32 por 32 – Análise Tática de grandes jogadas do Wild Card

12 de janeiro de 2017
Tags: 32 por 32, tiago araruna,

32 por 32 - L32
A coluna 32 por 32 entra no ar toda quinta e faz “observações gerais” sobre a semana que passou, onde nosso colunista expõe aquilo que mais lhe chamou a atenção na rodada. Em seguida, o “Olho Tático” traz vários vídeos de jogadas interessantes para serem analisadas e, concluindo, ainda tem o “No Huddle”, sem conferência com os companheiros de equipe, para as curiosidades e rapidinhas. Quer deixar uma opinião ou esclarecer uma dúvida? A caixa de comentários está disponível no final do post. Obs: Os dois links “Leia Mais” abaixo podem ser essenciais para que você compreenda bem todo o texto.

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observações gerais
Nas observações gerais, nosso colunista traz opiniões a respeito de alguns dos temas mais interessantes dessa semana na NFL.

A semana de Wild Card foi a mais desequilibrada em muitos anos

O fim de semana foi de muita decepção para quem esperava bons jogos no Wild Card, mas não para o ouvinte do nosso podcast. Comentei com Arthur sobre não criar expectativa com aquele fim de semana e tivemos uma das fases de Wild Card mais desequilibradas da história. Nunca vi um início de playoffs tão ruim desde que comecei a acompanhar a NFL e se isso terminar refletindo na audiência dos Playoffs 2016, a liga pode considerar algumas mudanças – ela que adora mudar algo toda temporada.

É claro que se pararmos para pensar, a NFL levou bastante azar também. Foram duas lesões a quarterbacks importantes da Conferência Americana que tiraram Ryan Tannehill e Derek Carr da parte mais importante da competição. Não que Tannehill fosse mudar muito o que o Dolphins (não) fez contra o Steelers, mas certamente seria um jogo com um pouco mais de emoção. Já a lesão de Carr foi fundamental para que o Raiders se apresentasse como um time completamente apático e entregue.

O Giants foi uma decepção na NFC, com direito a uma das piores noites – senão a pior – do trio Odell Beckham Jr, Victor Cruz e Sterling Shepard. Foram fundamentais para que Nova York não tivesse forças para reagir, principalmente a maior estrela da companhia que foi acusada de pipocar. A franquia de Detroit foi de acordo com o que eu esperava, é um time ainda limitado para enfrentar as equipes mais fortes da NFL, tanto que mesmo nos playoffs foi discutida a possível demissão de Jim Caldwell, técnico principal do Lions.

Expectativas para as semifinais de conferência

Se o Wild Card deixou a desejar, as semifinais de conferência tem tudo para compensar com 3 jogos que prometem ser espetaculares. Tirando Patriots x Texans que deve servir como um amistoso em meio a uma fase tão importante, Chiefs x Steelers, Cowboys x Packers e Falcons x Seahawks possuem todos os ingredientes para grandes duelos: equilíbrio, qualidade técnica e emoção.

O jogo que espero com mais ansiedade é Falcons x Seahawks que tem tudo para ser uma demonstração em alto nível de uma grande batalha entre o melhor ataque contra uma defesa muito acima da média. Cada chamada de Atlanta ofensivamente e a resposta de Seattle junto com os mais diversos ajustes vai ser algo muito interessante. Uma pena que Earl Thomas não estará presente para abrilhantar ainda mais a partida, mas não faltam grandes nomes dos dois lados. É certo que o Falcons estará mais disposto a arriscar em profundidade e vale ficar de olho em como Pete Carroll responde. Richard Sherman ficará na sua zona de conforto do lado esquerdo ou acompanhará Julio Jones onde ele se alinhar? Será que arriscam em algum momento uma marcação homem a homem, abandonando a Cover 3 e instaurando uma Cover 1 em certas jogadas?

Los Angeles Chargers

Era uma tragédia anunciada para a cidade de San Diego. Quem não faz de tudo para manter um time da NFL na sua cidade, termina perdendo-o. É a natureza do negócio. Como brasileiro, não gosto de ver essas mudanças que escancaram a natureza “business” da NFL de uma maneira fria e que mostra que a liga não se importa nem um pouco com os torcedores, esses sim os únicos que realmente amam o futebol americano.

