32 por 32 – Como o Miami Dolphins chegou aos playoffs

29 de dezembro de 2016
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32 por 32 - L32
A coluna 32 por 32 entra no ar toda quinta e faz “observações gerais” sobre a semana que passou, onde nosso colunista expõe aquilo que mais lhe chamou a atenção na rodada. Em seguida, o “Olho Tático” traz vários vídeos de jogadas interessantes para serem analisadas e, concluindo, ainda tem o “No Huddle”, sem conferência com os companheiros de equipe, para as curiosidades e rapidinhas. Quer deixar uma opinião ou esclarecer uma dúvida? A caixa de comentários está disponível no final do post. Obs: Os dois links “Leia Mais” abaixo podem ser essenciais para que você compreenda bem todo o texto.

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observações gerais
Nas observações gerais, nosso colunista traz opiniões a respeito de alguns dos temas mais interessantes dessa semana na NFL.

O impacto da semana 17 nos playoffs

Os playoffs da NFL a essa altura já estão praticamente definidos. Na AFC, resta definir quem fica em segundo e quinto na ordem de classificação (seed), pois Chiefs e Raiders ainda disputam a divisão Oeste. Se Kansas City ainda conseguir vencê-la, sobe para a seed #2 e derrubaria o Raiders para a #5 que corresponde ao melhor classificado via Wild Card (sem vencer a divisão). Já na NFC, a briga pela NFC Norte será direta entre Packers e Lions que se enfrentam em um Sunday Night Football imperdível.

Patriots e Chiefs/Raiders vão definir os playoffs em casa e terão a folga de uma semana na fase Wild Card. O Pittsburgh Steelers vem em terceiro e o Houston Texans em quarto. Já o Miami Dolphins deve se classificar em sexto e enfrentar o time de Big Ben e Antonio Browns na primeira fase dos playoffs. Porém, isso pode mudar se o Dolphins vencer na semana 17 e o Chiefs perder – a equipe de Miami se classificaria em quinto e jogaria contra o Texans.

Ou seja, para Packers, Lions, Redskins, Raiders, Chiefs e Dolphins ainda tem muito valor a última semana da temporada regular, então vale ficar de olho nos jogos em que eles estão envolvidos. Para Miami, por exemplo, seria uma diferença grande enfrentar o Texans em vez de Pittsburgh.

Você gosta de rir do Browns? Cuidado

A piada preferida dos fãs da NFL e dos perfis de humor voltados para o futebol americano é o Browns. E tem sido assim por muitos anos, todavia isso está prestes a mudar. Cleveland tem duas escolhas entre as 10 primeiras do Draft nesse momento, várias escolhas adicionais advindas de trocas ou como compensação por perda de jogadores, muito dinheiro para gastar na Free Agency, um técnico comprovadamente excelente e uma direção que conta com Paul DePodesta – sim, aquele do filme Moneyball.

Nem todos esses ingredientes são inéditos para o Browns, pois é uma franquia que acumulou muitas escolhas altas em vários Drafts e errou feio com elas em inúmeras oportunidades. Dinheiro também sobrava, mas era difícil achar alguém que valesse a pena porque os grandes jogadores não queriam saber de jogar lá. O que muda o cenário são as pessoas por trás desse novo Browns. Hue Jackson é um técnico de capacidade comprovada e o time está em excelentes mãos com ele. Paul DePodesta parece ser tão bom na NFL quanto foi no baseball, mas ainda precisa mostrar seu valor nesse novo desafio e só poderemos falar melhor dele após o Draft 2016. Promete! É muito possível que em 2 anos estejamos diante de um time muito mais organizado e ganhando força a cada temporada.

Poupar ou não poupar? Eis a questão

Chega a semana 17 e os times classificados para os playoffs e que não brigam mais por seed se perguntam se devem ou não poupar seus jogadores. Minha opinião sobre isso é bem direta: se vai folgar na primeira semana de playoffs, não poupe jamais. Duas semanas sem jogar pode tirar todo o ritmo do grupo e prejudicar em definitivo o futuro do time em janeiro. Mas se o time não vai folgar na semana de Wild Card e não briga por melhor classificação, vale a pena poupar alguns nomes importantes e quem tem sentido mais a sequência de jogos.

Aproveitando o tema, se um time chega com uma campanha 15-0 na semana 17 e já garantiu folga na primeira semana de playoffs – bem como a seed #1 – deve poupar, certo? Errado. Aqui é a única exceção para mim. Um time não pode tirar a gana dos jogadores de estarem perto de uma temporada perfeita para poupar alguns nomes porque isso pega mal no vestiário e é uma coisa que pode mais atrapalhar que ajudar.

olho tático

No “Olho Tático”, trazemos uma análise tática de alguns jogos da rodada com a ajuda de vídeos curtos. Para essa semana, vamos falar do time do Miami Dolphins que voltou aos playoffs depois de muitos anos. Todos os vídeos aqui utilizados são captados pela câmera all 22, que pega todos os jogadores em uma visão aérea. Você tem acesso a isso aqui.

