32 por 32 – Analisando o que aconteceu com o ataque do Giants

21 de setembro de 2017
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A coluna 32 por 32 entra no ar toda quinta e faz “observações gerais” sobre a semana que passou, onde nosso colunista expõe aquilo que mais lhe chamou a atenção na rodada. Em seguida, o “Olho Tático” traz vários vídeos de jogadas interessantes para serem analisadas e, concluindo, ainda tem o “No Huddle”, sem conferência com os companheiros de equipe, para as curiosidades e rapidinhas. Quer deixar uma opinião ou esclarecer uma dúvida? A caixa de comentários está disponível no final do post. Obs: Os dois links “Leia Mais” abaixo podem ser essenciais para que você compreenda bem todo o texto.

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observações gerais
Nas observações gerais, nosso colunista traz opiniões a respeito de alguns dos temas mais interessantes dessa semana na NFL.

Parem de culpar a linha ofensiva por tudo

Esse é um erro não só visto aqui no Brasil. Nos Estados Unidos, de uma maneira geral, a percepção dos torcedores é a mesma. Se o quarterback está sendo muito pressionado, a culpa é da linha ofensiva. Não importa se é o próprio quarterback que está segurando a bola demais, fazendo leituras lentas ou sem saber se movimentar no pocket e salvar aquele segundinho a mais que os grandes QBs sabem como fazer. Os críticos vorazes das linhas ofensivas também não estão nem aí se o coordenador ofensivo implementou um esquema de ataque ruim ou inadequado para as peças que aquele elenco possui, dificultando demais a vida do seu principal jogador e, mais ainda, da coitada da linha ofensiva que é o alvo de todas as críticas.

Se o jogo aéreo não está bem, a linha ofensiva vai ouvir. Raramente vão apontar os recebedores que não conseguem separação de saída, problemas no próprio QB ou no esquema, mas a verdade que ninguém quer ouvir é essa: 70% da proteção do quarterback é feita por ele mesmo (leituras rápidas, ajustes pré-snap, presença no pocket, saber quando pode segurar mais e ir pro passe longo ou quando soltar imediatamente a bola, release etc) em conjunto com o esquema ofensivo existente. Se o quarterback tem todas essas habilidades – ou a maioria delas – e está em um esquema que não força demais a linha ofensiva (passes rápidos, play action, RB como opção para o passe emergencial, jogadas bootleg em que o QB sai do pocket para lançar…), pode ter certeza que o jogo aéreo vai fluir a não ser que tenha recebedores completamente inúteis.

“Então quer dizer que linha ofensiva não é importante?”. Calma lá que eu jamais disse isso. Ela não é o aspecto fundamental da proteção do quarterback, mas claro que tem seus 30% de participação e isso é relevante. Acontece que se o jogo aéreo está vergonhoso, é muito simplista achar que a grande culpada é a linha ofensiva. O grande papel da OL na proteção é segurar por 2 segundos os pass rushers. Com dois segundos, o QB já tem que ter sido capaz de se livrar da bola e achar algum recebedor. Dois segundos é tempo para que os recebedores percorram 10-15 jardas dependendo da velocidade de cada, então nem precisará sair um passe curto necessariamente. As linhas ofensivas da NFL seguram por ao menos 2 segundos na maioria esmagadora dos snaps, o que nos leva a pensar um pouco além do que parecia óbvio: De quem é a culpa então?

Falando diretamente de duas linhas ofensivas muito criticadas e reafirmando que elas têm sua parcela de culpa sim, no Seahawks pesa o coordenador ofensivo não ter sido capaz de entender que a OL dele é fraca e que o esquema precisa colaborar com isso. Russell Wilson faz milagre aqui e ali, mas é outro muito culpado. Basta observar os vários sacks que ele toma que será possível notar que em vários deles a bola já deveria ter saído de suas mãos. Um outro problema para o QB de Seattle é sua altura. Por ser baixo, ele tem dificuldade em ir para frente no pocket e ganhar mais um segundo quando a pressão vem por trás. Isso porque fica difícil para ele enxergar estando muito próximo da guerra nas trincheiras.

Com relação ao New York Giants, é uma soma de fatores também. Esquema, Eli Manning e também a ausência de Odell Beckham Jr que até jogou na semana 2 mas bem baleado. Nesse caso, Eli tem consideravelmente mais culpa que Wilson pelo Seahawks. Se em Seattle, o coordenador ofensivo é mais vilão, em Nova York McAdoo e Manning disputam esse espaço nada desejado. Eli tem enfrentado questionamentos, a idade mostra que está chegando e ele teve um declínio claro em comparação com o auge da carreira. Repito, culpar excessivamente a linha ofensiva é simplista e significa apenas tapar o sol com a peneira.

