32 por 32 – Rip/Liz, a defesa criada por Saban e Belichick

28 de abril de 2017
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Você deve estar se perguntando onde Nick Saban, lendário técnico do College Football, trabalhou com Bill Belichick, um dos grandes da história da NFL. Esses dois gigantes estiveram juntos – sei que parece piada – no Cleveland Browns! Belichick era o técnico principal e Saban era seu coordenador defensivo. Inclusive, desde então eles mantém um ótimo relacionamento e costumam conversar sobre futebol americano com frequência. Em uma palestra para técnicos de times do High School, Nick Saban explicava como se defender contra a “Spread Offense” (analisamos essa filosofia ofensiva aqui) que tomou a competição universitária de assalto nos últimos anos. Ele disse: “A Rip/Liz encaixa bem contra quase qualquer conceito ofensivo. No Browns, eu e Bill pensávamos em como jogar em Cover 1 e Cover 3 ao mesmo tempo para que uma complementasse a outra. Foi daí que veio a ideia da Rip/Liz”.

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Ninguém melhor do que o próprio Saban para descrever a sua criação em parceria com Belichick, não é mesmo? Conceitualmente, ela é um híbrido de Cover 1 com Cover 3 (entenda as coberturas aqui) que vai se transformar de acordo com o que os recebedores fizerem na jogada, ou seja, o que uma boa defesa consegue fazer de melhor que é reagir sem mostrar ao quarterback muito claramente o que ele está enfrentando naquele lance. Entrando no aspecto técnico, Rip ou Liz representam de que lado o safety estará adiantado para cobrir a possível rota “seam” (basicamente vertical) do recebedor no slot ou, se não for esse o caso, marcar o “flat” – as primeiras 5 jardas após a linha de scrimmage na lateral de campo.

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A depender da formação – teremos imagens em 3-4 e 4-3 -, a defesa vai ter um safety em profundidade juntamente com 2 CBs auxiliando (em tese Cover 3), um safety protegendo o SCF (Seam-Curl-Flat, nessa ordem de preferência) e um OLB ou nickel back responsável pelo outro recebedor no slot no mesmo esquema SCF. Dois dos grandes defeitos da Cover 3 são a defesa contra “four verticals” – quatro rotas “fly” – e contra o “flood”, que é uma combinação que joga 3 ou 4 recebedores em uma mesma direção.

A Rip/Liz responde bem contra essas jogadas porque não é necessariamente uma cobertura em zona como a Cover 3, já que pode virar uma Cover 1 com o FS em profundidade e os CBs marcando homem a homem. Sendo assim, não é uma defesa em zona tradicional, onde seus jogadores de secundária recuarão em profundidade e protegerão a sua zona ou região. Como dito anteriormente, tudo vai depender do que os recebedores fizerem, pois os CBs estarão em cobertura em zona até que o WR corra para mais de 10 jardas verticalmente. Aí vira marcação homem a homem e Cover 1. Resumindo, se o recebedor não seguir em profundidade, a marcação em cima dele será em zona, seguindo uma Cover 3 comum. Se ele correr uma rota vertical – não necessariamente reta até o fim, mas longa – será marcado como em uma Cover 1, homem a homem.

Por ser híbrida, se defende bem contra diversos tipos de sistemas ofensivos e ainda é eficiente contra o jogo corrido, pois os CBs e o SS mantêm os olhos no backfield quando não precisam marcar a rota longa no homem a homem e podem auxiliar nesse aspecto. Além disso, sempre estarão seis ou sete homens presentes no box. Tudo ficará mais claro com as imagens que iremos analisar.

rip-1

Nick Saban: “Quando você joga contra um time que lança bem a bola, a sua melhor chance é com os dois safeties dividindo o fundo do campo, porém com a ‘Zone Read’ e ‘Spread Offense’ é preciso ter um cara extra no box ocupando o meio do campo”. Antes de entrar no mérito desse diagrama, cumpre esclarecer que o OLB à direita de quem vê a imagem pode ser substituído por um NB (nickel cornerback), sem problemas. Agora vamos entender o que significa Rip (Match Left) e Liz (Match Right):

Rip (Match Left) – O Safety (normalmente o Strong Safety – SS) ficará adiantado do lado direito da defesa – Rip = Right – para marcar a rota “seam” do recebedor no slot ou proteger o “flat”. O OLB (ou NB) do lado esquerdo da defesa (à direita de quem vê o diagrama) vai ajudar na cobertura daquele lado.

Liz (Match Right) – O Safety ficará adiantado do lado esquerdo da defesa – Liz = Left – com as mesmas funções que tem na Rip. O OLB (ou NB) do lado direito da defesa vai ajudar na cobertura por ali.

Na imagem acima, o OLB que está em frente ao Tight End (TE) ajudará a cobrir esse recebedor. Caso ele siga em uma rota longa em direção vertical, será acompanhando na cobertura homem a homem pelo OLB, todavia se ele correr uma “shallow cross” cruzando o campo horizontalmente em direção ao outro lado, por exemplo, o OLB recua em cobertura em zona e vai cobrir o WR mais próximo caso ele fique no “flat” ou até mesmo o RB se sair para receber naquela área.

rip-2

Nesse diagrama, vemos um dos piores pesadelos de uma Cover 3, a jogada “Four Verticals”. A explicação é simples e de pura lógica matemática. Em uma Cover 3, existem 3 defensores que se responsabilizam pelo fundo do campo na proporção de 1/3 para cada. Se 4 recebedores seguem reto nessa direção, serão quatro contra três e o ataque tem boa chance de se dar bem.