O Chargers era um time muito identificado com a cidade de San Diego como não poderia deixar de ser e construiu uma história muito bonita por lá a base de grandes ídolos como LaDainian Tomlinson. Além disso, a contagiante musiquinha “San Diego Super Chargers” deixa de fazer sentido, infelizmente. Para Los Angeles, todavia, o momento é incrível porque a cidade tem dois times em cada uma das quatro grandes ligas, rivalizando diretamente com Nova York como não poderia deixar de ser. Rams e Chargers vão brigar por cada torcedor e terão que construir uma nova base de fãs – sim, o Rams jogou por anos lá mas sofreu com a média de público em 2016. Apenas vitórias e times de qualidade vão conseguir tal objetivo.

Para finalizar, fiz um texto sobre a mudança de um time de cidade há algum tempo e você pode ler ele aqui: “Um time que muda de cidade mata uma torcida inteira”.

olho tático

No “Olho Tático”, trazemos uma análise tática de alguns jogos da rodada com a ajuda de vídeos curtos. Para essa semana, vamos comentar sobre alguns lances marcantes da rodada de Wild Card. Todos os vídeos aqui utilizados são captados pela câmera all 22, que pega todos os jogadores em uma visão aérea. Você tem acesso a isso aqui.

Repita os vídeos quantas vezes for necessário para observar todos os detalhes.

Separamos jogadas importantes da fase Wild Card que não só são muito interessantes para o aspecto tático como são utilizadas por boa parte dos oito times que sobraram para as semifinais de conferência. Para começar, uma jogada ofensiva do eliminado Giants, mas que possui um conceito amplamente difundido e utilizado por todos – sim, todos – os times da NFL. É uma chamada simples, mas muito eficiente quando acontece contra uma cobertura favorável como nesse caso.

O Green Bay Packers está em uma Cover 3 do lado direito de sua defesa com o CB jogando em zona aberto por ali e com o apoio do safety mais próximo. Pela esquerda é uma Cover 2 Man, onde o CB está marcando homem a homem em press coverage. Pela distância do CB na parte debaixo do vídeo e por sua posição de corpo lateral, Eli percebe isso imediatamente e nota que o “Mills Concept” tem boas chances de funcionar. “Mills Concept” parte do princípio que o jogo aéreo funciona na base de abertura de espaços e uso de uma peça para abrir o campo para outra. Sendo assim, o recebedor interno (slot) à esquerda da linha ofensiva corre uma rota “In” para atrair o safety, enquanto que o WR aberto na ponta vai em uma rota “Post” atacando exatamente o ponto onde estaria o safety que foi atraído pelo slot receiver.

Basicamente, um recebedor puxa o safety para longe de onde vai a bola e seu companheiro faz uma rota na direção daquele espaço vazio que seria ocupado pelo defensive back. Contra marcação em zona na base de Cover 3 ou nas situações em que times misturam a Cover 3 com outro tipo de cobertura como aconteceu nesse lance, ela é uma chamada bem favorável. Contra marcação homem a homem, no entanto, o “Mills Concept” perde seu poder porque o safety não será atraído já que o recebedor no slot estará sendo acompanhado pelo nickel CB e ele estará dobrando no recebedor com a rota mais longa.

Essa é uma jogada extremamente perigosa que os times utilizam para fazer um disfarce na sua cobertura e colocar na cabeça do quarterback que ele está tomando uma boa decisão, quando na verdade está prestes a ser interceptado. É a chamada “Trap Coverage”. Existem algumas diversas variações, inclusive na fase Wild Card tivemos em 3 dos 4 jogos uma “Trap” executada em algum dos seus formatos, principalmente em “Cover 5 Cougar” que é semelhante ao que está no vídeo acima, diferenciado-se em um detalhe que será explicado.

O WR Sterling Shepard (#87) está sendo aparentemente marcado em zona com o CB mais para dentro e lhe dando a vantagem de cortar para fora em direção à lateral do campo. Veja que o recebedor na ponta esquerda está marcado homem a homem como se fosse acompanhado até o fim de sua rota mais vertical. A leitura de Eli Manning foi essa: o outside WR (próximo à lateral esquerda do campo) vai levar o CB bem para trás, enquanto o WR no slot (#87) irá cortar em uma rota “out” para fora no espaço livre e com vantagem sobre o CB que está muito para dentro, oferecendo esse lado externo.

Acontece que era isso que o Packers queria que o QB do Giants pensasse, mas a ideia da jogada é fazer com que o recebedor no slot corte para fora, momento em que o nickel CB grita “trap” e aquele cornerback que marcava o WR na parte externa o abandona e vai pra cima do slot, surpreendendo Eli que a essa altura já tinha até soltado a bola. Quase interceptado! Detalhe é que quando o CB abandona o WR1 na “Trap”, o safety já fica em cima daquele wide receiver para evitar um passe fácil. Esse disfarce é tão importante que pode mudar um jogo de playoffs sozinho. Olho aberto para esse tipo de armadilha.

