capazes de prever, talvez por estarem acostumados com esta situação.

Mas não. Rocky venceu Apollo, Davi derrubou Golias, o azarão venceu a dinastia e o QB reserva venceu o discutivelmente melhor atleta de todos os tempos.

E isto pode ser ótimo para NFL, que lida com a queda de audiência devido aos mais variados fatores extra-campo. A free agency, o Draft, o teto salarial apertado e a consequente incapacidade de juntar muitos talentos a mais que outras equipes simbolizam que todas as equipes competem em pé de igualdade e tem as mesmas capacidades de se tornarem postulantes ao título de uma temporada para outra (a não ser que se chame Cleveland Browns).

A paridade resulta em imprevisibilidade, também graças ao fato de todas as partidas de playoff serem embates únicos. Vimos esta imprevisibilidade com o próprio Patriots no começo da década, um azarão que não deveria ser mais que um obstáculo para o então Saint Louis Rams de Kurt Warner e o “Greatest Show of Turf”, um dos melhores ataques da história. Já com a dinastia devidamente estabelecida, o cambaleante New York Giants chocou o Patriots e impediu a temporada perfeita de New England no Super Bowl 42. O então emergente Aaron Rodgers guiu o Green Bay Packers (cabeça de chave #6) ao improvável título contra o favorito Pittsburgh Steelers no Super Bowl 45, isto para citarmos apenas três exemplos de um passado que já começa a se afastar de nós.

Numa temporada marcada é verdade por muitas lesões e protestos de atletas, tire um tempo para pensar e analisar o quão surpreendente foi o rendimento (ou a falta dele) de praticamente todas as equipes. O Saints parecia mordido pela doença de Jeff Fisher, compilando seguidas campanhas com o recorde de 7-9. O Vikings, terceiro na NFC Norte ano passado, perdeu seu QB e RB titulares e ainda assim foi capaz de conquistar a divisão baseado numa forte defesa. O Rams, outrora pior ataque da NFL se transformou numa das unidades mais explosivas de um ano para outro com um jovem técnico em seu primeiro cargo do tipo dentro da liga. Estes times foram muito dominantes no cenário da NFC e marcaram presença na pós-temporada. Na AFC, o outrora fonte de risadas Jacksonville Jaguars se tornou uma potência e avançou até o AFC Championship Game após vitórias contundentes contra o Pittsburgh Steelers, virtual adversário do Patriots no controle da conferência. O Buffalo Bills avançou aos playoffs pela primeira vez desde que Bill Clinton era o presidente mesmo tentando uma inglória troca de Quarterback ao longo da temporada.

Porém não seria fácil trazer de volta esta característica marcante da NFL. Durante todo o Super Bowl, Brady e Belichick foram eficientes da mesma maneira que lhes renderam o título de melhor dupla QB-HC da história da NFL (ao menos a mais vencedora). Em certo ponto, parecia inevitável a manutenção do cenário da dinastia construída naquele primeiro chute do K Adam Vinatieri contra o citado Rams, que deu início ao império que sim, ainda perdura nos dias de hoje.

Mas era a noite da troca de poder. Sem seu titular, com ligamentos rompidos ao longo da temporada, era necessário que Nick Foles comandasse a reviravolta histórica, e comandou. Passes precisos e ousados, como as conexões para TD com o WR Alshon Jeffery e o RB Corey Clement – passes melhores que qualquer um que Tom Brady tenha lançado no domingo, resultaram na performance de 373 jardas e 4 TDs totais, afinal, o que falar do Touchdown de recepção em uma quarta descida no final do primeiro tempo? Em um cenário claro que o Patriots começa a “clicar as ações” no ataque, era necessário uma pontuação naquela altura do jogo. A chamada ousada (o TE Trey Burton foi Quarterback atuando no colegial), foi um verdadeiro golpe no estômago do Patriots, que havia tentado uma jogada parecida porém não obteve sucesso, com a bola passando entre as mãos de Brady.