Onde a linha ofensiva é muito mais importante é no jogo corrido, fazendo bloqueios dos mais diversos tipos e se ajustando aos diferentes “front seven” que enfrentam. Aí sim, ela é uma grande protagonista. Na proteção do QB é coadjuvante. Grandes quarterbacks conseguem conduzir seu ataque aéreo, fazer bons jogos e eventualmente milagres mesmo que tenham a seu “favor” uma linha ofensiva deficiente. Claro que uma proteção que permita ao QB 5 segundos para lançar é o que todo mundo quer, mas com o que existe hoje na NFL e já existiu, sempre foi possível superar isso com o bom desempenho dos QBs e sistemas ofensivos inteligentes. O próprio Eli Manning já fez grandes jogos com proteção igual ou pior que a atual. Seu irmão, Peyton, cansou de fazer parecer que sua linha era “menos ruim” do que realmente era. Linha ofensiva não é desculpa se o seu jogo aéreo é fraco.

Esse Denver Broncos é sólido

Todo mundo espera uma defesa forte do Broncos, o que já é um pedigree do time em tempos recentes. E se em 2016 esse setor sofreu contra o jogo terrestre, com novo comando técnico isso parece ter sido resolvido e obviamente faz com que qualquer ataque que vá enfrentar Denver tenha um alto risco de fazer sua pior performance na temporada. Uma das coisas que mais chama a atenção em boas defesas é a velocidade para chegar onde está a bola, seja pelo ar ou por terra. E não só chegar, mas forçar turnover ou ao menos assegurar o tackle imediato. Mais que isso, velocidade de movimentação em conjunto, ou seja, setores da defesa dançando conforme a música e fazendo parecer que tem mais jogador de laranja em campo que do oponente. São 3 caras chegando na bola frequentemente. Isso é talento e treinamento andando lado a lado. E é fome também. Senti no Broncos uma vontade absurda de ser dominante de novo, representada principalmente na pessoa do WR Demaryius Thomas.

Tenho criticado Thomas por jogar aparentemente sem vontade na temporada 2016, correndo rotas de uma maneira muito passiva e sem atacar a bola com a capacidade que ele tem por ser um ótimo recebedor. E o que vimos dele esse ano lembra aquele Demaryius de 2013. E é do lado da bola que ele joga, o ataque, que aparecem duas gratas surpresas em Trevor Siemian e C.J. Anderson. Esses dois ajudaram a transformar o ataque do Broncos em uma ameaça real, deixando para trás a imagem de ataque raquítico de 2016. E olha que naquele ano Siemian não foi mal, mas não teve ajuda do combo linha ofensiva+jogo terrestre (OL é fundamental no jogo corrido). Com C.J. Anderson conseguindo correr bem, Siemian parece ter evoluído e se tornado um QB mais seguro do que faz em campo. Se as coisas continuarem assim, essa é uma receita perigosa para os adversários. Aliás, a AFC Oeste vai pegar fogo! Raiders e Chiefs são outros bons times. Chargers é muito azarado, mas tem condição de melhorar sua campanha de 2016.

O Denver Broncos dominou a NFL ofensivamente em 2013 e foi uma das melhores defesas de todos os tempos em 2015. Nessa temporada, parece haver uma mistura dos dois – guardadas as devidas proporções – e isso resulta em um time bem sólido.

olho tático

No “Olho Tático”, trazemos uma análise tática da rodada com a ajuda de vídeos curtos. Para essa semana, vamos falar dos problemas ofensivos do New York Giants. Todos os vídeos aqui utilizados são captados pela câmera all 22, que pega todos os jogadores em uma visão aérea. 

Repita os vídeos quantas vezes for necessário para observar todos os detalhes.

Se você pulou diretamente para a análise tática, eu sugiro que leia o tópico “parem de culpar a linha ofensiva por tudo” (explico por que ela tem “só” 30% de culpa na proteção) nas observações gerais lá acima porque ele se encaixa perfeitamente na análise do ataque do Giants. Dentre os argumentos que usei para defender a minha posição está o que o esquema ofensivo pode fazer por aqueles que protegem o quarterback. E uma dessas chamadas é essa que se passa no vídeo acima, com Eli Manning indo para o play action e saindo – para o lado oposto ao que a OL vai – do pocket em bootleg para fazer o passe. Veja que a pressão não chegou nem perto dele.