Aqui uma chamada criativa do Pittsburgh Steelers. Nada mais é que um “screen pass”, porém com dois ingredientes essenciais que diferenciaram ela o suficiente para que deixasse de ser um screen comum, normalmente visando garantir uma posição mais conservadora da defesa no próximo lance, para se transformar em uma jogada realmente explosiva.

O Steelers tem 3 Wide Receivers pelo lado direito, sendo Antonio Brown (#84) o mais aberto deles, próximo da lateral. Os dois outros WRs fingem, logo após o snap, que estão indo bloquear os CBs para que Brown recebesse a bola na altura da linha de scrimmage e ganhasse jardas após a recepção. E é aí que vem a surpresa. Na realidade, a jogada não foi desenhada para que o melhor recebedor do Steelers recebesse o passe, e sim um dos WRs que fingiram o bloqueio (#17 – Eli Rogers). Perceba ainda que o Center sai para bloquear o CB que estava com o camisa 17 designado nessa chamada, permitindo que ele ganhe muitas jardas no lance.

Falamos do “Mills Concept” mais cedo e agora chegou a hora do “Stick Concept”. É verdade que nessa jogada especificamente, Big Ben contou bastante com a sorte após um belo esforço do Defensive Lineman do Dolphins. Mas de qualquer maneira dá para enxergar bem o conceito no vídeo, entender como ele funciona e acompanhar a próxima rodada dos playoffs mais ligado nesse tipo de chamada.

“Stick” é uma rota que se parece uma bengala no seu formato “J”. O recebedor corre cerca de 5 jardas, para e se vira para o QB. O conceito “Stick” vai um pouco além só da rota porque envolve uma combinação de rotas – às vezes até a combinação de dois conceitos diferentes em uma mesma jogada como veremos futuramente – e uma leitura da cobertura e não apenas da rota que dá nome a essa ideia. No vídeo, Ben Roethisberger precisa ler o posicionamento do nickel CB (em vermelho na imagem abaixo). Se ele ficar com o tight end (traços amarelos) na rota Stick, o passe vai no WR posicionado no slot (traços vermelhos). Se ficar com o slot WR, o lançamento irá no tight end e sua rota Stick.

Particularmente, não gosto desse desenho porque coloca o slot receiver e o tight end quase que no mesmo ponto do campo. O ideal seria usar o slot em uma rota “flat” ou “out”, tirando a marcação de cima da rota “stick”. E é justamente assim que mais se utiliza o “Stick Concept”: WR na ponta vai na vertical, o slot corre a “flat” e o TE ou WR mais próximo da OL executa a “stick”.

O “Stick Concept” contribui com o “quick passing game”, jogo aéreo com passes rápidos, cansando o front seven e facilitando o trabalho da linha ofensiva.

no huddle

  • Eli Manning nunca venceu um jogo de playoffs em temporadas em que ele não conquistou o Super Bowl. Está 8-0 quando vence o Super Bowl (2x) e 0-4 em todos os outros 11 anos.
  • Os 4 jogos de Wild Card foram decididos por uma diferença de 76 pontos. Maior margem desde 1990.
  • Tom Brady (8) está a um jogo de empatar com Joe Montana (9) para mais jogos de playoffs com pelo menos 3 TDs lançados.
  • O Miami Dolphins é o primeiro time da história da NFL a perder 4 jogos de playoffs seguidos por pelo menos 14 pontos de diferença.
  • RB Le’Veon Bell ganhou 90 jardas após contato contra o Dolphins. É a melhor marca desde Marshawn Lynch em 2010 no jogo do terremoto.
  • WR Randall Cobb empatou com o recorde de mais TDs recebidos em um jogo de playoffs com os 3 que anotou contra Miami.

A coluna 32 por 32 entra no ar toda quinta aqui no site. Anote na agenda e não deixe de conferir para curtir a NFL através dos seus detalhes táticos, observações e curiosidades!

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Tiago Araruna acompanha a NFL desde 2006 e é o idealizador do projeto Liga dos 32. Como Editor-Chefe do Portal, está à frente da coluna semanal 32 por 32, toda quinta no ar. Co-apresentador do Podcast Liga dos 32 que vai ao ar às quartas . No twitter: @tiagoararuna