Num cenário cinematográfico, somente a atuação magistral de Foles não seria necessário para destronar o império dominante. Como acostumamos a ver nos filmes, precisaríamos partir de uma premissa que o outrora dominante cometa um erro, um equívoco, e que se perca dentro de si mesmo no momento decisivo, e foi exatamente o que aconteceu. Brady, o centro do império, com suas 505 jardas aéreas que o colocaram tranquilamente como o recordista no principal jogo da temporada, segurou a bola por mais tempo que o necessário e tentou fazer o lançamento mesmo muito pressionado, e o resultado deve estar fresco em sua memória, caso não tenha saído de coma na última semana.

E então, a troca de poder estava completa. A imprevisibilidade reinou na temporada de 2017 e se haveria um time que poderia ser o responsável por esta volta, com certeza é o Philadelphia Eagles. Motivo de piada ao ser o único time dentro da charmosa NFC Leste a nunca ter conquistado um Super Bowl, é impossível não relembrar do roteiro dos filmes clássicos de Rocky Balboa para confirmarmos que sim, o azarão ainda pode vencer o campeão e nos proporcionar um embate épico que nos faz pensar o quão pouco sabemos sobre um confronto antes deste realmente acontecer, fato que ficou um pouco omitido nos últimos anos de domínio de algumas equipes.

Olhando mais friamente para a temporada do Eagles, a equipe foi assombrada pelas situações comuns que permeiam praticamente os outros 31 times durante uma campanha. Lesões em jogadores importantes (LT Jason Peters, RB Darren Sproles, LB Jordan Hicks são alguns dos atletas que não puderam participar da reta final da temporada, além obviamente do QB Carson Wentz), situações fora de campo como os protestos do líder defensivo, o S Malcolm Jenkins e um técnico inexperiente em sua segunda temporada no cargo. Esta conjunção de fatores poderia ser usada como desculpa para aquele time outrora favorito, mas que se afundou com o recorde de 6-10 e criou muitas dúvidas para si, mas não o Eagles.

Um trabalho fenomenal de Pederson e sua comissão técnica resultaram numa das melhores temporadas que se tem memória. Derrubaram no processo times completos, ataques potentes e talvez uma das melhores mentes defensivas da história da NFL com um QB reserva e jogadores renegados de outras equipes, tudo para capitalizar na conquista máxima do esporte e terem a certeza que estão para sempre marcados na história do esporte.

Agora, todos os times podem ao menos suspirar e sonhar com a festa a ser realizada no Super Bowl 53, no primeiro domingo de 2019. A chance está aí, em aberto, o que simboliza que seu time pode muito bem sonhar com a glória a não ser, claro, que enfrente o meu time.


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6 Comentários

  1. Ângelo Luis Lopes Mello on

    Excelente artigo. Só duas correções: Perderson nunca foi QB em Buffalo. Quem jogou nos Bills como reserva de Jin kelly e comandou a histórica vitória de virada contra os Oilers foi o Frank Reich, coordenador ofensivo dos Eagles. E quem chamou a jogada do touchdown recebido do Foles foi o próprio QB. A NFL divulgou um vídeo que mostra a cena essa semana em sua página do facebook.

  2. Anderson M. Santos on

    Espero que a AFC West se fortaleça novamente, Vance Joseph com a corda no pescoço aparentemente terá um QB decente para o Broncos chamar de seu, Gruden no Raiders, Chiefs que despachou o Alex Smith e o Chargers que tem um time bem interessante! Porque fomos de divisão mais forte da NFL para substitutos da AFC South (que mandou 2 franquias para o divisional round). Setembro é logo ali!

  3. Que belo texto, sitentiza muito bem essa magnifica liga, esse belo esporte e épica conquista do Eagles .

  4. Pra mim a liga nunca perdeu sua imprevisibilidade, os últimos 4 SBs são a prova disso. Um Seahawks perdendo na última jogada, um Panthers incrível parado por uma forte defesa do Broncos ( que eliminou o Patriots), um arrasador Falcons levando uma improvável virada do Patriots e agora o feito do Eagles. A previsibilidade mora no óbvio, na vitória fácil e isso não tem acontecido. Abs e parabéns pelo blog.

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