Como você já sabe, a Rip/Liz é um híbrido e se protege contra esse tipo de chamada calcanhar de Aquiles. Se as rotas são verticais e longas, significa que o “SS” vai marcar homem a homem, assim como o “NB” e os dois “CBs”. O que era desvantagem contra a defesa, se transforma em vantagem e se o Free Safety (FS) teria que escolher um de dois recebedores para marcar no quatro contra três da Cover 3, aqui ele está na sobra para dobrar a marcação sobre quem desejar. Nas rotas longas, a defesa se comporta como Cover 1 e como todas as quatro são longas, nessa jogada Alabama – ou qualquer outro time que use a Rip/Liz – é 100% Cover 1 e homem a homem na secundária.

Os linebackers (LB) ficam na marcação em zona sobre quem cair por lá, podendo se posicionar entre o QB e o TE para cortar a linha de passe por dentro, cobrir o RB que eventualmente se desloque para receber ou até mesmo ajudar o SS também cortando a linha de passe e dificultando a vida do “signal caller”. Para finalizar sobre esse primeiro diagrama, contra a corrida são 6 no box mais o “SS” e o “NB” que chegam rapidamente para auxiliar.

rip-4

É o mesmo sistema explicado no diagrama anterior com duas diferenças: a formação agora é a 3-4 e não 4-3 e o safety adiantado (SS) está do lado esquerdo da defesa – Liz = Left. O uso da formação 3-4 é apenas para mostrar o encaixe em uma formação diferente e deixar bem claro que o uso do sistema Rip/Liz independe da distribuição do front seven.

São quatro rotas longas, sendo três “Fly” e uma “Post”, o que leva CBs, SS e NB a marcar homem a homem, com o FS como “single high safety” na Cover 1. Como estamos em uma formação 3-4, do lado que o SS está é o mesmo lado do OLB que está liberado para ir atrás do QB. Nesse caso é óbvio porque do outro lado não tem um OLB, e sim um NB, mas poderia tranquilamente ser o outro OLB por lá e ele iria recuar na cobertura. Os ILBs fazem o mesmo papel dos LBs da 4-3, um vai cobrir o RB e o outro se posicionará em sua zona tentando atrapalhar alguma linha de passe. Há ainda uma leve alteração no posicionamento do FS que está mais à direita da defesa focando no lado em que se encontram mais Wide Receivers. É uma outra possibilidade, especialmente porque o ILB que está livre tem uma seta para cortar a linha de passe do WR no slot, mas pode ajudar o SS em cima do TE por ali. Ele marca por baixo do TE que vai na sua região e o SS marca por “cima”, mais recuado e fazendo um sanduíche.

rip-3

Em todas as imagens até aqui havia a anotação “sem under” entre parênteses e nessa trazemos a versão “com under” para mostrar como a defesa se ajusta a isso. Mas afinal, o que é esse “under”? É um sinal que um jogador da secundária dá aos linebackers indicando que o recebedor que ele marcaria vai correr uma rota curta por dentro, ou seja, tal CB ou Safety não vai marcá-lo homem a homem, mas ficará em Zona para anular o RB caso vá por lá ou algum outro jogador de ataque.

Se o recebedor não corre uma rota longa, a marcação sobre ele é em Zona e não homem a homem. Na imagem, ao observar o WR cortando para dentro, o “SS” já sinaliza “Under” para os linebackers (LBs) e não o acompanha. Fica cuidando da sua região na cobertura em Zona. Essa rota do WR no slot que cruza o campo horizontalmente é a “Shallow Cross” que será de responsabilidade do LB oposto ao recebedor em questão. Isso porque se o LB mais próximo tivesse que marcá-lo, provavelmente perderia na velocidade, e em sendo o linebacker oposto, ele chega de encontro no final da rota sem permitir muito avanço e ainda dando a impressão ao QB que ninguém vai marcar aquele Wide Receiver.

Esse é um ajuste particular de Nick Saban em Alabama contra rotas desse tipo. O outro LB que fica livre vai marcar por Zona, nesse exemplo fechando por baixo do Tight End para auxiliar o nickel back (NB). Na função de Robber, esse LB fica lendo os olhos do QB para interceptar o passe e tem como opção, além de recuar para fechar o TE, se antecipar ao WR na Shallow Cross, romper o passe ou até mesmo forçar o turnover. O “SS” pode pegar o RB na sua Zona como indica a imagem ou, caso o Running Back não tivesse saído para receber, ele poderia recuar e tentar atrapalhar o passe para o WR daquele lado ficando entre ele e o QB.

Esse tipo de cobertura híbrida acaba sendo, por razões óbvias, muito flexível e capaz de se ajustar a quase tudo que o ataque possa vir a fazer. Obviamente não é infalível e seu maior ponto fraco é a sua complexidade. Vale dizer que alguns treinadores já declararam que a defesa que Nick Saban usa em Alabama é mais difícil de ser treinada e repassada aos jogadores que os esquemas defensivos de diversos times profissionais (NFL). Demanda técnicos de alto nível e com capacidade de deixar tudo bem claro para os atletas realizarem as leituras durante os jogos, bem como é uma defesa que requer um recrutamento de jogadores acima da média a nível de College e seria cara na NFL, financeiramente falando. Para fazer ela funcionar bem e dominar os oponentes, é preciso de material humano de qualidade e versátil entre os jogadores e uma comissão técnica muito competente.


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Tiago Araruna acompanha a NFL desde 2006 e é o idealizador do projeto Liga dos 32. Como Editor-Chefe do Portal, está à frente da coluna semanal 32 por 32, toda quinta no ar. Co-apresentador do Podcast Liga dos 32 que vai ao ar às quartas . No twitter: @tiagoararuna