O detalhe nessa jogada é que Ben McAdoo (falo sobre ele daqui a pouco) coloca dois recebedores praticamente em frente ao seu QB na hora que ele solta a bola. Inclusive, poderia até ter lançado para o alvo que estava mais em profundidade de maneira bem tranquila. Ambos os Tight Ends  seguem o fluxo da linha ofensiva para só depois seguirem suas rotas para o lado direito. Esse tipo de desenho bebe da mesma fonte que o que Kyle Shanahan fazia no Falcons. West Coast Offense com misdirection (jogadas que confundem a defesa pela mudança de direção). Separei essa jogada para mostrar coisas que funcionaram, pois só mostrar erros seria injusto. Foi um péssimo jogo do ataque, mas existem ideias ali que deram certo mesmo com um Eli bem abaixo do que já fez na carreira.

Esse lance serve para provar o meu ponto sobre o que bons quarterbacks podem fazer para que o jogo aéreo não pareça completamente destruído mesmo que ele tenha uma das piores linhas ofensivas lhe protegendo. Aqui, Eli não tem um pocket confortável, seus recebedores estão todos bem marcados – veremos que isso é um caso excepcional – e, mesmo assim, ele manda um belíssimo passe na rota “out”. Lançamento difícil que exige uma boa abertura em direção à lateral porque se vier um pouco para dentro ou um pouco fraco, o resultado é uma interceptação retornada para TD quase certa.

Tom Brady, Matt Ryan, Andrew Luck, dentre outros, foram alguns dos QBs mais pressionados em tempos recentes e ainda assim conseguiram fazer seus ataques andarem e anotaram muitos touchdowns. O próprio Eli Manning, em melhor forma, já conduziu o time em ótimos jogos mesmo não tendo uma proteção decente à sua frente. Quarterbacks acima da média fazem a coisa acontecer pelo ar independente da OL, pois como disse nas observações gerais, esquema + bom QB são mais importantes para a proteção do próprio que o grupo de cinco brutamontes do ataque. Eles são protagonistas para abrir espaço para as corridas. Na proteção são bem menos responsáveis.

Chegou a hora de falar do cara mais xingado pela torcida do New York Giants: Ben McAdoo. Ele tem sua parcela de responsabilidade, mas não é o grande vilão. McAdoo tem em seu playbook boas artimanhas para confundir o adversário e facilitar a vida de Eli mesmo quando não está tão bem protegido. A sequência de jogadas que são chamadas durante os jogos – ele está até considerando passar isso para o coordenador ofensivo – e a sua incapacidade de resolver o problema do jogo terrestre são seus grandes pecados.

No vídeo acima, um play action extremamente bem feito. A formação mais usada pelo Giants consiste em 3 WRs, 1 RB e 1 TE. Ela é novamente utilizada no lance, mas a diferença é que o TE está alinhado como um verdadeiro Fullback, como se fosse bloquear para o RB. O desenho da jogada é tão perfeito que não há nenhum safety recuado lá ao fundo, ambos estão adiantados e sete homens presentes no box. O play action acontece e o TE Evan Engram aparece livre na end zone para anotar seu primeiro touchdown na NFL. Ben McAdoo possui meios capazes de fazer ao menos o ataque aéreo fluir, só que para isso ele depende de um melhor desempenho do maior vilão do sistema ofensivo do time nessas duas semanas.

E ele é Eli Manning. Você pode verificar acima o lance do fumble que resultou em um TD do Detroit Lions. Como o vídeo mostra bem, existem dois alvos (vermelho e amarelo) completamente abertos apenas para serem ignorados pelo QB do Giants. Pior que isso é a pressão vir do lado que não é o “lado cego” do jogador e ainda assim conseguir forçar o fumble. São dois erros de Manning em uma jogada só, pois ele falha em lançar a bola para alguns dos alvos livres, segura demais ela e ainda sofre um fumble que resulta em TD. Um quarterback experiente não pode fazer esse tipo de coisa, ainda mais na linha de 15 jardas do seu campo de defesa.

Outra coisa que é possível perceber é que Ben McAdoo costuma dar opções ao seu camisa 10. Em quase toda jogada existe pelo menos um alvo livre para que Eli possa se livrar rápido da bola se necessário. E não só como válvula de escape emergencial, já que em diversas chamadas o jogador que serve de opção está com bom espaço para avançar em campo aberto, gerado até mesmo pela combinação das demais rotas que puxam a marcação.