Repita os vídeos quantas vezes for necessário para observar todos os detalhes.

A defesa do Miami Dolphins tem como base a formação 4-3, que na maioria daz vezes é na realidade uma 4-2, pois um LB costuma dar lugar a um CB para se posicionar em “nickel defense”, com 5 defensive backs – 3 CBs e 2 safeties. Isso porque a maioria dos times da NFL abusa de sets com 3 WRs. Além disso, o setor defensivo da equipe gosta de atuar em Cover-1, contando com um safety em profundidade (single high safety) e marcação homem a homem por parte dos seus CBs.

O ano não começou nada bem para a secundária comandada pelo técnico principal Adam Gase. Para piorar, ainda sofreram com as perdas do ótimo safety Reshad Jones e do calouro CB Xavien Howard. Os quatro titulares são nomes que pouquíssimas pessoas que acompanham a NFL conhecem: FS Bacarri Rambo, SS Isa Abdul-Quddus, CB Byron Maxwell (o mais “famoso” do quarteto) e o CB Tony Lippett. Rambo estava procurando emprego como vendedor de carros em outubro; Maxwell que foi um desastre no Eagles e muitos atribuiam seu bom desempenho no Seahawks exclusivamente ao esquema de Pete Carroll, chegando a ser banco no Dolphins; Lippett jogava como WR até recentemente no College; e Abdul-Quddus que substituiu bem um dos mais talentosos safeties da NFL de maneira inesperada – 35 tackles e 2 interceptações.

Essa secundária desacreditada deu a volta por cima e hoje é top 10 da NFL, segurando os QBs adversários a um rating de 85.6. Porém, vai contar com Michael Thomas no lugar de Abdul-Quddus que sofreu uma lesão no pescoço e está fora da temporada. Mais um obstáculo para um setor que tem superado todos eles na atual temporada. Nos demais níveis de defesa, o Dolphins sofre contra a corrida e é muito eficiente nas terceiras descidas, cedendo apenas 34,8% de conversões, melhor marca da NFL. Cameron Wake merece uma menção especial, se por um lado pouco ajuda contra a corrida – o que acaba dificultando o trabalho dos demais companheiros -, por outro ele é um monstro perseguindo quarterbacks e forçando turnovers. São meros 21 tackles na temporada (o DE Olivier Vernon que saiu do Dolphins para o Giants tem 43) que ele compensa com 11.5 sacks e 5 fumbles forçados.

Sobre o vídeo acima, é uma interceptação do CB Tony Lippett, o ex-Wide Receiver. Ele lidera a equipe com 4 interceptações e parece cada vez mais adaptado à função de cornerback. Alguns instintos dele como recebedor inclusive o auxiliam em algumas jogadas como essa do vídeo. Veja que ele começa marcando um jogador, percebe para onde a bola vai ser lançada e se antecipa como se lembrasse dos tempos em que estava na end zone para anotar TDs. O Chargers está em “empty backfield”, sem nenhum jogador no backfield além do QB, portanto espalhando 5 recebedores e tentando abrir a defesa de Miami.

O Dolphins usa 3 CBs, 2 safeties (nickel defense) para que 3 CBs e o SS marquem 4 recebedores e um dos linebackers cubram o TE Antonio Gates. Philip Rivers, ao ver que o WR Tyrell Williams de 1,93m está sendo marcado pelo S Michael Thomas que tem 1,80, decide apostar nesse duelo aparentemente favorável e faz dele a sua primeira leitura na jogada visando uma “fade”, que é um passe que busca encobrir a marcação. Ele não contava com a percepção e a reação rápida de Lippett que fez a interceptação. O detalhe é que o “fade” é uma jogada que tem pouco retorno e é muito usada pelos técnicos ainda assim. A única vantagem é que normalmente ou é passe incompleto – na maioria dos casos é o que acontece – ou TD e quase nunca turnover.

Ndamukong Suh chegou ao Miami Dolphins em 2015 sendo muito bem pago e cercado de desconfiança. Conhecido na liga como um jogador sujo, o que ele tem de talento, tem também de personalidade forte. Depois de receber tanta grana, ele iria se esforçar como antes? Ou iria apenas passar umas férias na Flórida? O fato é que ele tem acumulado mais tackles por temporada do que costumava ter nos 5 anos de Lions – já são 68 combinados em 2016 – e anotou 5 sacks com um jogo ainda da semana 17 por vir. Mais que isso, Adam Gase conseguiu transformá-lo em um líder positivo no grupo, o que falaremos mais adiante ao abordar o ótimo técnico do Dolphins.

