A NFL não sabe mais o que é uma recepção

15 de novembro de 2016
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Já existiu um tempo que para um jogador fazer uma recepção na NFL, ele não precisava mostrar muita coisa. Com a bola em suas mãos e os dois pés no chão, muito provavelmente a recepção seria válida. Isso pareceu ser justo por muito tempo, até que o árbitro Gene Steratore usou a subjetividade da regra para duas marcações incrivelmente polêmicas.

A primeira foi no começo da temporada de 2010 em um jogo entre Chicago Bears e Detroit Lions. Depois de um passe de Matthew Stafford para Calvin Johnson anotar um touchdown no fim da partida, Steratore deu passe incompleto na jogada e confirmou a decisão após ver os replays. O fato de Megatron não ter feito “todo o processo de recepção” anulou a jogada, por mais que ele tenha mantido o controle da bola, colocado ambos os pés no gramado e depois ainda o joelho.

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O gif talvez demore um pouco para carregar e rodar na velocidade normal. Tenha calma 🙂

Como você pode ver, Megatron claramente achou que havia garantido a recepção e soltou a bola no momento em que iria sair de campo para comemorar a vitória contra o rival no fim. Para Steratore, o fato de soltar a bola fez com que ele não terminasse o processo da recepção. Esse critério subjetivo causou muita polêmica na liga, mas se manteve adomercido… até a temporada de 2014 chegar.

Nos playoffs, o mesmo Gene Steratore usou a parte subjetiva da regra de recepção para anular uma jogada feita por Dez Bryant após passe de Tony Romo. Por mais que Dez tenha recebido a bola com as duas mãos, pisado três vezes no gramado, trocado a bola de mão e tentado se esticar para anotar o touchdown, Steratore não viu um movimento comum ao futebol americano, o famoso football move para validar todo o processo da recepção. Sendo assim, a jogada foi anulada e pôs um fim na pós-temporada do Dallas Cowboys, que saiu eliminado da partida. Essa jogada foi a gota d’água para uma tempestade que viria a seguir na NFL.

Nas semanas seguintes dessa polêmica, o chefe de arbitragem Dean Blandino explicou exaustivamente sobre o football move e como ele anulou o processo de recepção até o ponto dele precisar mudar o livro de regras para explicar melhor o que um jogador precisa fazer para receber um passe. Agora, o recebedor precisa ter controle da bola, ter ambos os pés no campo e se estabelecer como um corredor.

No que era pra ser um esclarecimento, a nova medida simplesmente acabou com qualquer lógica de recepção na liga. Em 2015, vimos passes completos se tornarem incompletos, passes incompletos se tornarem fumbles e fumbles se tornarem passes incompletos de uma forma que deixaria um torcedor de qualquer time extremamente irritado. Alguns jogadores da NFL chegaram a afirmar que não sabiam mais o que era um passe completo e o que não era.

Para 2016, Blandino novamente mudou a regra da recepção buscando novamente esclarecer o que ele quer dizer — e só ele parece entender, para falar a verdade. Segue abaixo a regra:

Artigo 3. PASSE COMPLETO OU INCOMPLETO

Um jogador que faz uma recepção deve avançar a bola. Um passe é completo (pelo ataque) ou interceptado (pela defesa) se o jogador, que está dentro de campo:

(a) mantém o controle da bola em suas mãos ou braços antes da bola tocar o chão; ou

(b) toca o chão dentro de campo com ambos os pés ou qualquer parte de seu corpo que não sejam suas mãos; e

(c) mantém o controle da bola depois que (a) e (b) estejam concluídos, até que ele tenha a bola por tempo suficiente para claramente se tornar um corredor. Um jogador tem a bola por tempo suficiente para se tornar um corredor quando depois que seu segundo pé está no chão, ele é capaz de evitar ou forçar um contato de um oponente, guardando a bola, se virando ao campo ou dando passos adicionais.

Nota: Se o jogador tem controle da bola, um movimento da bola não será considerado perda de posse. Ele precisa perder controle da bola em ordem para afirmar que houve perda de posse.

Se o jogador perder a bola quando simultaneamente toca ambos os pés ou alguma parte do seu corpo no chão, isso não é uma recepção.