Mais uma vez uma jogada bem desenhada por Ben McAdoo e mal executada pelo quarterback do time. Até a proteção foi muito boa, dando a Eli pouco mais de 4 segundos no pocket. O TE Rhett Ellison sai da direita para a esquerda para fazer um bloqueio no melhor estilo “trap” e o RB também auxilia inicialmente, somando sete atletas protegendo Manning no lance. Vale ressaltar que o LT Ereck Flowers é tão ruim que a única função dele aí é ir por dentro e fazer com que o pass rusher vá por fora para que ele seja ajudado pelo Tight End. Quase ele não consegue nem isso. Ainda acontece um “fake end around” com o recebedor da ponta direita cruzando o backfield, buscando fazer com que os linebackers se confundam e Eli tenha ainda mais tempo no pocket.

Agora volte o vídeo para o início e admire a rota “post” corrida pelo WR Odell Beckham Jr (seta vermelha). Ele gira o corpo como se fosse cortar para fora, faz o CB girar o quadril e aí sim corta para dentro, deixando seu marcador completamente fora da cobertura. No exato momento do corte, Eli está confortável no pocket e olhando para o seu principal recebedor completamente aberto em profundidade. Os grandes QBs no auge das suas formas não hesitam na hora de lançar a bola. O camisa 10 do Giants hesita, desperdiça uma grande jogada e, pior, ainda é sacado. Quase 5 segundos no pocket e ainda é sacado!

Aqui vai uma crítica tanto a Eli quanto ao seu treinador, Ben McAdoo. A jogada é boa, o passe foi completo em uma “slant” para Odell Beckham Jr, mas ela poderia ter sido melhor aproveitada. Olho na rota “seam” (seta vermelha), onde há um duelo recebedor x linebacker claramente favorável ao ataque do Giants. Manning nem olha para lá. Esse tipo de passe para OBJ é ótimo porque ele é diferenciado conquistando jardas após a recepção, porém, nesse caso, não há ninguém por ali para tentar atrair o safety e deixar ele no um contra um com o cornerback. O quarterback tem tempo suficiente no lance para olhar a posição do Free Safety, perceber que ele deixa um espaço para a rota “seam” e lançar lá. Claro que o Safety só vai totalmente para cima de OBJ depois do passe, mas bem antes ele já está bem “caído” para a esquerda. Poderia não sair um TD fácil, mas era jogada de passe longo simples para o QB.

Caso o safety recusasse e fechasse a “seam”, aí sim Eli voltaria sua atenção para a rota “slant”. Odell ajustaria e correria mais em paralelo à linha de scrimmage e teria muito espaço para ganhar jardas após a recepção. Inclusive, esse tipo de ameaça em profundidade para puxar o safety ajudaria o próprio Odell Beckham Jr em “slants” futuras com o safety preocupado com o passe longo.

O vídeo aéreo das jogadas não mente. A linha ofensiva, em termos de proteção do QB, é um problema contornável em qualquer time, desde que o próprio quarterback saiba como se proteger (diversos exemplos nessa coluna) e o esquema facilite a vida dele, o que acontece por parte de McAdoo em NY na maioria das chamadas. A ausência de um Odell Beckham Jr 100% dificulta tudo, mas Eli Manning é o grande vilão até aqui, demonstrando uma regressão em sua presença no pocket, lentidão nas leituras e, principalmente, falta de confiança, o que o leva a hesitar em passes que seriam cruciais. Não se pode hesitar na NFL e muito menos regredir. O tempo é duro e implacável mesmo com os grandes ídolos das torcidas e se ele não se acertar ao longo da temporada, pode perder seu espaço mais breve do que se imagina.

no huddle

  • RB Kareem Hunt (KC) é o primeiro jogador da história a marcar 3 TDs terrestres e 2 aéreos nos primeiros dois jogos da carreira.
  • Tom Brady agora tem 52 jogos com 3 ou mais TDs e nenhuma interceptação. Ele passou Peyton Manning, que tem 51 jogos desse tipo, e lidera a NFL no quesito.
  • O Baltimore Ravens é o terceiro time na história a conseguir 4 ou mais interceptações nos dois primeiros jogos da temporada.
  • Dak Prescott é o primeiro quarterback da NFL a lançar menos que 5 interceptações após chegar a marca de 25 touchdowns lançados como profissional.
  • O Carolina Panthers fez história ao se tornar o primeiro time desde 1981 a ceder 3 ou menos pontos nos seus dois primeiros jogos da competição.

A coluna 32 por 32 entra no ar toda quinta aqui no site. Anote na agenda e não deixe de conferir para curtir a NFL através dos seus detalhes táticos, observações e curiosidades!


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Tiago Araruna acompanha a NFL desde 2006 e é o idealizador do projeto Liga dos 32. Como Editor-Chefe do Portal, está à frente da coluna semanal 32 por 32, toda quinta no ar. Co-apresentador do Podcast Liga dos 32 que vai ao ar às quartas . No twitter: @tiagoararuna