Suh está alinhado em 1-tech (ou 2i-tech na outra espécie de nomenclatura), fechando o A-Gap entre o Center e o Left Guard. Observe como ele se posiciona com o seu ombro direito no ombro externo do Guard, o que lhe confere o alinhamento na “tech” mencionada. A leitura pré-snap do RB Melvin Gordon lhe mostrou um espaço aberto entre o Left Guard e o Left Tackle, no entanto o que acontece após o snap é uma demonstração muito clara do que fez Ndamukong Suh se tornar o DT mais bem pago da NFL. Observe como ele tenta forçar para dentro e é bloqueado inicialmente pelo Guard mais o Center, que depois avança para bloquear no segundo nível. Engajado no bloqueio, ainda assim o defensor mantém os olhos o tempo todo em Melvin Gordon e quando ele resolve ir por fora, Suh se livra do bloqueio e faz o tackle. Que jogada, meus amigos. Não desistiu em nenhum momento do lance.

Aqui o Chargers está em “I Formation” com uma linha ofensiva inicialmente desbalanceada com mais homens do lado esquerdo. A resposta do Dolphins é reorganizar seus LBs que ficam mais pendentes para aquele lado. A partir daí, acontece um “motion” pré-snap, o Tight End vai para o lado direito e os LBs novamente se ajustam, se posicionando de forma mais centralizada. A defesa está em 4-3, já que não houve necessidade de tirar um LB por um CB porque o Chargers estava com um conjunto 21 (2 backs e 1 tight end, além de um OL extra) e apenas um WR. Era claro que vinha a corrida.

San Diego chamou uma Outside Zone Blocking para a corrida, onde o RB acha o espaço através do movimento horizontal da linha ofensiva. A boa resposta do Dolphins mostra a velocidade da defesa correndo lateralmente para conseguir o tackle, pois precisa estar bem treinada para fechar todos os espaços que podem se abrir em corridas desse tipo. Um LB é bloqueado pelo Left Guard, outro pelo Tight End à direita da linha ofensiva, mas Kiko Alonso (#47) escapa do Right Guard que tenta um bloqueio nas suas pernas para fazer o tackle em cima de Gordon. Ele foi um dos melhores MLB no seu auge no Bills, assim como Byron Maxwell não rendeu no Eagles e agora está retomando sua antiga forma.

Existem duas diferenças fundamentais do ataque do Dolphins de 2015 para o de 2016. Primeiro, o jogo corrido melhorou muito graças às várias boas performances de Jay Ajayi. E em segundo lugar, mas não menos importante, se encontra a evolução de Ryan Tannehill sob o comando de Adam Gase, principalmente nas bolas longas. Até sua lesão, Miami liderava a NFL com 10.2% das chamadas sendo jogadas explosivas, ou seja, corrida de pelo menos 10 jardas e passes de pelo menos 25 jardas. Nenhum outro time chega a marca de 10% e metade deles sequer consegue ter mais que 7.5% de jogadas do tipo.

Para efeito de comparação, com Joe Philbin (ex-técnico do Dolphins e hoje técnico da OL do Colts) o time nunca teve mais que 7.6% de jogadas explosivas, sendo que em 2013 chegou ao fundo do poço com 5.8%. Abordando então o vídeo acima, temos uma corrida espetacular de Jay Ajayi que inclusive se encaixa nos 10.2% de chamadas explosivas que a franquia alcançou em 2016. Assistindo a repetidas corridas desse jogador, fica muito claro que as jardas que Ajayi consegue decorrem quase sempre de mérito exclusivo dele. A linha ofensiva do Dolphins o entrega em média apenas 1.42 jarda antes do contato – quarta pior da liga. Bem diferente dessa realidade, a OL do Cowboys conquista 2.26 jardas para Elliott e a do Bills (melhor da NFL nesse quesito) acumula quase 3 jardas para seus RBs (2.91) por tentativa. Absurdo!

Essa jogada prova o talento de Ajayi e o quanto ele tem sido excelente nessa temporada, sem deixar de mostrar a realidade supracitada: ele precisa lutar por cada jarda em várias jogadas com bloqueios ruins. Preste atenção no Left Guard (#60 Kraig Urbik) e no Left Tackle (#67 Laremy Tunsil) do Dolphins. Urbik falha feio ao tentar bloquear o ILB Korey Toomer (#56), mas por sorte dele Toomer não consegue atrapalhar a jogada. Já Tunsil está totalmente perdido no lance tentando bloquear o DE Joey Bosa (#99). Vai para o lado errado, tenta voltar tarde demais, completamente perdido na jogada ele demora para estabelecer sua posição e armar o bloqueio em um duelo calouro x calouro. Bosa alcança Jay Ajayi antes da linha de scrimmage – seria, portanto, um tackle para perda de jardas – e tenta derrubá-lo, mas sem sucesso.