 

Pois bem, a polêmica voltou à tona nesse último Monday Night Football. Após um passe de Andy Dalton, o WR Tyler Boyd passou pela marcação e se esticou para a end zone, perdendo a posse da bola no momento que tocou no chão. De acordo com a parte final da regra acima, o passe foi realmente incompleto. Mas reveja bem a jogada:

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Notou alguma coisa de estranha na jogada? Então dá uma olhada no que o livro de regras diz sobre o que é um touchdown:

Artigo 1. JOGADAS DE TOUCHDOWN

Um touchdown é marcado quando:

(a) a bola está dentro, acima ou abaixo do plano da goal line do oponente e está em posse de um corredor que avançou pelo campo de jogo para a end zone;

(b) a bola está em posse de um jogador que está no ar está dentro, acima, ou abaixo do plano da goal line, e alguma parte da bola passou por cima ou por dentro do pylon.

 

Pela regra, a partir do momento que a bola em posse do jogador no ar cruza o plano, o touchdown é marcado e a jogada acaba. Após a recepção anulada de Dez Bryant em 2014, foi dito que os centímetros de distância entre a bola e a end zone fizeram a diferença para a interpretação da jogada, já que com a bola cruzando o plano antes do braço do Dez tocar no chão, a jogada se enquadraria na regra do touchdown. E por que isso não aconteceu na jogada do Tyler Boyd?

Você pode até afirmar que a bola mexe enquanto Boyd está no ar se esticando para a end zone, mas como a própria regra de recepção diz, um movimento da bola não será considerado perda de posse. Como a bola não se mexe depois disso até o momento que ele toca no chão, você pode interpretar tranquilamente que Boyd ainda tinha controle da bola, o que não caracteriza perda da posse de bola até ele encostar no chão. Mas se a jogada acaba no momento que a bola cruza o plano da end zone, como considerar o que vem depois? Não importaria somente se ele mantém a posse até a bola entrar na end zone?

O que acontece aqui é algo que me lembra porque não podemos dividir zero por zero na matemática. Explico: o resultado desse cáculo dá em erro porque ele coloca duas regras da matemática em conflito. São elas: (1) todo número dividido por ele mesmo sempre será 1 e (2) zero dividido por qualquer número será sempre zero. Por colocar essas duas regras em conflito, não se pode fazer o cálculo de 0/0.

Para esse caso é a mesma coisa. O Tyler Boyd tinha controle da bola até o momento que ele cruza o plano, mas depois que cai no chão ele perde. Qual regra estará sobreposta a outra aqui? A da recepção ou a do touchdown? Por conta da decisão da arbitragem nesse caso, é possível determinar que daqui pra frente todos os casos iguais serão tratados da mesma maneira e se não for, o time adversário poderar desafiar a jogada?

Esse problema nas regras pode abrir margem para algo extremamente complicado durante as partidas. Se é necessário o controle da bola durante todo o processo mesmo que ela já tenha entrado na end zone, os árbitros vão ter que começar a rever movimentos do jogador depois que a jogada acaba, o que, cá entre nós, é extremamente bizarro.

Já pensou os árbitros um dia revisarem uma jogada de um recebedor que, em velocidade, fez a recepção dentro de campo com os dois pés, mas na hora que saiu de campo pela lateral, ele perdeu o controle no momento que caiu no chão? O quanto seria bizarro ver a arbitragem revisando uma jogada que aconteceu depois que a jogada acabou? Pois é.

As três polêmicas citadas aqui poderiam ter mudado o resultado final das partidas, por mais que não sejam responsáveis exclusivamente pela vitória ou derrota dos times. A arbitragem tem uma função principal que é a de manter o curso do jogo de acordo com o livro das regras e, principalmente, sem interferir diretamente no resultado final. A partir do momento que o resultado de uma jogada fica a mercê de uma interpretação duvidosa de meia dúzia de pessoas, você coloca em dúvida a qualidade e até a integridade de sua arbitragem.

Dean Blandino, você precisa resolver o problema que você criou. Ou isso, ou a NFL será forçada a resolver o problema em ter te colocado nesse cargo. Não dá mais para aceitar que problemas desse tipo interfiram o andamento da partida.

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Gabriel Plat acompanha a NFL desde 2009 e se tornou completamente obcecado pelo esporte. Editor da Liga dos 32 e também editor-chefe do portal Blue Star Brasil. Responsável por uma matéria semanal e revisão. Está no twitter como @gabrielplat.