Resumindo, de 5 jogadores da linha ofensiva, 2 erram o bloqueio, justamente do lado para onde foi a corrida e mesmo assim o resultado da jogada foi incrível. O RB Jay Ajayi é peça essencial e o Dolphins vai precisar dele rendendo muito também nos playoffs.

Falamos da bola longa de Tannehill e das jogadas explosivas do Dolphins. Esse lançamento presente no vídeo vem para ilustrar de maneira clara o argumento. O Chargers está com apenas dois jogadores na linha defensiva, dois “outside linebackers”, dois “inside linebackers” mais atrás, três CBs e dois “safeties”. Retirou um DE e adicionou um CB para ajudar a cobrir os 3 WRs de Miami.

Note que o FS Dwight Lowery (#20) está muito adiantado pelo lado direito da defesa e posicionado no lado em que só tem um WR (Parker) que nem é uma ameaça em profundidade. Isso faz ele ter que correr muito para ir cobrir o Kenny Stills pela esquerda, que é quem anota o TD. O SS Adrian Phillips (#31) cai no play action com os dois ILBs do Chargers e fica tarde demais para voltar. Se você pausar aos 4 segundos, verá que os três WRs do Dolphins estão abertos e são opções para Ryan Tannehill. Falando nele, além do play action, houve um bootleg em que ele correu para fora do pocket em direção oposta ao RB Jay Ajayi, comprando tempo para sua primeira leitura que era o passe longo para Stills.

Sobre a parte técnica da posição de QB podemos destacar a paciência e coragem de esperar o desenvolvimento da rota até o ponto ideal para soltar o braço mesmo que isso tenha lhe custado um belo “hit”. O passe é preciso e no nível que os melhores quarterbacks da NFL lançariam – não dá para ser melhor que isso. Boa antecipação e uma precisão fantástica. Pode ser que Tannehill retorne nos playoffs após lesão no joelho.

Para finalizar, precisamos citar o técnico Adam Gase. Discípulo de ninguém menos que Nick Saban, ele conseguiu mudar a cultura derrotista do Miami Dolphins em apenas um ano através de treinamentos que dão resultados e de muita dedicação. O time que ele recebeu de Philbin tem Ndamukong Suh e Cameron Wake, é verdade. Mas também tem nomes como Jay Ajayi, Tony Lippett, Michael Thomas, e o que Gase tem conseguido fazer com muitos caras que mal seriam reservas em vários times que chegaram aos playoffs é digno de aplausos.

no huddle

  • RB Jay Ajayi é o primeiro jogador do Dolphins a vencer o prêmio de “jogador ofensivo da semana” por três vezes na temporada desde Dan Marino, em 1984.
  • QB Matt Ryan caminha para ter o quarto melhor rating em uma temporada na história da NFL. Os outros quatro no Top 5 foram MVPs em seus respectivos anos.
  • Essa semana 16 foi a primeira desde 1984 a ter três jogadores que não são quarterbacks lançando passes para TD (Dez Bryant, Marqise Lee e Dontari Poe).
  • Se o Packers derrotar o Lions, será o primeiro time da NFL a somar 100 vitórias contra algum oponente (incluindo playoffs).
  • O Pittsburgh Steelers é o único time nessa temporada a não ceder um TD na primeira campanha do seu adversário.
  • RB David Johnson é o primeiro jogador com pelo menos 20 TDs e 2 mil jardas de scrimmage na temporada desde o lendário LaDainian Tomlinson em 2006.
  • WR Tyreek Hill (Chiefs) é o terceiro jogador na história da NFL com pelo menos 3 TDs terrestres e 6 aéreos na temporada de calouro. Se junta a Gale Sayers (1965) e Doak Walker (1950).

A coluna 32 por 32 entra no ar toda quinta aqui no site. Anote na agenda e não deixe de conferir para curtir a NFL através dos seus detalhes táticos, observações e curiosidades!

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Tiago Araruna acompanha a NFL desde 2006 e é o idealizador do projeto Liga dos 32. Como Editor-Chefe do Portal, está à frente da coluna semanal 32 por 32, toda quinta no ar. Co-apresentador do Podcast Liga dos 32 que vai ao ar às quartas . No twitter: @tiagoararuna